21.6.19

NADA SERÁ COMO DEPOIS

Ernesto Artillo
O amor faz presença não-toda, para amar é preciso fazer mais com o significante Eu te amo. Não se ama como a nós mesmos, se isso fosse possível seria catastrófico. Bem sabemos como amamos a nós mesmos: sempre da forma mais trágica por sermos apaixonados pela ignorância. Desse lugar-não-todo o amor instaura o Outro como fonte de implicações, de questionamentos. Quando se ama a ignorância se torna implicação, deixa de velar nossas fragilidades para colocá-la na mesa e servisse do horror de si mesmo enquanto se ama. Freud faz saber dessa questão quando diz que a demanda de uma análise é sempre de amor. O amor ensina o quanto gozamos mal, e que não amamos mal só o outro mas a nós mesmos. Amar não é dar limite mas reconhecê-lo ao ser somatizado pelo amor. Amar não é ver qualidades no outro, mas perceber que algo falha e que há uma enorme falta na estrutura dos amantes, que por tal existir inviabiliza tornar 1+1=1, e ainda sim fazer movimento para insistir nessa via de mão dupla que faz borrão e desencontros.

Amar é tarefa difícil, não amar é cataclísmico. Amar é desejar ser amado, embora se insista quando o outro falta. Mas o amor não se sustenta apenas pela falta de um, é necessário que o outro coloque sua falta em jogo. Quando ambos desejam amar, e não apenas ser salvo pelo amor do outro. Amar é ceder algumas vezes para compreender que o vazio do outro também precisa de amparo. Amar não se trata de amenizar o desamparo do outro, mas esse desencontro no encontro do amor possibilita tocar o mais criativo que existe, porque amar toca o que nos inquieta: a vida. Por isso que amar sempre beira o caos, é na ralação da experiência de inventar o amor que se aprende novas formas de amar a mesma pessoa e, mais ainda, a amar a si mesmo atravessado do que resta da experiência de insistir no amor. O outro nos salva de amá-lo como a nós mesmo, para que se possa reconhecer as novas formas de amar para além de nós, a do outro que nos possibilita conhecer o vazio e falta que nos habita e faz sintomas. 

Maicon Jesus Vijarva

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