14.11.18

A LIBERDADE CERCEADA



Um dia, cedo ou tarde, as coisas vão clareando e torna-se possível testemunhar no real que a liberdade cerceada não é determinada pelo outro, mas pelo próprio sujeito. Os muros que se levantam em nosso redor, nascem na vã tentativa de proteger. Quem se deseja proteger? O outro de nós mesmos, ou nós de nós mesmos?

Não existem culpados, talvez a aposta seja na crítica interna arrasadora e os preconceitos pessoais. Arrisco. Podemos colocar também nessa conta, os responsáveis não identificáveis.  É muito fácil responsabilizar o mundo externo, mas em que pé fica a responsabilidade do mundo interno?

É constrangedor aguçar a escuta para ouvir as próprias questões íntimas e publicar a estranheza desconhecida [tão bem conhecida e reprimida] de nós mesmos. Deste lugar desconhecido que brota os equívocos entre o saber e o ser. A vida bem como a experiência da dupla analítica se manifesta de forma marcante e tomam dimensões na qual torna-se impossível ser transcritas ou verbalizadas pela palavra com clareza.

O conhecimento é uma ponte e não uma experiência: só podemos pensar sobre alguma coisa que já passou. Diferente disso, a cabeça será apenas uma máquina de moer e triturar pensamentos, sentimentos e lembranças atrapalhadas. Todo esse caos oferece um desmoronamento psíquico perturbador e imagens distorcidas de si mesmo de forma horrenda no real.

A-colher essa estranheza desconhecida produz uma capacidade de maturidade emocional para fazer melhor na experiência com os acasos e surpresas da vida. No contato com o seu pior, o sujeito reúne energia psíquica necessária para vencer as resistências pessoais, do silêncio da negação, dos tabus, censuras, segredos, medos e isolamento causados pelos muros erguidos por ele mesmo em sua volta.

A experiência com a psicanálise oferece ao ser humano o retorno para o contato e abertura do seu mundo interno para si mesmo e, consequentemente, para os outros, dissipando o caos e oferecendo a si o tempo necessário para sofrer e ser transformado pelos efeitos desse lugar. Só se pode aprender a lidar com as dificuldades do cotidiano quando se reconhece a importância de viver o sofrimento e a dor da perda.

Abraços, 
Maicon Vijarva 

6.11.18

DESCONSTRUIR O LUGAR IDEAL PARA IMAGINAR O FUTURO REAL


 

A vida se revela através das experiências que não se ensinam, mas que se vivem. Tem coisas que não se transmite. É preciso dar algumas trombadas para sentir mais fôlego pelo percurso. A história só acaba quando desistimos de contar as maluquices que nossa mente revolucionária inventa para que seja possível existir no real paralelo ao imaginário; um nobre ato de ousadia em persistir no caminho para que, de alguma forma, a fantasia quase-sempre possa se transforma em realidade.

Através da linguagem e não somente por ela, o sujeito convoca o inconsciente ao risco de se manifestar à consciência no seu êxito de ultrapassar o grande outro. A criança guiada pela imagem numa experiência catastrófica de deus-nos-acuda constitutivo faz-saber das invenções criativas dos significantes da verdade que através do ato traz à luz a possibilidade de ouvir do lugar que fala[falta]: dissolver o ideal do adulto numa desconstrução lúdica regada pelos contos de fadas ou mitos.

A tentativa imaginária pelo real é de reeditar a própria estória, de maneira a reduzir os atritos psíquicos da experiência entre a fantasia e a realidade e os seus efeitos no mundo real interno e externo; é uma maneira de reconhecer, respeitar e desconstruir o lugar ideal que desde a infância aprende-se a sustentar na estrutura psíquica.

É desse dinamismo que nasce a rasura do discurso conservador e a possibilidade de uma invenção em fazer-saber do não-lugar da falta e do vazio que inspira ou expira o ser do sujeito atravessado dessas transformações externa e interna do subjetivo no contato com o coletivo que produz inconsciente: a psicanálise se interessa justamente pelo que esgota desse atrito povoado de horror e efeitos caóticos.

Logo, a experiência se apresenta como testemunho de uma desconstrução necessária do lugar de ideal, para que a falta e o vazio possam existir permitindo circular maior variedade de significações, sabores e dissabores que a vida pode nos oferecer.

Tem coisas que não se transmite, aprende na experiência de viver.



Abraços,
Maicon Vijarva

30.10.18

SOBRE PRE-VER O DESTINO


A vida não depende tão-somente de nós; o contexto familiar, social e cultural são de extraordinário valor na afinidade entre a expectativa e a realidade. Os resultados esperados do que se previa desenha um borrão cruel na imagem idealizada. Contratempos, equívocos e surpresas ocorrem e são importantes durante a passagem da fantasia para o real. É necessário levar em conta os impedimentos que podem e irão ocorrer.

Vivemos em tempos compulsivos, convulsionando uma positividade e passividade frente à vida, que encurrala e inviabiliza enxergar as irregularidades da visão do horizonte.  Desde seus primórdios o ser humano vive uma ilusão frenética em prever tudo que ultrapassa o seu controle: o tempo, o amor, a morte etc. As previsões futurísticas anunciam um perfeito fracasso nas tentativas de controlar o indomável, que escorre entre os dedos do universo anatômico humano.

O amor, o tempo, a morte e tantos outros furos que ultrapassam o humano, se mostram anos luz à frente à época. Planos promissores autenticam fiascos resultados na realidade. E por incrível que pareça, o despertador sempre está ajustado a acordar em um passo do paraíso.

Isso testemunha que, no instante em que se transmite à cargo do acaso, as oportunidades de se frustrar são assombrosas. É preciso se entregar aos planos ambiciosos, mas é fundamental colocar na conta o imprevisto, a surpresa e a falha que implica recalcular todo o roteiro escrito detalhadamente por cada sujeito.

Acreditar que o universo seguirá à risca o roteiro ideal de vida é uma ilusão com dimensões 3D, que assusta e decepciona em nível tridimensional. Vale lembrar que na experiência psicanalítica, cada sujeito aprende [às voltas de sua subjetividade] a compreender que o tempo da vida acontece em função da ausência de previsão.

A experiência convoca o sujeito a se desenhar através da sua ignorância, não do que aposta saber. Todo mundo sabe alguma coisa do objeto de desejo, mas poucos tiveram a oportunidade de viver a experiência com e atravessado por ele. As rotas determinadas que o sujeito insiste em seguir cegamente muitas vezes estão largas ou curtas a sua realidade, levando sempre ao choque brutal de ruas sem saída.

Logo, a tentativa desse ensaio informar que todo esse dinamismo rasura o discurso da perfeição, da verdade inteira de um saber. Um dito é certo: a cada um cabe, à sua maneira, reinventar e manter viva sua existência. A única garantia é que o amor anuncia a passagem do tempo: a morte. O dia dura o tempo necessário para que o amanhã floresça.

Abraços, 
Maicon Vijarva 

24.10.18

A ÉTICA DE SE FAZER EXISTIR


Muitas vezes, quando se busca o lugar de analisante, o sujeito dá espaço à divisão do não-lugar em sua vida. Assume o momento exato em que estar à beira, na ponta do precipício. Olhar para si mesmo é, senão olhar para o abismo, olhar para o interior; e o mais próximo possível mergulhar no desconhecido que emerge.

A vida são folhas, telas e paisagens neutras esperando que cada um de nós coloque algo de mais belo e ao mesmo tempo de mais caótico de si em cores de poesia, arte e invenção peculiar. A vida espera de cada sujeito a ética de sua subjetividade no coletivo social.

Aposto tudo na ideia de que a psicanálise seja dessa ordem de promover do não-dito, do não-lugar, do não-sucesso um fazer-saber do verdadeiro diálogo: no sentido de escutar a alteridade subjetividade da invenção do que borbulha dentro de cada um de nós: sujeitos-humanos-desejantes.

Embora há quem viva bem sem análise, pagando caro pela indecisão de jazer à beira do penhasco e, cá entre nós, esse não é o melhor lugar para se estar. Para alcançar alguma-coisa na vida, faz-se necessário respirar fundo e dar alguns passos e pular em direção à escuridão atemporal de nós mesmos: acessando o discurso ilógico do inconsciente.

Somente nessa aposta de fazer-saber sobre o desconhecido do inconsciente é que aprende-se melhor sobre o frescor de existir. As metáforas são necessárias para que o sujeito possa criar um suposto saber do que implica o não-lugar. Desconstruir o caminho já conhecido, para que seja possível abrir um enorme espaço disforme que divide o que se foi do que ainda se fará necessário criar para existir e seguir inventando.

Na experiência da dura tarefa de exis[insistir]tir, voltar significará repetir obsessivamente as dolorosas lembranças de nadar no pântano pegajoso da indecisão: pular ou não na escuridão interior desse abismo. A experiência na vida é irônica, tem um senso de humor bem estranho e convoca o sujeito à coragem em aprender melhor sobre como existir no mundo.

A aposta é justamente essa ou passar o resto da vida com os pés acorrentados no alto de um penhasco, escutando os ruídos de lembranças de um passado catastrófico e sentindo o frio que chama ao fôlego da existência. O que nos prende no passado são as razões de um futuro incerto, frágil que sem medo muda o tempo todo. 
Nunca se saberá ao certo o que guarda o abismo tampouco o que reserva o futuro para quem vive. A experiência convoca cada um a se responsabilizar pelo que está disposto a perder em arriscar pela ética de se fazer existir.

Abraços, 
Maicon Vijarva 

23.10.18

A VIDA QUE QUEREMOS É LOGO, LOGO ALI


É ilusão, uma mentira bem contada e vendida com aparência de verdade. A vida que se espera nunca vai acontecer, exatamente pela sua localização na posição de espera, de justificar o injustificável, de viver na sombra do que deu errado. A obviedade está escancarada, só não vê quem não quer: não existe uma receita explicativa de como deve ser feito, ou melhor, de como o sujeito deve se sentir quando algo dá errado.

O mistério surpreendente é pensar o que se pode, diante do impossível, inventar quando algo falha ou emperra o pé fazendo com que tropecemos em nós mesmos. Essa coisa de viver é um risco. Nada é muito certo. Quase sempre insistir é uma aposta que arde as bochechas, embrulha o estômago e numa esperança faz sorrir das atrocidades que cometemos com nós mesmos, por medo de realmente dar conta do planejado.

O percurso do outro é sempre visto com um olhar invejoso, de sorte, porque só se deseja enxergar a casca do resultado e não a essência do percurso catastrófico. O medo do futuro muitas vezes, quase sempre, paralisa o sujeito entre o que se foi e o que talvez nunca virá, justamente por estar impregnados dos fantasmas da palavra: “se”.

A ilusão é um prato requentado: não mata mas mantém a vontade [desejo] de vida enganada. A vida que se deseja é aqui, no movimento de invenção em ato de pensar o que convoca o sujeito a fazer com seu vazio, falta.

Abraço, 
Maicon Vijarva

3.10.18

DIAS CURTOS, VIDA LONGA

Os ponteiros do relógio deslizam numa fração de milésimos e, quando nos damos conta, já estamos ultrapassados por des-culpas. Não há como reconstruir sobre escombros. Mesmo que seja doloroso se faz necessário e, sem dúvida, ético que o sujeito se posicione no âmbito de sua dor. Respirar fundo, não significa engolir sapos, mas aprender a economia da energia psíquica, sem desperdícios, para que se faça possível no real sustentar o percurso que se busca.

O tempo não leva desaforo, talvez deva a questão que não há tempo a perder com o que não veste. A necessidade de reconhecer o próprio corpo, o lugar e o peso que ele ocupa no espaço tempo que permanecemos, promove um rompimento com a repetição obsessiva do antigo-tão-novo que sempre irá insistir na reivindicação do seu lugar em nós.

Talvez seja essa a razão qual perdemos o lugar tão almejado, fracassando no êxito. O sucesso depende da aposta num futuro incerto e sem modelo definido. Em hipótese, arrisco a colocar a experiência da análise em pauta. O sujeito quer alcançar uma vida menos caótica, mas quando percebe que será necessário se ralar todo, hesita e acaba pagando um preço muito mais alto por ter recuado de si mesmo.

Dentro de cada um de nós, sujeito humano, há partículas minúsculas que carecem de um pensador para pensá-las melhor. Quando abandonadas à mercê sob a ordem da irresponsabilidade de si mesmo, a vida vai se oxidam com o tempo, endurecendo o corpo falante e faltante, envelhecendo o vocabulário que possibilitaria ultrapassar o lugar medíocre de vitimização.

O sujeito não apenas leva em si mesmo somente o que consegue carregar, em última instância, excedendo sua capacidade. Mas também carrega as próprias perdas embebidas de memórias de angústia, dor, inspirações e sonhos não-realizados. O ser humano transpira uma história que ultrapassa o sentido, o tempo e a sua própria existência no mundo, que são às vezes condensadas em criação e, outras, num limpo de um quadro branco que emperra, engessando o movimento de desejo de vida.

A proposta da psicanálise é deslocar, desconstruindo o lugar assumido pelo sujeito de ser robusto ao olhar do outro, para se elevar a um alto nível cultural que não faz sentido para a transformação de si mesmo. Na análise os desejos recalcados trazem à consciência, ao discurso a esperança de se realizarem através do a-colher da escuta do analista.

Os dias podem ser curtos, mas para o sujeito que aposta no osso de fazer-saber de si mesmo na experiência da montanha-russa-da-análise, certamente reconhecerá a vida longa e bem vivida que experimentar nos intervalos que o inconsciente em análise pode possibilitar.

Abraço,

Maicon Vijarva 

26.9.18

MAIS, AINDA AMOR


A vida é uma montanha de escombros. A arte de viver é justamente reconhecer o pior que existe em cada sujeito, para que seja possível desenvolver a capacidade de suportar ultrapassar a leveza do que tange a [des]ordem do amor.

O antagônico do amor é o ódio que se nega pelo outro, sendo ambos constituído por uma dupla face de um mesmo corpo que sustenta a atemporalidade ilógica da gravidade da vida, a força fraca e a força forte que endereça o sujeito em direção à experiência com o mundo externo, atravessado pela falta do outro.

A dança das cadeiras no que implica o relacionamento, é uma maneira pueril de negar a possibilidade de cair de joelhos pela incapacidade de suportar o que o amor oferece, a impossibilidade de caber na falta [demanda] do outro.

Amar não é simples, mas é uma belezura insuportável de sentir. O amor não causa desgaste, dor ou sofrimento. O que convoca o amor a sair de cena é o narcisismo desmedido, mas sem certa dose de narcisismo é impossível que o amor se sustente e atravesse a dupla amorosa. O amor nasce na capacidade de sustentar a frágil linha da singularidade.

Em última pontuação, completo a reflexão com uma implicação da psicanalista Ana Suy, “Amor é aquela coisa que, por vezes, quando sobra, é porque está faltando”.

Abraço,
Maicon Vijarva

21.9.18

O SABER INCOMPLETO EM NOSSO TEMPO


O futuro depende de como cada sujeito reconhece e interpreta o horror e beleza do seu sintoma no presente, uma vez que, tanto o mundo quanto ao saber que se constrói consigo mesmo e com o outro se faz-saber disforme e incompleto.

A globalização de nosso tempo instaura um relevo de questionamento sobre algo que já insinuava um ruído daquilo que o humano significava como conhecimento. A psicanálise desde Freud inaugurava uma litura sobre o que o sujeito discursa como saber e faz questão sobre o conhecimento, promovendo a pulga da dúvida sobre o saber completo.

Se o mundo novo é horizontal, com aludes de saberes incompletos, logo o mundo e o saber são incompletos em sua totalidade. Qualquer que seja a conclusão que produzimos das coisas, do outro e de nós mesmos são precipitadas.

Toda essa ideia faz auê na construção de um saber, quando a praga da reflexão atravessa e desata os pilares ruindo o que sustenta a ilusão social. O sujeito que espera um saber completo de tudo que compõe um silogismo, para então apostar em seu percurso, está predestinado a ser engolido pela areia movediça da indecisão.

Se é impossível prever o futuro, saber-fazer [em análise] sobre o que nos causa, possibilita que sejamos melhores na capacidade em reconhecer o percurso do presente que nos levará a sermos criativos na aposto do futuro.

Abraço,
Maicon Vijarva

18.9.18

O AMOR É DE UM TEMPO NÃO LÓGICO

 

Idealizar o outro que endereçamos nosso amor romantizado, admirando, querendo [mesmo que impossível] tatuá-lo em nossa pela é inevitável. A ordem do mistério que tange o amor faz com que o sujeito se contorça em decepções e fúria.

É uma oportunidade compreender que nada se aprende sobre o amor, é descobrir que é mais sobre conhecer os efeitos da experiência e, por mais que amemos o outro, não poderá ele nos salvar de nós mesmos, por causa disso.

Tampouco seremos nós a salvação das mazelas que emperram a vida daquele que endereça o seu amor à nós. Compreender isso tudo, envolve muito trabalho, seja dentro ou fora da análise. Fazer-saber mais sobre isso não vem por gravidade, mas de um suor que nos atravessa o campo lógico.

É uma ilusão confortadora e apaziguadora imaginar que todo perrengue que enfrentamos durante nosso percurso de vida será compensado por o surgimento de um príncipe encantado ou princesa que possa iluminar o umbral que vivemos após as experiências catastróficas com os ex-amores.

Em contraponto, seria muito mais justo se pudéssemos reconhecer que é muito mais proveitoso estar aberto a novas experiências, sabendo do risco de cometermos os mesmos erros, de uma maneira diferente, singular.

Não se trata de ganhar ou perder, mas de apostar tudo em algo que não se sabe em que vai dar e sentir o doçura e azedume que é gozar melhor na vida.

Abraço,
Maicon Vijarva

28.8.18

SOBRE O AMOR



AMAR é se mover na pele do outro na tentativa de criar laços, para dilatá-lo na palavra-corpo: nós. Mas é sucinto desenhar nessa experiência, o zelo de reconhecer que se faz próprio deixar que o outro possa existir para que o amor faça sua existência nesse corpo que se reinventa no atrito do elo. É desse deixar que o amor nasce, mas traz em si a frustração de nunca poder fazer do outro uma morada, corpo único.

O amor é um cavalo indomável que precisa viver na pluralidade, para que possa existir na singularidade do corpo. Saber sobre amor não garante que se saiba amar, dizer o que possa vir a ser amor é a tentativa de tornar o mundo menos caótico, porque até falar de amor sintetiza o outro em nós, fazendo circular que o desejo de poder fazer do outro uma casa, embora seja um lar acolhedor, nunca se realize [o desejo realizado dissolve o amor no limbo do infinito, sufocando-o em si mesmo].

A análise promove justamente fazer-saber sobre nossa insignificância, ignorância e impossibilidade de ser humano que tudo pode. O sujeito pode muitas coisas, mas não tudo. Uma delas é nunca saber quem amar, como amar e quando amar.

Trata-se de resignificar o horror do outro oferecendo um espaço acolhedor dentro de nós, possibilitando significado outro ao que nossos olhos repudiam no objeto que endereçamos o nosso amor e ódio. A dinâmica do amor não é justa, ela desconstrói e nos deixa vulneráveis, convocando a observar por fora o quanto somos inquilinos de nós mesmos e do mundo do outro.

Abraço,
Maicon Vijarva

16.7.18

A PERDA DO OBJETO ELEITO: O AMADO


A perda do objeto de amor eleito pelo sujeito instaura uma ruptura que levará consigo por todo seu percurso. O vazio leva o sujeito à deriva, e por sua vez o ego rejeita a frustração de não mais sentir as bordas que o protegem da insegurança de se estar à mercê das investidas da vida sobre sua existência, colando-se nas lembranças da imagem do que partiu.

As forças inconscientes implicam o sujeito à repetição, é por isso que o sujeito para amenizar o desconforto que a perda do objeto de amor instaura procura em novos laços o estilo do velho amor: fragrância, traços, palavras, características e, sem dúvida, o que mais acreditava odiar no objeto de amor, que não mais poderão ser sentidas como antes, mesmo que volte a estar junto com o mesmo objeto.

A devastação da perda deixa o rastro do desamparo e amor sequestrado pelo outro: o amado. O ego cheio de insatisfação advinda da frustração da perda investe na ilusão de redesenhar no tempo-fotografia capturado a vida vivida com o objeto perdido numa espiral de repetições até fazer-saber sobre sua capacidade de reconhecer a responsabilidade diante do fim.

A dinâmica do amor é espantosa, se antes pensava-se no objeto de amor com certa frequência, com a perde o amor acentua mais ainda sua posição-memória sobre o sujeito amante. A vida poderá existir milhares que ofereçam o seu amor para esse sujeito amante, mas ainda estará à mercê dos resquícios-efeitos das lavas vulcânicas do amor pelo objeto amado.

Os lapsos de memória recaem sobre o sujeito com o peso da tonelada de uma pena, alucinando sentir o perfume, a voz, ou a imagem do amado entre a multidão. O ego se entristece e navega num oceano depressivo de reflexões à cerca das recordações da história interrompida, da graça não mais retribuída, das gargalhadas e sorrisos não mais visíveis aos seus olhos.

As implicações desses amores interrompidos são sentidos na composição do corpo-memória da personalidade do sujeito amante, que o marcam como uma cola impossível de desgrudar da alma, convulsionando lembranças de um sentir impalpável, mas que ocupa boa parte do sua existência psíquica.

Na ilusão de saber sobre o amor, o sujeito ignora o seu avesso, que sempre instaura um sofrimento doloroso. Quando se ama não se sabe quanto tempo se tem para amar e ser amado. O amor é indomável, talvez por isso cause tanto horror e espanto no ser humano que deseja categorizar o amor através de um nome, uma posição, um caminho e/ou um método para amar de forma correta.

O tempo não para mesmo que a perda emperre o ego de continuar o seu frenético percurso. O relógio continua a desenhar a passagem do tempo convocando o sujeito a pensar, elaborar e reconhecer que é tempo de reorganização. É trabalhoso o processo de inventar um novo ambiente no espaço vazio deixado pelo amado-eleito, exige responsabilidade em ser criativo na dinâmica de dividir o tempo para cada novo projeto de vida sem o amado.

A elaboração da perda oferece o sentimento de gratidão [mesmo que dolorosa] pela história vida, transformando a culpa em reconhecimento, a dor se decompõe para nascer o sentimento de saudade que implica o sujeito a fazer-melhor-com-seu-sofrimento.

É necessário que o sujeito possa sentir o processo doloroso que a perda amorosa ou qualquer outra origem ocupe em sua vida, para que na idade do envelhecimento do corpo a psique não atormente-o com memórias que foram engolidas a seco em nome de um equilíbrio-social-emocional.

Abraço,
Maicon Vijarva

14.7.18

DUVIDAR DO ÓBVIO




Tornar-se analista está muito mais ligado a ordem da própria experiência no lugar de analisante. Lugar esse tão importante para o sujeito desejante por sustentar esse lugar independente da adversidade que pode e irá ocorrer.

A experiência da análise e da dupla analítica pode possibilitar ao sujeito analisante ser tocado pelo horror e beleza que constitui o ser humano, e a partir desse tocar se interessar em assumir um lugar outro tão mais angustiante do que estar no lugar de analisante.

Ser analista não é uma posição que pode ser alcançada por qualquer um, ela demanda uma autorização do próprio sujeito diante da sua própria análise e cuidado de si mesmo. Por isso que o analista precisa duvidar do óbvio que está no discurso do analisante, e essa escuta apurada e cuidadosa só pode ser alcançada pela experiência analítica na posição de analisante.

Portanto para aprender o sentido do não sentido da psicanálise, faz-se necessário ingressar no angustiante processo da experiência analítica.

É POSSÍVEL AGREGAR MAIS DE UMA ABORDAGEM NA CLÍNICA?


O sujeito só pode seguir um caminho, por demandar dele certo tempo e investimento para sustentar tal percurso desejado. Não é qualquer um que se submete ao processo de análise, por isso é importante que aquele que deseja ocupar o lugar de analista possa estar avisado e orientado de sua função frente ao sujeito que o procura.

A experiência da análise oferece ao olhar do analisante a possibilidade de um horizonte de opções, podendo ele determinar qual caminho não faz sentido a ele, abraçar todos os caminhos só emperrará mais ainda a sua vida. Partindo dessa lógica, o sentido é que fica inviável submeter a dupla analítica a mais de um método, visto que uma hora ou outra o impasse das abordagem irá colidir uma a outra inviabilizando o ato analítico.

O sujeito precisa de acolhimento, de um analista que leve as últimas consequências a sua análise pessoal e seus estudos teóricos, para que não precise utilizar de maneira equivocada vários métodos para dar conta da demanda do outro.

Em suma, utilizar-se de várias abordagem é de certa forma sustentar e se moldar a todo custo a demanda do outro, o que bem sabemos ser impossível.

22.6.18

ATITUDE PSICANALÍTICA: AUTORIZAR-SE ANALISTA


A capacidade de um sujeito de tornar-se analista está na sua posição de responsabilidade e ética para com três fatores essenciais, o primeiro fator e mais importante é a análise pessoal, os seguintes e não menos importantes são estudo teórico e supervisão.
Esse dinamismo possibilita ao sujeito que busca assumir a posição de analista a base para construir sua própria linguagem e teoria, levando em conta que a psicanálise é uma parte construção de retornos a Freud e outra são elementos importantes do sujeito que deseja assumir ela como linguagem de percurso.
Autorizar-se como analista trata-se de uma atitude única e pessoal, que vai se desenvolvendo com o passar do exercício de análise pessoal, clínico e teórico em psicanálise, os quais estão intimamente ligados e são interinfluenciáveis.
O encontro da atitude psicanalítica está na ordem de inúmeras consequências de fatores, reconhecendo limites e desenhando as condições mínimas necessárias para analisar quem se propõe ao ato de ser analisado.
O analista precisa criar sua própria identidade e linguagem a partir das bases propostas por Freud, buscando sempre ir mais ainda à frente, ultrapassando-o com novas formulações e expandindo a psicanálise para novos pólos, sempre às voltas da ética e responsabilidade.
Em suma, saber sobre psicanálise só se faz possível através da experiência de assumir o lugar  angustiante de analisante, essa experiência de sustentar e levar até as últimas conseqüências a sua análise pessoal poderá contribuir para que o sujeito possa se autorizar a torna-ser analista.

22.5.18

SOBRE LAÇOS AMOROSOS E NÓS ALIENADOS


Só um milagre faz da destruição uma forma de esperança.
Luiz Felipe Ponde

Amor e ódio são sentimentos responsáveis por promover a união de partes, a ligação das faltas que não se completam, mas unem-se para criar algo com a imensidão que essa junção acende [provoca] em cada um de nós.

São sentimentos que guardam em si uma função de sustentar duas ou mais pessoas em um laço amoroso ou amigável, e também revela em seu desdobramento uma variação que não se prende em saberes, por isso merece um olhar mais cuidadoso.

A rapidez do quotidiano e das relações instantâneas nos impossibilita muitas vezes de pensar melhor, repensar com mais cuidado nossas relações com aqueles que nos unimos para desenhar um percurso. Acreditamos muitas vezes que estamos ligados intimamente a alguém, e muitas vezes possuímos uma rasa capacidade de reconhecer e/ou questionar os efeitos dessa função de vínculo na qual estamos ligados.

Se a possibilidade de pensar melhor emperra, talvez também seja muito difícil perceber e atribuir às consequências que esses vínculos podem gerar em nossa vida psíquica.  É desastroso estar ligado profundamente a alguém que pouco conhecemos e, mais ainda, não conseguir nomear através da linguagem a dimensão e a qualidade de identificação desse vínculo tão importante em nossa vida.

Além desses laços direcionados a alguém, existem os grupos, coisas, objetos e também a forma como nos ligamos e relacionamos com o dinheiro. Este ensaio busca fazer-saber sobre a ligação que pode ser construída e cultivada entre o eu e o que se encontra para além dele.

Através desta experiência podemos chegar ao conceito que a qualidade de qualquer vínculo constituído com o outro dependerá da forma como somos capazes de nos relacionar com nós mesmos. Quando dois corpos se unem, inconsciente procuram encontrar nessa experiência de identificação algo que está na ordem do que lhe falta.

A capacidade afetiva de cada ser humano é o que poderá ampliar esse vínculo primário de identificação narcísica para algo que se encontra além, em que ambos possam se desenvolver subjetivamente sem se perder na expectativa do vínculo primário.

O laço amoroso é um processo de construção muito delicado, que implica a partir de uma demanda interna, muitas vezes árdua e pouco [quase nada] elaborada, para esboçar um percurso. Como bem instrui a psicanálise, o início de qualquer vínculo com o outro ocorrerá através de identificações entre as partes e algo muito além que não é possível de ser nomeado.

Há algo no outro [objeto de desejo] que parece preencher a parte que falta no sujeito, oferecendo um sentido outro ao seu vazio. O amor na relação amorosa obstrui muitas vezes quando o amante economiza para que não ocorra a escassez de seu amor para seu objeto amado.

O amor é uma contingência e não há uma ciência sobre ela. Pondé (2017) nos implica a refletir mais ainda sobre a possibilidade do amor, quando descreve:

Para lidar com a contingência, acumula-se alguma sabedoria, e onde há ciência, normalmente, falta sabedoria e sobra certeza. [...] o amor entra pela fresta da porta. Nunca é convidado, mas toma todo o ambiente quando é notado. Encanta pela sua força vital. Pelo desejo de vida que traz consigo.

Por isso, que quando o sujeito ama acredita estar à beira de encontrar a melhor versão de si mesmo. E essa experiência pode ser muito destrutiva para muitos outros, que não conseguem lidar com a dimensão desse amor que não pede licença para entrar.

Na relação amorosa, quando digo “eu te amo”, digo também “amo a mim mesmo através de ti”. Freud é muito preciso ao escrever: quando escolho amar o Outro, escolho amar quem representa a imagem ideal do meu Eu. Podemos expandir um pouco mais com a reflexão de Recalcati, quando diz que o amor pode ter várias faces, e uma delas é sem dúvida é a face do embuste, da cegueira, da sugestão, da hipótese, do enamoramento narcísico.

Não é exagero dizer que nos aproximamos das pessoas e coisas muito mais pela expectativa do que imaginamos que elas sejam do que realmente são. O processo que conduz uma construção de laço amoroso verdadeiro necessita contar com um período de dedicação mínima que seja ao reconhecimento básico das partes, que está depois da experiência da identificação.

Segundo Martino, nessa fase do desenvolvimento do laço amoroso existe uma tênue/tenaz fragilidade naquilo que une as partes, que se encontram nesse momento severamente vulneráveis.  A construção e desenvolvimento do verdadeiro laço amoroso necessitam ser sempre um processo lento e que demanda extrema dedicação, por sua origem ser totalmente delicada.

A realidade última [vazio] promove o pensar melhor a respeito do que nos falta. Só somos capazes de pensar sob a experiência do vazio, implicados pelo movimento que falta nos convoca. Mas, como toda reflexão, provavelmente o sujeito pode ser impulsionado pela urgência de sua fragilidade emocional confundir o nó de uma relação perversa [alienação] com um laço amoroso.

Adoecido emocionalmente na autoestima, o sujeito encontra-se incapaz de duvidar, questionar ou de fantasiar. O ser humano fragilizado buscará estabelecer um modelo de vínculo no qual inviabilizará qualquer possibilidade de desconfortos ou tentará encontrar em nome de garantias um comodismo mórbido que obstruirá o contato com a fragilidade que dá cor a vida.

O nó da alienação está anos luz distante do objetivo [individual e partilhado] característico da expansão, desenvolvimento e transformação das partes de um laço amoroso. O sujeito fracassa no vínculo com o outro, por acreditar que seu nó alienado [perverso] seja um laço amoroso, o que impossibilita de fazer-saber sobre si mesmo pela incapacidade de sequer suspeitar de quem realmente seja.

Existe dois modelos de alienação em que podemos nos escorar e fazer morada. O primeiro é quando inseguros de nós mesmos nos unimos ao outro numa ligação parasitário-dependente, tornando-nos parte do outro. Nessa ligação perversa buscamos nos tornar parte daquele do qual estamos vinculados, para não nos responsabilizarmos por qualquer eventualidade do atrito saudável [mesmo que de forma frustrante], que um laço amoroso pode oferecer.

Em seu avesso há um modelo de falsa alienação, que se baseia no domínio-controlador, impondo que o outro seja parte de nós mesmos e nada mais que isso. Para Martino (2013), o sujeito incapaz de desenvolver certas funções, utiliza-se do outro para isso, perdendo o direito de ser ele mesmo, porque parte de si encontra-se sendo desempenhado por outrem.

A vinculação através do nó alienado faz com que o ser humano assuma uma posição de própria negação, que o leva a tornar-se cada dia mais carente de si mesmo, censurando o eu para que o outro possa existir. Na aliança perversa ou nó alienado, o funcionamento mental enfraquece sua capacidade de pensar e repensa melhor sobre si mesmo, o que intensifica ainda mais a própria alienação, atando-se mais ainda a dependência em favor do estado de desesperança.

Ligações como essas cultivam um fruto deficiente de nutrientes e extremamente vulnerável, por levar o peso das marcas amargas em sua raiz. E o que nasce dessa relação alienada-perversa, totalmente ausente de cuidado e amor, poderá viver numa espiral de repetição constante nas próximas gerações, contando apenas com a sorte de encontrar pelo caminho um amor que possa desconstruir essa linhagem perversa.

O impossível pode parecer uma linguagem que nos inibe de pensar além de sua fronteira, mas existe a esperança de transformação. No entanto, para que essa transformação ocorra é necessário que possamos ser capazes minimamente de suportar a devastação que o processo de desconstrução irá implicar em nesse momento da vida.

Esse percurso só é possível através da experiência de um amor que entra sem ser convidado ou da busca pela análise, na tentativa de falar sobre o que atormenta a alma e o corpo e, assim, fazer-saber sobre o que há por trás do sintoma, para poder ingressar na experiência de elaborações promovida pelo movimento analítico e então poder saber-fazer melhor com o que trava e inviabiliza a ação da existência no próprio percurso de vida.

29.4.18

FORMA DE VER, SENTIR E AMAR

Não sei se o amor é cego,
Talvez nós que não possamos
ver tão bem.
Bom, talvez mais tarde 
no caminhar possamos aprender
a saborear essa errância toda
com menos angústia e aprender
a fazer melhor com ela.
Talvez seja tudo questão de
desacelerar e sentir toda a avalanche
que desnuda o ideal diante
de nós mesmos.
Talvez seja só questão de respirar
e sentir o agridoce das lagrimas que escorrem
pelo rosto empoeirado pelos antigos amores,
e possa possibilizar o raiar de uma nova
visão.
Maicon Vijarva
2018/04/29

10.4.18

A PALAVRA SALVA NA MESMA INTENSIDADE QUE MATA


A diferença existe para implicar, para transformar o comum. É preciso que cada sujeito seja capaz de lidar com a frustração do desconhecido e se responsabilizar por seu medo e ira diante do que lhe causa, promovendo um elo com o diferente, para assim construir um mundo melhor, de uma equidade que expande e desenhe uma terra com mais amor e compaixão.
Não gostar de algo no outro pode ser até humano, mas ultrapassar o limite e desrespeitá-lo é uma incapacidade que precisa ser pensada. Se está sentindo incomodo por algo que existe no outro que não lhe agrada, vá em busca de um analista, questione-se e busque fazer-saber, para poder saber-fazer diante do que lhe causa e incomoda.

Lembre-se, se o seu mundo pode estar desmoronando, o do outro pode também estar na mesma ou em pior situação. Seja no mínimo amável. Cada um de nós leva no coração uma dor, um sintoma.
Então, não pise no vazio do outro, por mais que este lhe tenha feito algo ruim. Se não pode transformar o outro, afaste-se para não acabar agindo com selvageria. Um palavra salva na mesma intensidade que também mata!

Ouvi uma criança, com medo do escuro, dizer em voz alta: "Mas fala comigo, titia. Estou com medo!". "Por quê? De que adianta isso? Tu nem estás me vendo." A isto a criança responde: "Se alguém fala, fica mais claro". (Freud, 1976p [1916], p.474)

Há um ruído em nossa garganta, na língua, posto que dessa linguagem que tomamos as palavras para tecermos algo que emperra e impossibilita caminhar, em forma de discurso. É na análise que o sujeito pode transformar o seu impulso destrutivo em uma produção significativa na relação consigo e com o outro.

22.3.18

LIBERDADE É FALAR TUDO QUE SE PENSA?

Between Rivers - Mojowang

O movimento de vomitar toda insatisfação ao outro é uma pulsão [impulso] corporal que é ressentido na história psíquica. Essa “descarga” da pulsão procura satisfação devido à impotência do sujeito em sua busca de um objeto adequado, para tentar manter um estado de menor tensão com o objeto inadequado.

A força que trabalha às voltas do princípio de vida se transforma em combustão da estase e da destruição do objeto inadequado. A insatisfação com o esse objeto último, impele na espiral da repetição. Todo esse excesso que comporta a manutenção da imobilidade destruidora é próprio de uma falta de elaboração à situação que se apresenta. 

Na análise o sujeito poderá encontrar um lugar para endereçar a falação ilimitada do seu discurso, para a partir desse ponto fazer-saber sobre seu sintoma e trabalhar na elaboração do saber-fazer a respeito do saber instaurado dentro da função de vínculo estabelecida com o objeto inadequado. 

É através da transferência que se faz possível transformar a tendência à destruição do objeto externo em energia de maturação e movimento de produção consequente em saber sustentar laços. A análise proporciona ao sujeito a escuta de sua própria história, e aprende sobre o ensejo de pensar, de recalcular a rota e de redimensionar a problemática do seu sintoma, transformando-o em sua causa. 

O saber em análise implica o emissor e receptor a colocar algo de si nessa transmissão psicanalítica. Se o corpo do sujeito em análise não convocar algo subjetivo dentro do ambiente psicanalítico, pode-se transmitir qualquer coisa menos psicanálise. 

Falar tudo que se pensa ao outro sem filtragem é se colocar na qualidade de selvageria de um animal irracional, sem responsabilização pelo que se pensa e fala. Na vida é preciso aprender saber-fazer dentro da função de vínculo com o outro. As diferenças precisam promover uma transformação e uma produção em saber sustentar laços. 

Somente com o outro que aprendemos a fazer melhor com nossa existência no mundo, para fazer-saber o próprio limite e assim aprender a construir saberes para continuar transformando o percurso do próprio desejo. 

18.3.18

DOS FRACASSOS NO LAÇO COM O OUTRO NASCE A ALTERIDADE DO DESEJO


In transition. LOVEJOY, Emily 


A forma como lidamos com o fracasso pode nos levar ou não a novos lugares. Há um saber no fracasso que só o sentindo é possível fazer-saber para sabermos fazer com esse saber que poderá se instaurar. O inconsciente está às voltas do que não funciona em nós, e o fracasso é seu lugar próprio para dar pistas [através do não dito] sobre aquilo que enrosca, emperra e paralisa em nosso percurso.


O sujeito neurótico fica incapaz de sentir o ardor do fazer-saber sobre seu fracasso, por estar alienado à demanda do outro. Ao partir desse lugar, o neurótico não consegue filtrar as demandas e dizer não a algumas delas ao outro. 

O fracasso é visto com maus olhos e expurgado às pressas do sentir do sujeito. O impasse se instaura, uma porque o fracasso trata-se de um saber que constitui o sujeito; uma das línguas do inconsciente e do desejo, e outra porque é através dos fracassos no laço com o outro nasce a alteridade do desejo. 

Esse saber inconsciente, alteridade do grande outro que nos habita, que aos trancos e barrancos da análise tentamos escrever nossa biografia, que tentamos fazer as pazes para o transformar de inimiga a aliado. São essas tentativas desesperadas e repetidas que o sujeito aprende mais sobre os seus sintomas.

O fracasso não é o ponto final na biografia que o sujeito escreve, mas a vírgula que insiste e persiste em convocar algo da ordem do que o constitui. Por isso a importância de fazer-saber sobre o inconsciente, para saber-fazer com que vem depois, a castração: a falta. 

Refletir sobre o que nos faz fracassar é andar em corda-bamba, é abrir mão do saber estabelecido para atualizar todos os valores e ideias que até a minutos atrás sustentavam todo nosso corpo falante.  

É preciso e urgente que aprendamos mais sobre nossa alteridade, ela nos convoca a questionar a demanda do outro, a criar saberes para fazer-saber algo que se tenta dar sentido, e que implicado a esse movimento de busca todo esse sentido perde sentido e abre portas para algo muito que se aproxima de nós mesmos e do laço com o outro. 

O sujeito que aprender a fazer-saber sobre seu fracasso e atravessado por ele, aprende saber-fazer com isso, consequentemente se torna bem-sucedido.

13.3.18

O TRABALHO DO PERCURSO EM ANÁLISE


 

Em análise, o desejo está em frenética conexão com o que não funciona, paralisa e insiste em comparecer no real pelo avesso. Em sua espiral sonoro da experiência, a psicanálise revela tudo que a sociedade incuba na exposição do humano que valoriza como ideal: puro, divino e perfeito.

O caminho da psicanálise implica o sujeito a responsabilização por seu estilo no mundo, atravessado pelo não-todo-saber que se inaugura no sintoma. Não à toa que a psicanálise não é para todos, por implicar o sujeito a arriscar tudo em sua subjetividade, alterando rotas e pensando com ética as prioridades da sua vida.

Para construir o percurso na análise é necessário abrir mão do lugar de ser desejado, da bengala da demanda do outro. Recusar a posição narcísica para assumir o seu inverso, que convoca o eu ao comprometimento, ousadia e coragem à responsabilização por sua existência no mundo. Esse movimento leva o sujeito a produzir conteúdo em análise, para criar um saber sobre o que estrutura o seu sintoma.

Além disso, todo esse avesso que se apresenta instaura um novo sujeito com autonomia ao que lhe causa, inspira e fracassa. O trabalho em análise conduz à incompletude do horizonte, na ousadia e coragem em apostar todas as fichas em si mesmo, sem recursar em pagar o preço necessário para sustentar suas escolhas e decisões em constante maturação frente às novas possibilidades em que o seu desejo aponta.

Aprender a transformar as oscilações do sintoma que emperra o analisante a caminhar em seu percurso, exige questionamentos sobre o lado obscuro que também interfere nas escolhas e decisões do analisante. A vida em análise é estar diante da vírgula que o impossível implica, que não cessa de se escrever. 

O discurso emitido pelo sintoma do sujeito, evoca algo da ordem do mistério que o implica a ultrapassar os semblantes que moldam o lugar que insiste a convocá-lo ao gozo da repetição. Mas não é só isso, há muito mais a que se aprender com o que a psicanálise se propõe em sua transmissão no quotidiano, que se enlaça e entrelaça nos vínculos do sujeito do inconsciente.