11.9.19

A PO-ÉTICA E O INÉDITO NA CLÍNICA DE GILBERTO SAFRA

A po-ética na clínica contemporânea de Gilberto Safra [2004], publicada pela Editora @ideiaseletras, fornece à sociedade leiga e aos intelectuais do movimento psicanalítico elementos inéditos para o acontecer do ser do sujeito na sociedade a partir de diálogos de experiências com a inquietação dos seus pacientes baralhada com a inquietação dos escritores russos e seus personagens. 

Safra propõe em sua obra uma abertura de vértice, e chama a atenção para o espaço-tempo numa clínica de produção de sentido, de deslocamentos no campo do humano. Apresenta a posição ética de uma clínica contemporânea com o dizer, possibilidade que o sujeito encontra por meio da fala, desvelar quem é e o que vive. No entanto, faz alerta que o dito ao se revelar também vela. 

O afastamento do analista de seu ideal, para o real da sua clínica, traz acontecer po-ético possível. O ser humano não pode ser dito plenamente; entre o dito e o indizível o poético pode emergir. A partir desse vértice que a clínica de Safra faz seu inédito, o fluir da situação clínica testemunha-se o acontecer do falar poético, em que a palavra não se encerra, mas se abre para o não dito. 

A análise é a possibilidade de novo nascimento, nascer é ser atravessado pelas questões e pelo mistério da existência; é conhecer a posição humana e as condições necessárias à instalação de si no mundo com outros. É um conhecimento assentado no surgimento mesmo do acontecer humano. 

Um livro que possibilita pensarmos o acontecer humano, que em excesso de claridade e escuridão podem levar o sujeito ao sofrimento sem entorno, à loucura. E o sofrimento sem espaço e sem tempo pode levar o sujeito ao esgarçamento de sua própria condição humana. É um convide a refletirmos pela ótica de um conhecimento decorrente da maneira que acontece a entrada do sujeito no mundo e suas articulações para viver seu acontecimento e com outros.

9.9.19

ESCUTAR PARA ALÉM DE SI MESMO


A vida é um redemoinho de angústia. Safra em Po-ética na clínica contemporânea levanta questões a respeito da atitude do analista ao pedido da demanda de socorro do seu analisante. O que fazer? O que dizer? Não existe palavras que recomponha o sujeito que vive numa bacia-angústia.

A função de presença-ambiente proporciona ao analisante possibilidades de pensar melhor as rotas de sua vida. Refletir sobre as atitudes tomadas e aos poucos ir se responsabilizando pela angústia consequente dessas tomadas de direção. Viver é falhar, e falhar na ótica de nosso tempo é ainda visto como falta de desempenho, falta de foco e originalidade.

Muitas vezes conceitos saturados em psicanálise também produzem essa mesma ótica de um outro lugar. Em tempos de setembro amarelo em que todo mundo parece perceber a tragédia do humano, chovem frases motivacionais e esperançosas. A palavra pode fazer muito por nós humanos, mas nem sempre salva vidas num único mês, oprimindo e retalhando essas vidas durante todos os outros dias e anos.

Para Bion é necessário que sejamos capazes de aprender atentamente a escutar sem desejo, sem memória e sem ânsia de compreensão. Não há como compreender um sofrer por mais avançados que sejamos em teorias ou técnicas para aliviar sintomas. Não podemos esquecer que a vida é um sintoma primário de um sujeito. E muitas vezes viver é aprender a criar com esse sintoma que nos provoca a morrer todos os dias, não pelo ato final. Há diversas maneiras de morrer em vida.

O sujeito mata a si mesmo de diversas formas sem alcançar o seu ápice. É por isso que não basta testemunhar a dor do outro, é preciso muito mais que ouvidos. É preciso escutar para além de si mesmo. E quem suporta colocar-se a escuta da dor do outro sem palpitar ou dizer que sofre na mesma medida ou pior ainda?

3.9.19

ACONTECIMENTOS


Às vezes a vida será vendaval de notícias que tiraram os pés das perdas. As mãos servirão como possibilidade de criação. Outras, conheceremos o pior em sua face mais canibal. A vida nunca disse que seria um mar de rosas. Muitas vezes é preciso de um outro que possa ter ouvidos aguçados para escutar o tom do som da voz ao ecoar [escoar] palavras de um dizer. Sujeito que possa acolher nossa dor sem desmerece-la até que tomamos autonomia na escuta do que escorre de dentro das palavras que tenta descrever o indizível de uma falta, um vazio.

Talvez, o que precisamos é de menos pessoas com boas intenções, e mais de pessoas que compreendam a imensidão do próprio vazio, da falta que é impossível de caber numa palavra. Às vezes é preciso cair em si mesmo, ralar-se todo e sentir a importância do peso da própria existência. Às vezes o que menos precisamos ouvir é que vai ficar tudo bem. O pior... mais ainda, diria Lacan. Não se trata de dizer que não há beleza na vida, pelo contrário. É reconhecendo a magnitude da morte que podemos dar vida a nós mesmos.

Às vezes o que precisamos é de um Caminhe, vamos aprender juntos a fazer melhor com os ACONTECIMENTOS da vida, porque ela não tem remédio que dê conta do que é impossível de nomear. Mais ainda, que possamos sempre estar advertidos que a vida nos exige muito, e que a conta sempre chega para todos!

Que possamos aprender a falar para criar palavras e inventar maneiras de dizer o que angústia, o que torna a vida insuportável por algumas temporadas. Que além disso tudo, possamos sempre reaprender a língua do amor, mesmo em tempo de escassez. Fale pela música, pela poesia, pela literatura, atravessado de um amor passado. É falando que aprendemos muito de nós mesmos, sem querer querendo.

Um abraço, 
Maicon J J Vijarva
imagem: Last days of summer - @iammoteh

27.8.19

#RESENHA - O Pai da Menina Morta

Autor: @tiago_ferro

O livro escreve sobre o que atravessa o nosso cotidiano: a ausência, o tempo, o amor, o ódio, a raiva, a morte, a melancolia que gradativamente ganha corpo depressivo e que faz poesia-drama-comedia-notícia-palavra. O livro me faz lembrar do filme beleza oculta, que soa até um tanto que auto-ajuda, mas está longe de ser, porque falar da vida é falar também da morte, do tempo e sem dúvida do amor. Há amor na morte?

O tempo é uma invenção do amor para saborear e suportar o caloroso e friorento abraço da vida enquanto a morte chega a passos cavalesco de tartaruga. O tempo é como amor, sem conceito que o defina, é sem lugar definido e está sempre onde não se imagina. O amor causa desejo pelo tempo em se fazer existir enquanto a morte não chega para fazer arte.

Às vezes precisamos aprender a ser novamente estranhos para tocar nossa intimidade com a solidão. Tiago mostra numa forma de beleza oculta que a morte não aceita trocados, barganhas, recompensas, ela chega sem avisos, entra sem ser convidada e toma os corpos que pulsão. A morte não ensina como morrer, como a vida, só se aprende com a experiência.

Há um ocultismo belo nas palavras, por sempre mostrar um dito outro em seu avesso. O amor nos faz alcançar o pior de nós mesmos para observar o cometa que racha o céu em nuvens de algodão doce. O amor toca o nada, que mostra a dimensão assustadora da nossa falta que fala de dentro do nosso vazio que tentamos tamponar.

Lutar contra o amor é morrer abraçado em formato de um feto no colo da vida. As lágrimas também fazem palavras. Existem milhares de palavras numa lágrima. O pai da menina morta é a chance de dizer que é importante que possamos dar forma a nossa dor e sofrimento através das palavras, sempre inundadas de nós, deixando o sangue em cada letra que se escreve, fala.

Que possamos transformar o que dói em palavras, arte!

Obrigado @tiago__ferro por sua escrita, e @todavialivros por acreditar na expansão dessa obra espetacular.

23.8.19

sei lá, talvez seja nada disso

A vida é ramela nos olhos. Ainda ontem te vi sorrindo no ônibus, alguns minutos do desembarque no terminal. Foi quase que um sentimento terminal que me abraçou as pernas. Ou foi o coração, que me quebrou as pernas? Você tem o místico de me deixar sem oxigênio nos pulmões por dois longos minutos. Quase uma vida inteira.

Amor é teorema que nunca se completa, ele fica ali repousado em busca de uma nova face para se reinventar. Sei, eu tô avisado de que não mais existirá a junção da nossa singularidade: o laço da nossa pluralidade. Nossas vidas estão tão baralhadas de futuro, passado e presente que não sei qual via me desvia de você. Sempre tropeço em você em nome do amor.

Não vou negar, tenho apreciado a falta que tu me faz. Talvez essa falta me faz percebe que precisava de ficar mais íntimo comigo mesmo. Estive tempo demais com você. Quiçá possa ser uma questão. O que me atropela a vida é alcançar o saber que esse texto fala mais da degradação de uma intimidade com o Outro, que como garoto mimado desamparou.

Um Outro que é familiar, embora tenha a forma de um estranho que encarna em meio ao corpo e a alma produzindo uma linguagem que me faz falar de você para refletir mais sobre mim. O amor é travesti, é inconsciente sem sexo, sem corpo, sem gênero e faz da gente turbilhão.

Eu sei lá, pode ser que não seja nada disso, talvez seja tudo loucura. Pode ser que seja só um delírio Sei lá, gosto de brincar com as palavras!

17.8.19

fazer análise é reconhecer e criar

Perder o passo acelerado, espreguiçar os tecidos rígidos na análise é coragem para aprender a caminhar, coragem que amarrota o pano firme do corpo, que abrem portas para que os furos sempre existentes, antes tamponados, assumam sua forma original fazendo ato: criação.

O processo de transferência em análise desfarela as certezas, convoca o sujeito a borrar, a desconfigurar para fazer coisa outra com o que fica, resta e assume formas novas. A psicanálise é a peste que convoca a sexualidade, a política e, mais ainda, a palavra ao discurso. Mas palavra é pecado, quando liberta dos semblantes do pai comum ao pai divino.

Se a psicanálise convoca a palavra, convoca também as figuras demoníacas do inconsciente do sujeito: o desconhecido familiar. Na tentativa de se justificar em análise, o inconsciente brinca, faz atos falhos e repetições com palavras e enredos quase que despercebidamente.

A análise é mais que falar de si mesmo, é falar de um outro que nos faz sentir a nós mesmos. Quase sempre sendo esse outro a sombra das dores e sofrimento que não cessa de criar palavras, quando não mais existe sinônimos.

É na análise que se aprende as praticidades da vida, a organizar os espaços, a fazer novos laços e reparar antigos. Fazer análise é aprender a criar palavras, coisas e a vida, é também se reconhecer em tudo isso inconsciente.

Porque análise é vida
Vida é amor
Amor é humano
Humano é falha
Falha é vida.

17.7.19

descascar de si mesmo

Descascar laranjas não constitui trabalho simples. Há necessidade de criatura arteira – arte de insistir em presença dos pequenos fracassos – em fazê-lo melhor e bem feito. É inoportuno conceber de qualquer jeito; há de se ter cuidado no improviso do manuseio de uma faca, para a circulação precisa nos movimentos dos cortes, caso seja por miséria de tempo. 

Fitando o cuidado da mãe em descascar as laranjas e nos olhos suspensos num tempo outro daquele momento, o garoto com receio de tirá-la de si, questiona: para que tanto trabalho em arrancar as cascas de uma laranja? Suspensa no tempo, ainda que tivesse na alteridade daquele momento, ela volta em si e responde: aprendi com seu avô, ele gostava de ver as laranjas descascadas com cuidado, deixando o mínimo da brancura para protege-la. 

Descercar laranjas não constitui trabalho simples. A brancura que se falava era o albedo: última “pele” que agasalha o interior da laranja. Interior coeficiente de reflexão, refletividade difusa ou poder de reflexão, camada fina o mínimo para servir bem a si mesmo, a família e as suas visitas. Assim também não seria nós, humanos, na constituição de laços consigo mesmo e com o outro? 

Brancura de um véu albedo que protege, para que seja possível saborear o não-todo de uma coisa à outra, de um tu em mim, de um mim em tu, velados por um limite necessário para não se dissolver no todo – do outro? –; embora seja impossível. De uma maneira ou de outra, há sempre uma falha, um rasgo, um descuido no manuseio da faca no movimento do corte no coeficiente albedo de uma reflexão. O corte é inevitável, não há como fazer suturas nas vesículas interna de uma laranja, mas é possível aprender a saboreá-la com cuidado ao digeri-la. Assim não poderíamos ser na vida, mãe? 

A mãe é acesa ao seu tempo e olha com mais carinho para o tempo de menina sonhadora na presença de um pai misterioso e ignorante de sua sabedoria cotidiana. Ou será que tinha consciência desse saber? Sei lá, talvez a vida seja só um detalhe, um inventar que tentamos escrever quase sem palavras, mas não sem elas.

Maicon Jesus Vijarva

12.7.19

resto que permanece ressoa

Em seu pior momento da vida, encontrava-se em estado esgotável da natureza humana. Nesses agraves, necessitava deixar escoar até a última gota do insuportável de sua tristeza. Extenuado e sem qualquer ânimo, trajava o seu horror ao se colocar em convívio social. Não havia energia para opinar ou pensar nos adornos de amor próprio para seguir bem arrumado aos olhos dos Outros. Era só mais desserviço com ele mesmo, mais uma traição para conta. 

Perto demais de ser petrificado, foi capturado pela imagem dos passantes e vê em cada um deles o seu horror refletido. Pressentiu uma leve pontada de angústia no peito, achou que fosse um AVC. Para seu azar, não era. Em estado de vertigem, cobiçou embarcar em qualquer ônibus para mudar a rota e se livrar de tudo que estava alcançando. 

O sofrimento é mais latente e estranho de caber nas palavras, mas sabia que era respeitável apostar na criação de palavras para não enlouquecer em si mesmo. Era através desse esforço de se fazer dizer, que inventava laços para além do habitual. Necessitava do toque de um outro, alguém que pudesse oferecer um olhar mais amável e menos sufocante para escuridão. 

De dentro da tempestade é possível se fazer saber sobre o indomável de nós mesmos. Precisava embarcar no próximo ônibus, que indicava para direção da responsabilidade com a própria história, com o acaso e a surpresa que a vida trouxe e trará. Detalhes irão transformá-lo pouco a pouco, não por completo. O passado faz sempre presença, e sabe que caberá a ele fazer melhor com isso que se desenrola no depois que se escreve sem sua vontade. 

O ônibus chega, reluta aflito se será capaz de suportar o caminho. O medo de ser medíocre era mais ululante que fracassar. Desatento, entra e se senta com vontade de desistir. Acelerado, percebe lentamente o ônibus ganhar movimento, já não dá mais para fugir. Nem tudo está perdido, depois de uns tombos, perdas e lágrimas salgadas, pode-se saborear o amargo do saber que emerge de retalhos que ficam, na tentativa de criar coisa outra para se fazer existir. O resto que permanece ressoa certo mal-entendido, sensato contorno que implica desejo e um provável impulso para o próximo ato.
                                         
maicon jose de jesus vijarva
txt escrito para @aconfrariadostrouxas. 

5.7.19

diabetes: a doçura acumulada


Na alteridade do seu interior, ela sentia uma responsabilidade em viver. Embora a conta jamais fechasse, ela levava a vida sempre a se cobrar sob o grande olhar do Outro. Ainda que soubesse lá no fundo, confiava que esse outro não fosse a sua própria criatura, mas algo que fazia morada do lado de fora de si. Mulher profunda, uma grande menina sonhadora. A realidade sempre fora cruel, mas não mais que ela consigo mesma. Ela conseguia se ferir mergulhando de cabeça no ideal que a matava pouco a pouco. A religião foi sua aposta de volta por cima, na reviravolta que a vida sempre lhe trazia como oferta de ressurreição. No entanto, estava tão mergulhada nas palavras que soavam seguras da boca dos lobos vestidos de cordeiros, que o inquietante estranho que a habitava se transformou em inimigo declarado. A vida sempre fora injusta, mas ela não se poupou em fazer pior por si mesma. Escriva sobre si em fragmentos que ressoavam entre a carne, alma e o que imagina ser ou vir a se tornar. Tudo era muito profundo e ela insistia mesmo permanecendo por si mesma afogada em seu estomago, inundada pela doçura que economizava nos dias de vida. Havia muita doçura acumulada, ela não contava que essa mania obsessiva de acumular se tornaria uma diabetes mellitus tipo 1. As complicações foram de certa maneira uma espécie de alívio. A vida lhe era muito cara, e ela já não produzia mais insulinas criativas para sustentar o seu corpo simbólico. A vida nos exige e é necessário tolerar o cair do símbolo, para que o simbólico se reproduza de outras maneiras menos sorrateiras no corpo que tenta recitar palavras que ainda não existem.

um abraço, 
Maicon Jesus Vijarva