8.5.19

MÃE IDEAL HEROÍNA NÃO EXISTE


A função materna é um dos papéis mais complexos que uma mulher pode assumir. Deixar cair o ideal nunca foi tarefa fácil para elas, ainda mais em nosso tempo. A problemática é que muitas mulheres defendem esse ideal que não somente elas, mas como seus filhos acabam por adoecer desse delírio coletivo instaurado. Amar, cuidar, zelar e tantas outros significantes são demandas que sufocam a mulher. Antes elas sofriam sem palavras, hoje elas podem fazer melhor com as questões com o ideal, desconstruindo-o com implicações sob suas experiências às voltas desse impossível no limite que a palavra oferece.

A mulher por ser não-toda pode ensinar aos homens o quanto é impossível de alcançar esse ideal que o homem vive a criar para dar sentido à vida. Sentido esse que não suporta tocar o real da realidade. Não há sentido na vida, o que há são possibilidades de significar os significantes que dela tocamos. Uma mãe aprende essa função na experiência com não-todo humano que toca seu ventre, toca seu coração, a sua vida. 

O sujeito sofre por querer alcançar um ideal que jamais poderá, porque sua história de vida e a própria vida implica um avesso ao ideal estabelecido. Os joelhos, cotovelos, testa, nariz e o corpo todo ralado são acasos e surpresas da vida para ensinar sobre o real, sobre o que é verdadeiro diante desse impossível existir. Os acontecimentos não são um impedimento, mas um aviso que a vida exige mais de cada um de nós.

A mãe não sabe que sabe de tudo isso, mas toca esse saber quando deixa cair o impulso de impedir que o filho nasça para o mundo com os tombos da vida. Ela não é uma mãe ideal por assim ser, ela está aprendendo sobre o próprio narcisismo a tocar o próprio mundo e aprender de novo a tocar o mundo do outro de um outro lugar. Lugar esse que jamais terá uma fórmula, receita ou qualquer coisa do gênero, senão pela experiência de estar sendo enquanto toca esse impossível do real: viver a vida.

Um abraço, 
Maicon Jesus Vijarva

22.4.19

192


A gente repara que está gozando mal, quando fisga o desejo de viver inundado de um sentimento que não cabe numa única palavra, é quase como estar à beira de uma grande perda e agir com indiferença apostando que nessa deriva estaríamos a enganar a morte. No entanto, ainda não se trata disso, mas é necessário insistir nessa escrita, mesmo que ela não leve a lugar algum. Embora sempre esteja movimentando para um não-lugar. O que se percebe na perda não é necessariamente sobre o corpo físico que se relaciona cotidianamente, é mais sobre o que ultrapassa tudo isso.

É sobre algo que coça a alma, faz barulho e toca o vazio, a falta. A sensação dessa coisa que talvez seja difícil de ser dita, se assemelha ao engolir em seco, que faz tremer o corpo e parecer que exista milhares de borboletas dentro do estômago querendo sair pela boca ou um grande bicho querendo nos devorar por dentro. 

Medo. Medo de perder, não o objeto em si, mas algo da ordem do simbólico que pode emergir na ausência desse objeto. Os significantes desse significado que implica a vida. A independência convoca a cada um a se haver com o desejo e a se responsabilizar pela própria castração. Essa última que puxa o tapete e que ao mesmo tempo causa inquietação, que toca o desejo e implica a insistir em inventar uma saída, um plano B. Que possa talvez ser apenas algo para proteger a si mesmo do superego.

É quase como estar frente ao amor da sua vida e ter que se despedir por não saber se haverá uma próxima vez. Cada beijo, cada afago, cada cheiro, cada abraço, cada momento são impossíveis de ser revividos. A vida nos mostra que há um avesso, e esse avesso cobra caro pelos desperdícios. Na análise se aprende muito sobre a própria castração e, mais ainda, aprende a fazer melhor com o tempo. É sempre no fundo do poço que se pesca a sonoridade dos dizeres do inconsciente. 

Quando se perde não se está perdendo só isso. Se perde muito mais do que se imagina saber de imediato. Quem aprende a perder, aprende não sobre a ganhar, mas a reconhecer o valor de um vínculo, de um laço. Seja ele com o outro ou consigo mesmo. É mais, é saber que a vida é uma aposta, e quase sempre se aposta muito pouco no próprio desejo. 

Mais ainda não é sobre isso, é sobre o desespero de aguardar enquanto acredita estar perdendo algo que não se sabe a dimensão desse laço dentro de si mesmo. É o desespero de se ver castrado diante da vida e ainda sim insistir num plano, numa saída.

192 provoca o desejo em viver melhor.
O inconsciente dá sinais, até demais. Desejar é coisa séria, requer fôlego e insistência. Não dá para ficar desperdiçar o tempo, mas é necessário ter cautela. 

Um abraço
Maicon Jesus Vijarva

25.3.19

DOS TOMBOS SE FAZ O SUJEITO



As bebedeiras das ideias midiáticas de outrem parecem nos trazer a ilusão de eliminar os sentimentos de angústia quando entramos em contato com o estranho que nos habita. Falar em nome própria custa muito mais que alguns trocados na conta bancária; custa sustentar e se responsabilizar pelas consequências dos efeitos que se produz enquanto se conquista o espaço ao sol.

Não é possível ser alguém sozinho. A família, as amizades, as parcerias, o analista entre outros que partilhamos a vida, são peças fundamentais para a construção do que estamos nos tornando. Os que passaram em nossa vida e não puderam ficar, tiveram os seus ciclos e ficaram o tempo necessário para mostrar na prática o que Freud já havia cantado a letra: somos sujeitos castrados. Por sermos castrados, o poder sobre algo ou alguém se dissolve junto com o narcisismo que nos faz sofrer no contato com o amor. 

É no encontro do atrito da pele contra a pele, que construímos o mundo afetivo interno e externo. São as fantasias das expectativas que permitem que possamos ralar o coração, a pele e o corpo no encontro com o outro, com a existência para além da nossa própria íris. É através do toque e das relações com o outro, que aprendemos a compreender e sentir o nosso próprio mundo. 

Não é possível construir e aprender sobre si mesmo sozinho. Se faz preciso que o outro exista em sua singularidade, para que assim possamos tocar o mais íntimo de nós mesmos: o amor e o ódio são uma dessas vias. Muitas vezes amamos e odiamos o mesmo objeto em que endereçamos nosso interesse de vida. A luta é transformar o narcisismo em uma via possível para que o amor deslize e emita a sua linguagem nos corpos amantes. 

Os tombos se fazem necessários na construção de novas ideias, de novas rotas, de novos projetos e para o acesso do próprio inconsciente. No pior é que se constrói grandes ideias, grandes caminhos, e aprendemos a ser criativos com nossa própria vida. Transformando o nosso pior em ponte para que o nosso melhor possa renascer e pintar nossa história no mundo. 

Maicon Jesus Vijarva

17.3.19

SOBRE SABER E MATURIDADE



Em devaneios de pensamentos debato-me matutando quando é que iria ser maduro. A resposta: nunca. Não se trata de tornar-se maduro, mas desentulhar o caminho para que a experiência deslize e emita seus efeitos em nós. Não se trata de saber o que é a vida para começar a viver e alcançar a maturidade, mas tentar dizer para que se possa ser criativo ao viver a vida e seus efeitos.

A resposta que almejamos nunca virá, e se vir, não mais será suficiente para o tempo outro que já teremos alcançado. A maturidade é justamente a experiência do hoje, e alçamos ela vivendo entre o aprender errando e errar aprendendo.

A maturidade é desenvolvida pelo atravessamento da experiência bem-sucedida que o sujeito encontra na função materna e paterna. Quando não encontra esse ambiente citado anteriormente, o sujeito poderá contar com a sorte de topar pessoas que possam ocupar de forma satisfatória essas funções para poder acariciar as feridas e fazer das cicatrizes causa para continuar a existir e reinventar a própria vida.

O sucesso se alcança quando se aprende a fazer causa com o sofrimento, com a cicatriz que nunca será tampada com efeitos mágicos de pílulas e processos cirúrgicos. O sofrimento e dor podem ser a causa para grandes voos ou a ponta da lança direcionada a si mesmo. A luta nunca cessa. É preciso matar o leão por dia, porque ele não está na personificado na voz da imagem do outro e sim na projeção que fazemos do outro em nós.

Errar é importante e é o que nos leva a saber mais sobre o que estamos nos tornando. O saber é uma experiência e se transforma de acordo com os passos que oferecemos ao nosso inconsciente e, consequentemente, a nós mesmos.

20.2.19

ENTRE QUATRO PAREDES ESCURAS É POSSÍVEL ENXERGAR-OUVIR MELHOR


É tarde, o ponteiro interior aponta para um tempo avesso ao que se passa diante do olhos. Uma voz baixa, de tom pueril exclama aos gritos que a direção do caminho está precipitada. Loucura! É uma doideira só que atormenta e faz ecos. Às vezes parece que se está beira da loucura.

Escute só! Eu falo sério. Ouço vozes chamando meu nome. Um frio arrepiante na espinha-dorsal toma conta do corpo e emudece o som de socorro. Os joelhos fraquejam, mas o desejo não cede, mesmo encharcado de medo continua a percorrer o curso.

Amparado no desejo de continuar, insiste. Que garoto, que chatice de insistência. Mesmo que o corpo não queira, o desejo coça e chacoalha persistente. Burrice é tentar trapacear, as consequências são terríveis e deixam marcas no corpo. É como queimar a língua com algo quente, mas nunca mais irá passar.

O desejo deixa rastro, e ele soube ao ser avisado pelos sinais da sua mediocridade e desleixo com a própria existência. Custou algumas marcas, que são impossíveis de ver, ele as sente arder no significante da linguagem simbólica do seu corpo.

Nesse momento percebeu que não haveria palavras que suportasse a imensidão do que transbordava, inundava e dissolvia em si mesmo. A palavra não dava conta, no entanto sabia que ainda era uma possibilidade para dar lugares novos a própria história, mas sob um trabalho árduo, vagaroso e insistente.

O som da voz da analista o avisava:

Ficamos por aqui?

Até a próxima sessão.

16.2.19

O AMOR É UM ENCONTRO FÚNEBRE



Que maravilha! Agora vem você com esse sorrisinho imprestável, que me arrebata sem qualquer desejo de ser compreendido. Caramba, palhaçada sem graça. Aprender os efeitos da solidão em nós é capacitarmo-nos para viver melhor com o outro. Por que você faz amor sorrindo? Bobagem, isso que estou sentido não tem nada a ver com você. Sério. Falácia essa de amor à primeira vista. 

Eu naveguei em mares tão distantes, para me aproximou do início do conflito entre o ideal de mim e a minha falta que você me fez enxergar através da tua íris. Me afastei às pressas de tudo que eram pessoas carentes, para me esbarrar de novo no amor? Diacho, viu! 

Faz frio e penso em você. Sinto o gosto do teu beijo no escuro desse quarto que está infestado do teu cheiro. Que inferno é essa coisa de ser inundado por alguém que se quer conhece direito. OKAY! Vem com essa não superego, querendo dizer quem nem eu me conheço direito. Que não sou senhor do meu próprio corpo, casa. Sabia que essa coisa de ler Freud me levaria ao poço da loucura.

A minutes do único encontro de amor fez efeito que em anos de vida não havia sentido. Essa experiência de amar me faz desejar conversar com Deus. Que babaquice, estamos sempre a conversar com Deus, não é mesmo? Ao menos foi isso que Valter Hugo Mãe propõe em "A desumanização". Essa de Ateu? Nem vem com essa de Ateu. Ateu é um cara que vive a vida para dizer aos outros que Deus não existe, para ver se ele mesmo acredita nessa babaquice. 

Deus é algo que Descartes nomeia como uma parte soberana de nós. Embora tenha uns babacas que acreditam num Deus punitivo. Imagine a força do poder do Superego na vida desses sujeitos cheios de birra de si mesmo, deve ser pura devastação que sente por si mesmo.

Cada vez que reconheço o meu amor no outro, despenco minhas certezas de uma altura de 500 andares, o que resta são fragmentos que implicam em saber mais na minha miúdes no mundo. Aprendo a crescer sempre às voltas da experiência com outro, por ele ser não-todo faz com que coloque algo de mim para nascer o diálogo e assim nascer uma história de amor. O encontro com o outro, quando acontece, é sempre de amor e ódio. Aprender a fazer com os efeitos é que faz com que criemos vínculos que promovem o crescimento.

Sempre que me encontro com o amor, eu perco algo. Desencontro uma pessoa, um amor antigo, um sonho que não mais me cabe. O amor é foda, é meio fúnebre esses encontros e desencontros. Ufa, ainda bem que o amor me salva de mim mesmo.

Fico por aqui, acabou o café. Infelizmente. Até breve!

1.2.19

ENSAIO SOBRE O RETORNO


Retornar não é um caminho nada fácil, por desafiar e deslocar o próprio da singularidade à re[vi]ver estruturas que mexem com os afetos e traumas outrora narcotizados internamente. Desconstruir exige coragem, ousadia e generosidade. Ao demolir estruturas não estingue os efeitos do símbolo instaurado, convocando cada um a se haver com o furo, com o vazio que fica. O que resta dos nós de uma experiência catastrófica produz um saber, que não é qualquer.
Desatar nós é supor que se está rente ao corrimento da releitura da própria trajetória de um outro lugar, embora sempre haja uma confusão do lugar que se fala e do que se diz. Acompanhar os avanços do passado no tempo presente aspira na aposta do que se produziu ser dissolvido na foz, para fazer assinatura de sua reinvenção.
Os equívocos das recordações de acontecimentos [inconscientes] falham à compreensão, quando o imaginário e o real se cruzam ou colidem na tentativa de dizer e escutar o que angustia, emburrando o sujeito para os braços da brutalidade e da mais funda incompreensão do que o constitui.
Pelas palavras de Cyro Marcos Silva, é aí neste ponto que o sujeito desejante se torna desertor do Outro. Cabe-lhe então o teto de um deserto, sem um céu que o proteja. O desamparo é a cordilheira onde se situa a fonte e a nascente do desejo. Seu estuário é muito mais a incerteza de um mar do que o refúgio de um amar."

Maicon Jesus Vijarva

29.1.19

SOBRE A VIDA: PACIÊNCIA, OBSERVAÇÃO E TEMPO



Na relação da construção de laços afetivos consigo mesmo e, consequentemente, com o outro necessitam de um pouco mais de calma, paciência. Mesmo que a vida não pare. O tempo vive a acelerar, mesmo que debrucemos em carne, osso e pele para que a vida seja um pouco menos caótica, ou pouco mais leve. Lenine em sua letra-canção diz: um pouco mais de paciente, um pouco mais de alma...a vida não para, a vida é tão rara.

A gente espera do mundo e o mundo espera de nós, um pouco mais de paciência, ainda acrescenta Lenine. O corpo vive nos pedindo uma conciliação com a alma [ um dos nomes do Inconsciente]. Não é nada fácil sustentar uma vida, ela é rara e singular à cada sujeito, mesmo que partilhada em alguns momentos de existência. 

Os laços mais difíceis e trabalhosos são os que não podem ser rompidos sem deixar um rasgo e uma ferida que jamais poderá ser cicatrizada por completo. Lembro-me numa visita a um hospital, em que me vestia de jaleco branco com cara pintada e nariz de palhaço, fiz um homem com uma expressão triste, sorrir. Não ganhei um dia ali, mas algo despertou em mim um vazio insuportável. 

Não sabia ao certo a razão, eu chorei. Ele vendo algumas lágrimas mancharem minha máscara, disse sorrindo: a vida é muito difícil meu jovem. Eu não sei se vou morrer, mas de alguma forma morro aos poucos nessa solidão que eu mesmo criei para mim. O que fazer quando a vida te coloca à prova para refleti-la de forma nua e crua? Faltavam palavras que pudessem representar a imensidão que aquela experiência me provocava. Ainda sinto ela a cada experiência com meus pacientes. 

A vida é uma incerteza, e não há culpados, mas é preciso se responsabilizar pelo que fica, pelo que resta do resto de uma experiência. A minha atitude foi colher o seu sofrimento pela escuta, que naquela época com 15-16 anos, sequer sabia alguma coisa da vida, ou que essa atitude teria algum efeito ou mais ainda, que me esbarraria com a Psicanálise no caminhar do meu percurso.

David Levisky em seu Livro A vida?... É logo ali,Editora Blucher, implica ao escrever: a paciência, a observação e o tempo colaboram para que um e outro descubram a linguagem da relação que poderá ou não ser transformada em códigos sociais de comunicação. A espera de que eles nos compreendam conflita com a nossa incompreensão do que eles necessitam. Isso é desesperador e faz parte do processo de desenvolvimento. Querer alterar o processo é violentar a si e ao outro.

Escrever é um ato de coragem e amadurecimento dos próprios defeitos e qualidades.

Imagem: @gertscheerlinck

8.1.19

ENSAIO SOBRE O HORROR E A BELEZA DE SE DESCOBRIR HUMANO


Quando adolescente, Miguel com frequência fantasiava o amor. A sua primeira maior frustração dolorosa, foi sentir que não era possível segurar quem se ama em seu próprio mundo, e pior ainda, o alívio de não pertencer ao mundo do outro parecia tão frágil que acabava por vezes caindo de joelhos dominado pelo sabor agridoce da sedução de quem endereçava seu amor, ameaçando a sua própria singularidade e o vínculo ali estabelecido. 

Desde garoto sentia-se à margem dos grupos sociais daquela época, não tão distante deste presente. Admirava as bandas ABA, The Police, Prince, Michel Jackson, Queen, Pink Floyd, Madonna e tantos outros artistas que expressavam um desejo de descolamento da realidade possível de fantasiar um mundo outro que pudesse ancorar sua dor e sofrimento em existir. 

A rebeldia queimava seus olhos de desespero por não poder controlar o sentimento de amor que expandia sem limite e denunciava mais de sua falta. Sentia raiva e ódio pelas barreiras que impunham sobre a maneira de como desbravava a si mesmo e ao seu redor. Os erros e as frustrações transformados em lagrimas desobstruíram sua visão. Neste momento descobriu que quem mais impedia o seu crescimento era quem menos esperava, embora sentia no fundo do peito certa dedução a respeito: era ele mesmo. 

Tudo se tornou um pouco menos caótico, mas não mesmo doloroso e angustiante. Acolher e se responsabilizar pelo saber que se revelou e se fez tão verdadeiro, custava grandes perdas, e ele pouco sabia da dimensão da perda, embora tão jovem já tivesse perdido tanto. A partir desse momento algo mudou em seu interior, passou a se espantar pela vida e pelas experiências que o apresentava cada vez mais sobre sua singularidade, que nunca imaginou que lhe pertencia. 

Foi reconhecendo sua falta e o que acontecia de forma indomável, que Miguel pode entender que o outro é importante para que ele pudesse se perceber humano. Embora, tudo em sua vida não dependeria de ninguém, a não ser a ética com o seu desejo. 

Abraços,
Maicon Jesus Vijarva

5.1.19

O ESTILO ORIGINAL DE EXISTIR ESTÁ NA PRÁTICA EM TOLERAR A INCONSTÂNCIA DA VIDA



Desconfio da energia positiva que as pessoas buscam, em palavras, denunciar em gritos ao mundo. Não que seja de todo ruim, mas a vida é tão mais simples, caótica e indomável que se torna impossível e insuportável de sustentar essa eminente ideia utópica de que podemos controlar o que nos acontece em vida. A obviedade da vida é tão básica que chega a cegar, e acaba sendo um disparate acreditar que não podemos ter qualquer poder sobre ela. De modo simples, quando o humano coloca sua mão para modificar em sua literalidade a natureza, muitas vezes desencadeia um efeito reverso drástico à sua própria existência.

Decido a partir desse barulho que me faz dançar em movimentos reflexivos, escrever sobre a minha restrita visão e contribuir de alguma forma com um suposto saber disso que me borbulha à alma. A ideia é a metade de um todo, visto que não existe um todo-saber, mas uma ideia minúscula do que pode se tratar. O estilo original como podemos aprender nos escritos freudianos, lacaniano e essencialmente bioniano, depende da capacidade emocional de cada sujeito em suportar as adversidades da vida. Não sem um preço altíssimo a ser pago.

Acredito ser útil declarar que a repetição é única, por ser um movimento em espiral, e sem ela não somos capazes de transformar a própria vida, desobstruindo o caminho para que sejamos cada vez mais criativos na experiência que se desenvolve à nossa frente. Sempre falta alguma experiência, alguns cafés e muita loucura esquizofrênica para suportar a vida e transformá-la. Essa falta é constitucional, e se faz necessária para que o impossível seja possível de colorir.

Muitas vezes é próprio que se beba o café gelado que deixou esfriar. Não raro, a vida oferece uma experiência repetidas vezes, mas com um gosto não tão mais agradável, que, no entanto, traz consigo uma visão mais amadurecida de nós mesmos. Não nascemos com um manual de instrução. É preciso arregaçar as mangas, e os punhos para quem não tenha mangas, para viver a própria experiência e dar corpo ao próprio estilo original. Para isso é fundamental que cada sujeito em vida, seja capaz de acolher sua própria dor, reconhecendo as próprias ferramentas que possuem para então lançar-se em vida e apostar tudo em si mesmo.

Além dessa constância, é importante que sejamos tolerantes e amáveis com as próprias fraquezas, inseguranças e dificuldades, pois ninguém nasce pronto para aprender a suportar as dificuldades da vida. Não será a primeira e última vez que cada um de nós, humanos, nos sentiremos como um E.T frente aos dissabores que surgem, quando se arrisca em apostar tudo e até mesmo o que não se tem em si mesmo e nos próprios sonhos.

A persistência em trabalhar para desobstruir o caminho, traz uma fluidez para que a criatividade em fazer melhor com a experiência ocorra de forma natural, que se torna impossível de descrever em palavras, por falta de vocabulário. Somente a prática e a tolerância com as inconstâncias da vida farão com que cada sujeito em vida seja capaz de reconhecer e transformar o seu próprio estilo de existir.

É atravessado pela capacidade de ser amável com a própria dor e mazelas que se torna possível intuir e reconhecer a profundeza da experiência de vida dos outros que compartilham a vida conosco. O amor é a experiência que nos leva a uma vida possível de ser vivida.

Grande abraço carinho,
Maicon Vijarva