26.11.18

ESTÁ MENSAGEM FOI APAGADA PELO REMETENTE


Estive por muito tempo presente no vazio do porta-retrato que nunca recebeu a nossa foto. Te enviei inúmeras mensagens molhadas digitalmente das minhas lagrimas salgadas, mas minha neurose enlouquecida de perversão impediu deletando a mensagem e você apenas recebeu: está mensagem foi apagada pelo remetenteEqualizei o que fomos em um re-play que me matava a cada dia depois daquele meteoro atingir e dilacerar em câmera lenta o tecido revestido de artérias, nervos e veias cheias de sangue vermelho do meu coração e abrir o chão debaixo dos meus pés que acreditavam tolamente estar firmes no solo. 

Ao caminhar devastado de volta para casa, ouvia Renato Russo cantar em minha mente “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar na verdade não há”. Eu tive medo e desejava profundamente fugir da minha própria pele naquele dia sombrio. Sentia o mundo inteiro dentro do meu estômago. Ouvia as vozes atormentadas das profundezas do inferno em alto e bom tom. Um dia de muitos outros que me ensinaram o quanto eu negligenciava o garoto pueril que vive dentro de mim, o mesmo que te amava e ainda ama de forma indescritível. 

Sempre penso em sumir com você de dentro de mim, mas sempre falho. Meu maior medo é de um dia conseguir sem perceber. As conversas que tive com você mentalmente dariam um texto de amor de embrulhar a alma de horror, angústia e beleza. Você sabe que o meu calcanhar de Aquiles é a minha escrita. Deixo minha alma pendurada em cada palavra que soltas formam frases, trechos, parágrafos e juntas compõe um texto incompleto que conta da minha falta, do meu vazio que é impossível de ser descrito ou medido. 

Tentei ser raso para que pudesse voltar a me ver com aquele velho brilho no olhar. Mas a profundeza que existe em mim transbordou. As doses que tomamos da imagem que fomos embebedam nosso corpo e me faz ter recaídas que atropelam minha alma e me deixa todo perdido na mistura de nós. Calo o choro e a palavra desenha a linguagem do sintoma no corpo. 

As poltronas e a escuta da minha analista ouviram os diversos codinomes que emprestei as repetições do meu discurso até que um dia eu chegasse no ponto de ser capaz de me ouvir melhor e virar essa página e recordar apenas um tempo bom que vivemos juntos. Esse tempo chegou e não mais sou aquele que beijou seus doces lábios.

Abraços, 
Maicon Vijarva

24.11.18

O APERTO DO OUTRO LADO DA PELE


Engraçado, eu vejo a falta por onde ando. Ontem à noite, sozinha na praia, olhei para lua cheia linda e lembrei dos anos novos na praia. Senti falta do que não terei mais. Mas tenho que focar nas presenças não nas faltas. A presença é justamente a falta, é necessário viver o presente da falta. As pessoas me faltam, e penso que nas ausências sinto mais amor por elas.

É engraçado uma história assim tão idealizada ser tão real, não? A gente vive de imaginação. Como diz Lacan “O imaginário preenche o vazio da falta”. Sei lá se ele disse isso mesmo. Por isso a vida beira à loucura, a vida não existe. A vida só passa a existir quando partilhamos ela com o outro. 

Estou atormentado pelo que ando sendo, esse outro lado da pele é uma imensidão de mim sem fim. É preciso reinventar o vocabulário para que se possa ouvir melhor a própria pele na sonoridade da voz. Tivesse um medo pequeno, um amor sereno. Ser feliz até os últimos fios de cabelos brancos. Se for para ser indeciso abre um riso que de dor já chega a do mundo. Eu amo essa música da Labaq, loucamente. Chega a causar angústia e empoeiramento de existência em minha própria vida singular.

Uau, adorei sua descrição sobre ela. Você me fez amá-la também por te amar. Sonhei com você essa noite, não lembro o que éramos o que fazíamos. Eu sinto que o tempo é como aqueles bichinhos da terra, vão me comendo por dentro e vou morrendo a passagem do tempo, embora me sinta cada dia mais vivo.

Que medo, aff! O meu espírito de madrugada vai na sua casa fazer amor. Espero que seja amor. Não tenha medo, não precisamos imaginar nada. Podemos viver essa loucura juntos. Quanta polêmica. Nadinha de polêmica nessa hora da noite. Estou lendo Valter Hugo Mãe, A desumanização.

Te enviei poesia no instagram, qual você é, adivinha. O último. “...sobre o qual já não sei tanto, mas que o amor entre nós permanece”. Você é o que empreende uma linda luta para se estabelecer na profissão. Sim! O amor sobre nós permanece. Talvez eu já não saiba mais tanto de ninguém.

Essa música da Larissa até me dói um pouco. Eu ouvia demais naquele dezembro de 2016. Um dos meses mais felizes da dança e início da nossa amizade. É linda. Aprendi a gostar com você. Talvez, só mesmo talvez saibamos algo da nossa própria ordem. O desconhecimento faz com que a presença do outro faça todo sentido. A minha ausência te aproximou de mim, a sua ausência me aproximou de ti. Sempre soubemos de nós, porque eu me via em ti e, talvez, você se via em mim. Assim existíamos.

Nossa ainda dói. Espero que seja de saudade. Sim, de falta e vazio. Só para ser lacanina. Sente minha falta? Sente saudade da gente? Muito! Ando tão sozinho com gente tão comum. Adoro como você é diferente [estranho], misteriosos e fora do óbvio. Idiota foi aquele que viu isso um defeito.

Eu queria que as pessoas me amassem pelo meu pior. Isso eterniza, a beleza e a juventude não. A inteligência fica caduca com o tempo. É difícil a gente amar o pior de nós mesmos, que dirá o pior do outro. Por isso mesmo. Quando temos amor sem barganha-lo, o a-colhimento é lindo. Queremos algo que nos falta, mas a falta que buscamos está no pior que negamos em nós mesmos. Em dezembro tanta coisa me ocorre, não sei se é presente ou um testemunho da minha castração.

Abraços,
Maicon Vijarva

17.11.18

O PEQUENO HANS...



Ei, Hans.

O amor é uma confusão que se esbarra na imensidão do medo, que é filho do desejo. Será que tememos a vida, as coisas ou será que tememos mesmo é tornarmos nós mesmos? É pequeno Hans... ao que me parece, o amor implique ao abandono da lógica, da razão e dos padrões. Mas isso é um oceano complexo, não dá para abandonar as certezas, senão ficamos sem no que nos apoiarmos. Poxa, tem que ser assim mesmo? Ou a gente cede ou passamos a vida combatendo o amor? Não existe meio-termo, não? Tem sempre que ser 8 ou 80? Caramba.

Hans: - Claro que dá. Mas o meio é sempre um lugar medíocre, em que não há movimento, produção, onde a vida passa sempre queixosa. É onde perde-se a capacidade de amar, e fica impossível existir com sanidade sob a absoluta força da realidade. O meio-termo é o lugar onde você pode sentir qualquer coisa, ver qualquer coisa, ser qualquer coisa, menos você mesmo. 

É o lugar avesso do vazio, é a escuridão. Onde não há espaço para as dúvidas do não-lógico e simbólico se esbarrarem com a linguagem, para produzirem juntos um vocabulário possível para transformação interior da gente. Aí fica a questão: quer mesmo ser o meio-termo?

Abraços,

Maicon Vijarva

15.11.18

A ANÁLISE CONDENA O SER À SINGULARIDADE


A experiência de estar em análise é compreender sem julgamentos, o quanto é difícil juntar as peças do quebra-cabeça de uma mente inundada de desamparo, horrores e assombros de culpa e remorso por ter falhado consigo mesmo e com o outro, e mesmo assim continuar a sustentar essa imensidão pagando o preço da singularidade, do próprio estilo.

Nesse contexto é fácil de entender a razão de muitos procurarem comprimir a dor de sua existência em medicamentos que regulem o que o constitui diferente no mundo: dor, sofrimento, ansiedade, euforia e agitação. A incapacidade do a-colhimento do próprio estilo do sintoma é um prato cheio para que o outro faça o que quiser com nossa mente e corpo.

Insistir em dizer que o outro não tem poder sobre nosso desenvolvimento é negar a própria castração. Dependemos do outro para existir, mas até certa medida. Qual o tamanho dessa medida? Busque no trabalho de análise. A única certeza é que vai ter que trabalhar muito para compreender o que lhe causa vida.

Todos somos castrados simbolicamente, e saber disso nos liberta da incompetência em demandar algo a alguém ou acatar uma demanda sem questionamento. A ignorância da própria ilusão é prazerosa por emburrecer e desresponsabilizar o sujeito frente a sua existência. A tragédia do ser humano é acreditar que seja possível tamponar o vazio e a falta que o constitui sujeito.

Abraços, 
Maicon Vijarva

14.11.18

A LIBERDADE CERCEADA



Um dia, cedo ou tarde, as coisas vão clareando e torna-se possível testemunhar no real que a liberdade cerceada não é determinada pelo outro, mas pelo próprio sujeito. Os muros que se levantam em nosso redor, nascem na vã tentativa de proteger. Quem se deseja proteger? O outro de nós mesmos, ou nós de nós mesmos?

Não existem culpados, talvez a aposta seja na crítica interna arrasadora e os preconceitos pessoais. Arrisco. Podemos colocar também nessa conta, os responsáveis não identificáveis.  É muito fácil responsabilizar o mundo externo, mas em que pé fica a responsabilidade do mundo interno?

É constrangedor aguçar a escuta para ouvir as próprias questões íntimas e publicar a estranheza desconhecida [tão bem conhecida e reprimida] de nós mesmos. Deste lugar desconhecido que brota os equívocos entre o saber e o ser. A vida bem como a experiência da dupla analítica se manifesta de forma marcante e tomam dimensões na qual torna-se impossível ser transcritas ou verbalizadas pela palavra com clareza.

O conhecimento é uma ponte e não uma experiência: só podemos pensar sobre alguma coisa que já passou. Diferente disso, a cabeça será apenas uma máquina de moer e triturar pensamentos, sentimentos e lembranças atrapalhadas. Todo esse caos oferece um desmoronamento psíquico perturbador e imagens distorcidas de si mesmo de forma horrenda no real.

A-colher essa estranheza desconhecida produz uma capacidade de maturidade emocional para fazer melhor na experiência com os acasos e surpresas da vida. No contato com o seu pior, o sujeito reúne energia psíquica necessária para vencer as resistências pessoais, do silêncio da negação, dos tabus, censuras, segredos, medos e isolamento causados pelos muros erguidos por ele mesmo em sua volta.

A experiência com a psicanálise oferece ao ser humano o retorno para o contato e abertura do seu mundo interno para si mesmo e, consequentemente, para os outros, dissipando o caos e oferecendo a si o tempo necessário para sofrer e ser transformado pelos efeitos desse lugar. Só se pode aprender a lidar com as dificuldades do cotidiano quando se reconhece a importância de viver o sofrimento e a dor da perda.

Abraços, 
Maicon Vijarva 

6.11.18

DESCONSTRUIR O LUGAR IDEAL PARA IMAGINAR O FUTURO REAL


 

A vida se revela através das experiências que não se ensinam, mas que se vivem. Tem coisas que não se transmite. É preciso dar algumas trombadas para sentir mais fôlego pelo percurso. A história só acaba quando desistimos de contar as maluquices que nossa mente revolucionária inventa para que seja possível existir no real paralelo ao imaginário; um nobre ato de ousadia em persistir no caminho para que, de alguma forma, a fantasia quase-sempre possa se transforma em realidade.

Através da linguagem e não somente por ela, o sujeito convoca o inconsciente ao risco de se manifestar à consciência no seu êxito de ultrapassar o grande outro. A criança guiada pela imagem numa experiência catastrófica de deus-nos-acuda constitutivo faz-saber das invenções criativas dos significantes da verdade que através do ato traz à luz a possibilidade de ouvir do lugar que fala[falta]: dissolver o ideal do adulto numa desconstrução lúdica regada pelos contos de fadas ou mitos.

A tentativa imaginária pelo real é de reeditar a própria estória, de maneira a reduzir os atritos psíquicos da experiência entre a fantasia e a realidade e os seus efeitos no mundo real interno e externo; é uma maneira de reconhecer, respeitar e desconstruir o lugar ideal que desde a infância aprende-se a sustentar na estrutura psíquica.

É desse dinamismo que nasce a rasura do discurso conservador e a possibilidade de uma invenção em fazer-saber do não-lugar da falta e do vazio que inspira ou expira o ser do sujeito atravessado dessas transformações externa e interna do subjetivo no contato com o coletivo que produz inconsciente: a psicanálise se interessa justamente pelo que esgota desse atrito povoado de horror e efeitos caóticos.

Logo, a experiência se apresenta como testemunho de uma desconstrução necessária do lugar de ideal, para que a falta e o vazio possam existir permitindo circular maior variedade de significações, sabores e dissabores que a vida pode nos oferecer.

Tem coisas que não se transmite, aprende na experiência de viver.



Abraços,
Maicon Vijarva

30.10.18

SOBRE PRE-VER O DESTINO


A vida não depende tão-somente de nós; o contexto familiar, social e cultural são de extraordinário valor na afinidade entre a expectativa e a realidade. Os resultados esperados do que se previa desenha um borrão cruel na imagem idealizada. Contratempos, equívocos e surpresas ocorrem e são importantes durante a passagem da fantasia para o real. É necessário levar em conta os impedimentos que podem e irão ocorrer.

Vivemos em tempos compulsivos, convulsionando uma positividade e passividade frente à vida, que encurrala e inviabiliza enxergar as irregularidades da visão do horizonte.  Desde seus primórdios o ser humano vive uma ilusão frenética em prever tudo que ultrapassa o seu controle: o tempo, o amor, a morte etc. As previsões futurísticas anunciam um perfeito fracasso nas tentativas de controlar o indomável, que escorre entre os dedos do universo anatômico humano.

O amor, o tempo, a morte e tantos outros furos que ultrapassam o humano, se mostram anos luz à frente à época. Planos promissores autenticam fiascos resultados na realidade. E por incrível que pareça, o despertador sempre está ajustado a acordar em um passo do paraíso.

Isso testemunha que, no instante em que se transmite à cargo do acaso, as oportunidades de se frustrar são assombrosas. É preciso se entregar aos planos ambiciosos, mas é fundamental colocar na conta o imprevisto, a surpresa e a falha que implica recalcular todo o roteiro escrito detalhadamente por cada sujeito.

Acreditar que o universo seguirá à risca o roteiro ideal de vida é uma ilusão com dimensões 3D, que assusta e decepciona em nível tridimensional. Vale lembrar que na experiência psicanalítica, cada sujeito aprende [às voltas de sua subjetividade] a compreender que o tempo da vida acontece em função da ausência de previsão.

A experiência convoca o sujeito a se desenhar através da sua ignorância, não do que aposta saber. Todo mundo sabe alguma coisa do objeto de desejo, mas poucos tiveram a oportunidade de viver a experiência com e atravessado por ele. As rotas determinadas que o sujeito insiste em seguir cegamente muitas vezes estão largas ou curtas a sua realidade, levando sempre ao choque brutal de ruas sem saída.

Logo, a tentativa desse ensaio informar que todo esse dinamismo rasura o discurso da perfeição, da verdade inteira de um saber. Um dito é certo: a cada um cabe, à sua maneira, reinventar e manter viva sua existência. A única garantia é que o amor anuncia a passagem do tempo: a morte. O dia dura o tempo necessário para que o amanhã floresça.

Abraços, 
Maicon Vijarva 

24.10.18

A ÉTICA DE SE FAZER EXISTIR


Muitas vezes, quando se busca o lugar de analisante, o sujeito dá espaço à divisão do não-lugar em sua vida. Assume o momento exato em que estar à beira, na ponta do precipício. Olhar para si mesmo é, senão olhar para o abismo, olhar para o interior; e o mais próximo possível mergulhar no desconhecido que emerge.

A vida são folhas, telas e paisagens neutras esperando que cada um de nós coloque algo de mais belo e ao mesmo tempo de mais caótico de si em cores de poesia, arte e invenção peculiar. A vida espera de cada sujeito a ética de sua subjetividade no coletivo social.

Aposto tudo na ideia de que a psicanálise seja dessa ordem de promover do não-dito, do não-lugar, do não-sucesso um fazer-saber do verdadeiro diálogo: no sentido de escutar a alteridade subjetividade da invenção do que borbulha dentro de cada um de nós: sujeitos-humanos-desejantes.

Embora há quem viva bem sem análise, pagando caro pela indecisão de jazer à beira do penhasco e, cá entre nós, esse não é o melhor lugar para se estar. Para alcançar alguma-coisa na vida, faz-se necessário respirar fundo e dar alguns passos e pular em direção à escuridão atemporal de nós mesmos: acessando o discurso ilógico do inconsciente.

Somente nessa aposta de fazer-saber sobre o desconhecido do inconsciente é que aprende-se melhor sobre o frescor de existir. As metáforas são necessárias para que o sujeito possa criar um suposto saber do que implica o não-lugar. Desconstruir o caminho já conhecido, para que seja possível abrir um enorme espaço disforme que divide o que se foi do que ainda se fará necessário criar para existir e seguir inventando.

Na experiência da dura tarefa de exis[insistir]tir, voltar significará repetir obsessivamente as dolorosas lembranças de nadar no pântano pegajoso da indecisão: pular ou não na escuridão interior desse abismo. A experiência na vida é irônica, tem um senso de humor bem estranho e convoca o sujeito à coragem em aprender melhor sobre como existir no mundo.

A aposta é justamente essa ou passar o resto da vida com os pés acorrentados no alto de um penhasco, escutando os ruídos de lembranças de um passado catastrófico e sentindo o frio que chama ao fôlego da existência. O que nos prende no passado são as razões de um futuro incerto, frágil que sem medo muda o tempo todo. 
Nunca se saberá ao certo o que guarda o abismo tampouco o que reserva o futuro para quem vive. A experiência convoca cada um a se responsabilizar pelo que está disposto a perder em arriscar pela ética de se fazer existir.

Abraços, 
Maicon Vijarva 

23.10.18

A VIDA QUE QUEREMOS É LOGO, LOGO ALI


É ilusão, uma mentira bem contada e vendida com aparência de verdade. A vida que se espera nunca vai acontecer, exatamente pela sua localização na posição de espera, de justificar o injustificável, de viver na sombra do que deu errado. A obviedade está escancarada, só não vê quem não quer: não existe uma receita explicativa de como deve ser feito, ou melhor, de como o sujeito deve se sentir quando algo dá errado.

O mistério surpreendente é pensar o que se pode, diante do impossível, inventar quando algo falha ou emperra o pé fazendo com que tropecemos em nós mesmos. Essa coisa de viver é um risco. Nada é muito certo. Quase sempre insistir é uma aposta que arde as bochechas, embrulha o estômago e numa esperança faz sorrir das atrocidades que cometemos com nós mesmos, por medo de realmente dar conta do planejado.

O percurso do outro é sempre visto com um olhar invejoso, de sorte, porque só se deseja enxergar a casca do resultado e não a essência do percurso catastrófico. O medo do futuro muitas vezes, quase sempre, paralisa o sujeito entre o que se foi e o que talvez nunca virá, justamente por estar impregnados dos fantasmas da palavra: “se”.

A ilusão é um prato requentado: não mata mas mantém a vontade [desejo] de vida enganada. A vida que se deseja é aqui, no movimento de invenção em ato de pensar o que convoca o sujeito a fazer com seu vazio, falta.

Abraço, 
Maicon Vijarva

3.10.18

DIAS CURTOS, VIDA LONGA

Os ponteiros do relógio deslizam numa fração de milésimos e, quando nos damos conta, já estamos ultrapassados por des-culpas. Não há como reconstruir sobre escombros. Mesmo que seja doloroso se faz necessário e, sem dúvida, ético que o sujeito se posicione no âmbito de sua dor. Respirar fundo, não significa engolir sapos, mas aprender a economia da energia psíquica, sem desperdícios, para que se faça possível no real sustentar o percurso que se busca.

O tempo não leva desaforo, talvez deva a questão que não há tempo a perder com o que não veste. A necessidade de reconhecer o próprio corpo, o lugar e o peso que ele ocupa no espaço tempo que permanecemos, promove um rompimento com a repetição obsessiva do antigo-tão-novo que sempre irá insistir na reivindicação do seu lugar em nós.

Talvez seja essa a razão qual perdemos o lugar tão almejado, fracassando no êxito. O sucesso depende da aposta num futuro incerto e sem modelo definido. Em hipótese, arrisco a colocar a experiência da análise em pauta. O sujeito quer alcançar uma vida menos caótica, mas quando percebe que será necessário se ralar todo, hesita e acaba pagando um preço muito mais alto por ter recuado de si mesmo.

Dentro de cada um de nós, sujeito humano, há partículas minúsculas que carecem de um pensador para pensá-las melhor. Quando abandonadas à mercê sob a ordem da irresponsabilidade de si mesmo, a vida vai se oxidam com o tempo, endurecendo o corpo falante e faltante, envelhecendo o vocabulário que possibilitaria ultrapassar o lugar medíocre de vitimização.

O sujeito não apenas leva em si mesmo somente o que consegue carregar, em última instância, excedendo sua capacidade. Mas também carrega as próprias perdas embebidas de memórias de angústia, dor, inspirações e sonhos não-realizados. O ser humano transpira uma história que ultrapassa o sentido, o tempo e a sua própria existência no mundo, que são às vezes condensadas em criação e, outras, num limpo de um quadro branco que emperra, engessando o movimento de desejo de vida.

A proposta da psicanálise é deslocar, desconstruindo o lugar assumido pelo sujeito de ser robusto ao olhar do outro, para se elevar a um alto nível cultural que não faz sentido para a transformação de si mesmo. Na análise os desejos recalcados trazem à consciência, ao discurso a esperança de se realizarem através do a-colher da escuta do analista.

Os dias podem ser curtos, mas para o sujeito que aposta no osso de fazer-saber de si mesmo na experiência da montanha-russa-da-análise, certamente reconhecerá a vida longa e bem vivida que experimentar nos intervalos que o inconsciente em análise pode possibilitar.

Abraço,

Maicon Vijarva 

26.9.18

MAIS, AINDA AMOR


A vida é uma montanha de escombros. A arte de viver é justamente reconhecer o pior que existe em cada sujeito, para que seja possível desenvolver a capacidade de suportar ultrapassar a leveza do que tange a [des]ordem do amor.

O antagônico do amor é o ódio que se nega pelo outro, sendo ambos constituído por uma dupla face de um mesmo corpo que sustenta a atemporalidade ilógica da gravidade da vida, a força fraca e a força forte que endereça o sujeito em direção à experiência com o mundo externo, atravessado pela falta do outro.

A dança das cadeiras no que implica o relacionamento, é uma maneira pueril de negar a possibilidade de cair de joelhos pela incapacidade de suportar o que o amor oferece, a impossibilidade de caber na falta [demanda] do outro.

Amar não é simples, mas é uma belezura insuportável de sentir. O amor não causa desgaste, dor ou sofrimento. O que convoca o amor a sair de cena é o narcisismo desmedido, mas sem certa dose de narcisismo é impossível que o amor se sustente e atravesse a dupla amorosa. O amor nasce na capacidade de sustentar a frágil linha da singularidade.

Em última pontuação, completo a reflexão com uma implicação da psicanalista Ana Suy, “Amor é aquela coisa que, por vezes, quando sobra, é porque está faltando”.

Abraço,
Maicon Vijarva

21.9.18

O SABER INCOMPLETO EM NOSSO TEMPO


O futuro depende de como cada sujeito reconhece e interpreta o horror e beleza do seu sintoma no presente, uma vez que, tanto o mundo quanto ao saber que se constrói consigo mesmo e com o outro se faz-saber disforme e incompleto.

A globalização de nosso tempo instaura um relevo de questionamento sobre algo que já insinuava um ruído daquilo que o humano significava como conhecimento. A psicanálise desde Freud inaugurava uma litura sobre o que o sujeito discursa como saber e faz questão sobre o conhecimento, promovendo a pulga da dúvida sobre o saber completo.

Se o mundo novo é horizontal, com aludes de saberes incompletos, logo o mundo e o saber são incompletos em sua totalidade. Qualquer que seja a conclusão que produzimos das coisas, do outro e de nós mesmos são precipitadas.

Toda essa ideia faz auê na construção de um saber, quando a praga da reflexão atravessa e desata os pilares ruindo o que sustenta a ilusão social. O sujeito que espera um saber completo de tudo que compõe um silogismo, para então apostar em seu percurso, está predestinado a ser engolido pela areia movediça da indecisão.

Se é impossível prever o futuro, saber-fazer [em análise] sobre o que nos causa, possibilita que sejamos melhores na capacidade em reconhecer o percurso do presente que nos levará a sermos criativos na aposto do futuro.

Abraço,
Maicon Vijarva

18.9.18

O AMOR É DE UM TEMPO NÃO LÓGICO

 

Idealizar o outro que endereçamos nosso amor romantizado, admirando, querendo [mesmo que impossível] tatuá-lo em nossa pela é inevitável. A ordem do mistério que tange o amor faz com que o sujeito se contorça em decepções e fúria.

É uma oportunidade compreender que nada se aprende sobre o amor, é descobrir que é mais sobre conhecer os efeitos da experiência e, por mais que amemos o outro, não poderá ele nos salvar de nós mesmos, por causa disso.

Tampouco seremos nós a salvação das mazelas que emperram a vida daquele que endereça o seu amor à nós. Compreender isso tudo, envolve muito trabalho, seja dentro ou fora da análise. Fazer-saber mais sobre isso não vem por gravidade, mas de um suor que nos atravessa o campo lógico.

É uma ilusão confortadora e apaziguadora imaginar que todo perrengue que enfrentamos durante nosso percurso de vida será compensado por o surgimento de um príncipe encantado ou princesa que possa iluminar o umbral que vivemos após as experiências catastróficas com os ex-amores.

Em contraponto, seria muito mais justo se pudéssemos reconhecer que é muito mais proveitoso estar aberto a novas experiências, sabendo do risco de cometermos os mesmos erros, de uma maneira diferente, singular.

Não se trata de ganhar ou perder, mas de apostar tudo em algo que não se sabe em que vai dar e sentir o doçura e azedume que é gozar melhor na vida.

Abraço,
Maicon Vijarva

28.8.18

SOBRE O AMOR



AMAR é se mover na pele do outro na tentativa de criar laços, para dilatá-lo na palavra-corpo: nós. Mas é sucinto desenhar nessa experiência, o zelo de reconhecer que se faz próprio deixar que o outro possa existir para que o amor faça sua existência nesse corpo que se reinventa no atrito do elo. É desse deixar que o amor nasce, mas traz em si a frustração de nunca poder fazer do outro uma morada, corpo único.

O amor é um cavalo indomável que precisa viver na pluralidade, para que possa existir na singularidade do corpo. Saber sobre amor não garante que se saiba amar, dizer o que possa vir a ser amor é a tentativa de tornar o mundo menos caótico, porque até falar de amor sintetiza o outro em nós, fazendo circular que o desejo de poder fazer do outro uma casa, embora seja um lar acolhedor, nunca se realize [o desejo realizado dissolve o amor no limbo do infinito, sufocando-o em si mesmo].

A análise promove justamente fazer-saber sobre nossa insignificância, ignorância e impossibilidade de ser humano que tudo pode. O sujeito pode muitas coisas, mas não tudo. Uma delas é nunca saber quem amar, como amar e quando amar.

Trata-se de resignificar o horror do outro oferecendo um espaço acolhedor dentro de nós, possibilitando significado outro ao que nossos olhos repudiam no objeto que endereçamos o nosso amor e ódio. A dinâmica do amor não é justa, ela desconstrói e nos deixa vulneráveis, convocando a observar por fora o quanto somos inquilinos de nós mesmos e do mundo do outro.

Abraço,
Maicon Vijarva

16.7.18

A PERDA DO OBJETO ELEITO: O AMADO


A perda do objeto de amor eleito pelo sujeito instaura uma ruptura que levará consigo por todo seu percurso. O vazio leva o sujeito à deriva, e por sua vez o ego rejeita a frustração de não mais sentir as bordas que o protegem da insegurança de se estar à mercê das investidas da vida sobre sua existência, colando-se nas lembranças da imagem do que partiu.

As forças inconscientes implicam o sujeito à repetição, é por isso que o sujeito para amenizar o desconforto que a perda do objeto de amor instaura procura em novos laços o estilo do velho amor: fragrância, traços, palavras, características e, sem dúvida, o que mais acreditava odiar no objeto de amor, que não mais poderão ser sentidas como antes, mesmo que volte a estar junto com o mesmo objeto.

A devastação da perda deixa o rastro do desamparo e amor sequestrado pelo outro: o amado. O ego cheio de insatisfação advinda da frustração da perda investe na ilusão de redesenhar no tempo-fotografia capturado a vida vivida com o objeto perdido numa espiral de repetições até fazer-saber sobre sua capacidade de reconhecer a responsabilidade diante do fim.

A dinâmica do amor é espantosa, se antes pensava-se no objeto de amor com certa frequência, com a perde o amor acentua mais ainda sua posição-memória sobre o sujeito amante. A vida poderá existir milhares que ofereçam o seu amor para esse sujeito amante, mas ainda estará à mercê dos resquícios-efeitos das lavas vulcânicas do amor pelo objeto amado.

Os lapsos de memória recaem sobre o sujeito com o peso da tonelada de uma pena, alucinando sentir o perfume, a voz, ou a imagem do amado entre a multidão. O ego se entristece e navega num oceano depressivo de reflexões à cerca das recordações da história interrompida, da graça não mais retribuída, das gargalhadas e sorrisos não mais visíveis aos seus olhos.

As implicações desses amores interrompidos são sentidos na composição do corpo-memória da personalidade do sujeito amante, que o marcam como uma cola impossível de desgrudar da alma, convulsionando lembranças de um sentir impalpável, mas que ocupa boa parte do sua existência psíquica.

Na ilusão de saber sobre o amor, o sujeito ignora o seu avesso, que sempre instaura um sofrimento doloroso. Quando se ama não se sabe quanto tempo se tem para amar e ser amado. O amor é indomável, talvez por isso cause tanto horror e espanto no ser humano que deseja categorizar o amor através de um nome, uma posição, um caminho e/ou um método para amar de forma correta.

O tempo não para mesmo que a perda emperre o ego de continuar o seu frenético percurso. O relógio continua a desenhar a passagem do tempo convocando o sujeito a pensar, elaborar e reconhecer que é tempo de reorganização. É trabalhoso o processo de inventar um novo ambiente no espaço vazio deixado pelo amado-eleito, exige responsabilidade em ser criativo na dinâmica de dividir o tempo para cada novo projeto de vida sem o amado.

A elaboração da perda oferece o sentimento de gratidão [mesmo que dolorosa] pela história vida, transformando a culpa em reconhecimento, a dor se decompõe para nascer o sentimento de saudade que implica o sujeito a fazer-melhor-com-seu-sofrimento.

É necessário que o sujeito possa sentir o processo doloroso que a perda amorosa ou qualquer outra origem ocupe em sua vida, para que na idade do envelhecimento do corpo a psique não atormente-o com memórias que foram engolidas a seco em nome de um equilíbrio-social-emocional.

Abraço,
Maicon Vijarva

14.7.18

DUVIDAR DO ÓBVIO




Tornar-se analista está muito mais ligado a ordem da própria experiência no lugar de analisante. Lugar esse tão importante para o sujeito desejante por sustentar esse lugar independente da adversidade que pode e irá ocorrer.

A experiência da análise e da dupla analítica pode possibilitar ao sujeito analisante ser tocado pelo horror e beleza que constitui o ser humano, e a partir desse tocar se interessar em assumir um lugar outro tão mais angustiante do que estar no lugar de analisante.

Ser analista não é uma posição que pode ser alcançada por qualquer um, ela demanda uma autorização do próprio sujeito diante da sua própria análise e cuidado de si mesmo. Por isso que o analista precisa duvidar do óbvio que está no discurso do analisante, e essa escuta apurada e cuidadosa só pode ser alcançada pela experiência analítica na posição de analisante.

Portanto para aprender o sentido do não sentido da psicanálise, faz-se necessário ingressar no angustiante processo da experiência analítica.

É POSSÍVEL AGREGAR MAIS DE UMA ABORDAGEM NA CLÍNICA?


O sujeito só pode seguir um caminho, por demandar dele certo tempo e investimento para sustentar tal percurso desejado. Não é qualquer um que se submete ao processo de análise, por isso é importante que aquele que deseja ocupar o lugar de analista possa estar avisado e orientado de sua função frente ao sujeito que o procura.

A experiência da análise oferece ao olhar do analisante a possibilidade de um horizonte de opções, podendo ele determinar qual caminho não faz sentido a ele, abraçar todos os caminhos só emperrará mais ainda a sua vida. Partindo dessa lógica, o sentido é que fica inviável submeter a dupla analítica a mais de um método, visto que uma hora ou outra o impasse das abordagem irá colidir uma a outra inviabilizando o ato analítico.

O sujeito precisa de acolhimento, de um analista que leve as últimas consequências a sua análise pessoal e seus estudos teóricos, para que não precise utilizar de maneira equivocada vários métodos para dar conta da demanda do outro.

Em suma, utilizar-se de várias abordagem é de certa forma sustentar e se moldar a todo custo a demanda do outro, o que bem sabemos ser impossível.

22.6.18

ATITUDE PSICANALÍTICA: AUTORIZAR-SE ANALISTA


A capacidade de um sujeito de tornar-se analista está na sua posição de responsabilidade e ética para com três fatores essenciais, o primeiro fator e mais importante é a análise pessoal, os seguintes e não menos importantes são estudo teórico e supervisão.
Esse dinamismo possibilita ao sujeito que busca assumir a posição de analista a base para construir sua própria linguagem e teoria, levando em conta que a psicanálise é uma parte construção de retornos a Freud e outra são elementos importantes do sujeito que deseja assumir ela como linguagem de percurso.
Autorizar-se como analista trata-se de uma atitude única e pessoal, que vai se desenvolvendo com o passar do exercício de análise pessoal, clínico e teórico em psicanálise, os quais estão intimamente ligados e são interinfluenciáveis.
O encontro da atitude psicanalítica está na ordem de inúmeras consequências de fatores, reconhecendo limites e desenhando as condições mínimas necessárias para analisar quem se propõe ao ato de ser analisado.
O analista precisa criar sua própria identidade e linguagem a partir das bases propostas por Freud, buscando sempre ir mais ainda à frente, ultrapassando-o com novas formulações e expandindo a psicanálise para novos pólos, sempre às voltas da ética e responsabilidade.
Em suma, saber sobre psicanálise só se faz possível através da experiência de assumir o lugar  angustiante de analisante, essa experiência de sustentar e levar até as últimas conseqüências a sua análise pessoal poderá contribuir para que o sujeito possa se autorizar a torna-ser analista.

22.5.18

SOBRE LAÇOS AMOROSOS E NÓS ALIENADOS


Só um milagre faz da destruição uma forma de esperança.
Luiz Felipe Ponde

Amor e ódio são sentimentos responsáveis por promover a união de partes, a ligação das faltas que não se completam, mas unem-se para criar algo com a imensidão que essa junção acende [provoca] em cada um de nós.

São sentimentos que guardam em si uma função de sustentar duas ou mais pessoas em um laço amoroso ou amigável, e também revela em seu desdobramento uma variação que não se prende em saberes, por isso merece um olhar mais cuidadoso.

A rapidez do quotidiano e das relações instantâneas nos impossibilita muitas vezes de pensar melhor, repensar com mais cuidado nossas relações com aqueles que nos unimos para desenhar um percurso. Acreditamos muitas vezes que estamos ligados intimamente a alguém, e muitas vezes possuímos uma rasa capacidade de reconhecer e/ou questionar os efeitos dessa função de vínculo na qual estamos ligados.

Se a possibilidade de pensar melhor emperra, talvez também seja muito difícil perceber e atribuir às consequências que esses vínculos podem gerar em nossa vida psíquica.  É desastroso estar ligado profundamente a alguém que pouco conhecemos e, mais ainda, não conseguir nomear através da linguagem a dimensão e a qualidade de identificação desse vínculo tão importante em nossa vida.

Além desses laços direcionados a alguém, existem os grupos, coisas, objetos e também a forma como nos ligamos e relacionamos com o dinheiro. Este ensaio busca fazer-saber sobre a ligação que pode ser construída e cultivada entre o eu e o que se encontra para além dele.

Através desta experiência podemos chegar ao conceito que a qualidade de qualquer vínculo constituído com o outro dependerá da forma como somos capazes de nos relacionar com nós mesmos. Quando dois corpos se unem, inconsciente procuram encontrar nessa experiência de identificação algo que está na ordem do que lhe falta.

A capacidade afetiva de cada ser humano é o que poderá ampliar esse vínculo primário de identificação narcísica para algo que se encontra além, em que ambos possam se desenvolver subjetivamente sem se perder na expectativa do vínculo primário.

O laço amoroso é um processo de construção muito delicado, que implica a partir de uma demanda interna, muitas vezes árdua e pouco [quase nada] elaborada, para esboçar um percurso. Como bem instrui a psicanálise, o início de qualquer vínculo com o outro ocorrerá através de identificações entre as partes e algo muito além que não é possível de ser nomeado.

Há algo no outro [objeto de desejo] que parece preencher a parte que falta no sujeito, oferecendo um sentido outro ao seu vazio. O amor na relação amorosa obstrui muitas vezes quando o amante economiza para que não ocorra a escassez de seu amor para seu objeto amado.

O amor é uma contingência e não há uma ciência sobre ela. Pondé (2017) nos implica a refletir mais ainda sobre a possibilidade do amor, quando descreve:

Para lidar com a contingência, acumula-se alguma sabedoria, e onde há ciência, normalmente, falta sabedoria e sobra certeza. [...] o amor entra pela fresta da porta. Nunca é convidado, mas toma todo o ambiente quando é notado. Encanta pela sua força vital. Pelo desejo de vida que traz consigo.

Por isso, que quando o sujeito ama acredita estar à beira de encontrar a melhor versão de si mesmo. E essa experiência pode ser muito destrutiva para muitos outros, que não conseguem lidar com a dimensão desse amor que não pede licença para entrar.

Na relação amorosa, quando digo “eu te amo”, digo também “amo a mim mesmo através de ti”. Freud é muito preciso ao escrever: quando escolho amar o Outro, escolho amar quem representa a imagem ideal do meu Eu. Podemos expandir um pouco mais com a reflexão de Recalcati, quando diz que o amor pode ter várias faces, e uma delas é sem dúvida é a face do embuste, da cegueira, da sugestão, da hipótese, do enamoramento narcísico.

Não é exagero dizer que nos aproximamos das pessoas e coisas muito mais pela expectativa do que imaginamos que elas sejam do que realmente são. O processo que conduz uma construção de laço amoroso verdadeiro necessita contar com um período de dedicação mínima que seja ao reconhecimento básico das partes, que está depois da experiência da identificação.

Segundo Martino, nessa fase do desenvolvimento do laço amoroso existe uma tênue/tenaz fragilidade naquilo que une as partes, que se encontram nesse momento severamente vulneráveis.  A construção e desenvolvimento do verdadeiro laço amoroso necessitam ser sempre um processo lento e que demanda extrema dedicação, por sua origem ser totalmente delicada.

A realidade última [vazio] promove o pensar melhor a respeito do que nos falta. Só somos capazes de pensar sob a experiência do vazio, implicados pelo movimento que falta nos convoca. Mas, como toda reflexão, provavelmente o sujeito pode ser impulsionado pela urgência de sua fragilidade emocional confundir o nó de uma relação perversa [alienação] com um laço amoroso.

Adoecido emocionalmente na autoestima, o sujeito encontra-se incapaz de duvidar, questionar ou de fantasiar. O ser humano fragilizado buscará estabelecer um modelo de vínculo no qual inviabilizará qualquer possibilidade de desconfortos ou tentará encontrar em nome de garantias um comodismo mórbido que obstruirá o contato com a fragilidade que dá cor a vida.

O nó da alienação está anos luz distante do objetivo [individual e partilhado] característico da expansão, desenvolvimento e transformação das partes de um laço amoroso. O sujeito fracassa no vínculo com o outro, por acreditar que seu nó alienado [perverso] seja um laço amoroso, o que impossibilita de fazer-saber sobre si mesmo pela incapacidade de sequer suspeitar de quem realmente seja.

Existe dois modelos de alienação em que podemos nos escorar e fazer morada. O primeiro é quando inseguros de nós mesmos nos unimos ao outro numa ligação parasitário-dependente, tornando-nos parte do outro. Nessa ligação perversa buscamos nos tornar parte daquele do qual estamos vinculados, para não nos responsabilizarmos por qualquer eventualidade do atrito saudável [mesmo que de forma frustrante], que um laço amoroso pode oferecer.

Em seu avesso há um modelo de falsa alienação, que se baseia no domínio-controlador, impondo que o outro seja parte de nós mesmos e nada mais que isso. Para Martino (2013), o sujeito incapaz de desenvolver certas funções, utiliza-se do outro para isso, perdendo o direito de ser ele mesmo, porque parte de si encontra-se sendo desempenhado por outrem.

A vinculação através do nó alienado faz com que o ser humano assuma uma posição de própria negação, que o leva a tornar-se cada dia mais carente de si mesmo, censurando o eu para que o outro possa existir. Na aliança perversa ou nó alienado, o funcionamento mental enfraquece sua capacidade de pensar e repensa melhor sobre si mesmo, o que intensifica ainda mais a própria alienação, atando-se mais ainda a dependência em favor do estado de desesperança.

Ligações como essas cultivam um fruto deficiente de nutrientes e extremamente vulnerável, por levar o peso das marcas amargas em sua raiz. E o que nasce dessa relação alienada-perversa, totalmente ausente de cuidado e amor, poderá viver numa espiral de repetição constante nas próximas gerações, contando apenas com a sorte de encontrar pelo caminho um amor que possa desconstruir essa linhagem perversa.

O impossível pode parecer uma linguagem que nos inibe de pensar além de sua fronteira, mas existe a esperança de transformação. No entanto, para que essa transformação ocorra é necessário que possamos ser capazes minimamente de suportar a devastação que o processo de desconstrução irá implicar em nesse momento da vida.

Esse percurso só é possível através da experiência de um amor que entra sem ser convidado ou da busca pela análise, na tentativa de falar sobre o que atormenta a alma e o corpo e, assim, fazer-saber sobre o que há por trás do sintoma, para poder ingressar na experiência de elaborações promovida pelo movimento analítico e então poder saber-fazer melhor com o que trava e inviabiliza a ação da existência no próprio percurso de vida.

29.4.18

FORMA DE VER, SENTIR E AMAR

Não sei se o amor é cego,
Talvez nós que não possamos
ver tão bem.
Bom, talvez mais tarde 
no caminhar possamos aprender
a saborear essa errância toda
com menos angústia e aprender
a fazer melhor com ela.
Talvez seja tudo questão de
desacelerar e sentir toda a avalanche
que desnuda o ideal diante
de nós mesmos.
Talvez seja só questão de respirar
e sentir o agridoce das lagrimas que escorrem
pelo rosto empoeirado pelos antigos amores,
e possa possibilizar o raiar de uma nova
visão.
Maicon Vijarva
2018/04/29