26.11.18

ESTÁ MENSAGEM FOI APAGADA PELO REMETENTE


Estive por muito tempo presente no vazio do porta-retrato que nunca recebeu a nossa foto. Te enviei inúmeras mensagens molhadas digitalmente das minhas lagrimas salgadas, mas minha neurose enlouquecida de perversão impediu deletando a mensagem e você apenas recebeu: está mensagem foi apagada pelo remetenteEqualizei o que fomos em um re-play que me matava a cada dia depois daquele meteoro atingir e dilacerar em câmera lenta o tecido revestido de artérias, nervos e veias cheias de sangue vermelho do meu coração e abrir o chão debaixo dos meus pés que acreditavam tolamente estar firmes no solo. 

Ao caminhar devastado de volta para casa, ouvia Renato Russo cantar em minha mente “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar na verdade não há”. Eu tive medo e desejava profundamente fugir da minha própria pele naquele dia sombrio. Sentia o mundo inteiro dentro do meu estômago. Ouvia as vozes atormentadas das profundezas do inferno em alto e bom tom. Um dia de muitos outros que me ensinaram o quanto eu negligenciava o garoto pueril que vive dentro de mim, o mesmo que te amava e ainda ama de forma indescritível. 

Sempre penso em sumir com você de dentro de mim, mas sempre falho. Meu maior medo é de um dia conseguir sem perceber. As conversas que tive com você mentalmente dariam um texto de amor de embrulhar a alma de horror, angústia e beleza. Você sabe que o meu calcanhar de Aquiles é a minha escrita. Deixo minha alma pendurada em cada palavra que soltas formam frases, trechos, parágrafos e juntas compõe um texto incompleto que conta da minha falta, do meu vazio que é impossível de ser descrito ou medido. 

Tentei ser raso para que pudesse voltar a me ver com aquele velho brilho no olhar. Mas a profundeza que existe em mim transbordou. As doses que tomamos da imagem que fomos embebedam nosso corpo e me faz ter recaídas que atropelam minha alma e me deixa todo perdido na mistura de nós. Calo o choro e a palavra desenha a linguagem do sintoma no corpo. 

As poltronas e a escuta da minha analista ouviram os diversos codinomes que emprestei as repetições do meu discurso até que um dia eu chegasse no ponto de ser capaz de me ouvir melhor e virar essa página e recordar apenas um tempo bom que vivemos juntos. Esse tempo chegou e não mais sou aquele que beijou seus doces lábios.

Abraços, 
Maicon Vijarva

24.11.18

O APERTO DO OUTRO LADO DA PELE


Engraçado, eu vejo a falta por onde ando. Ontem à noite, sozinha na praia, olhei para lua cheia linda e lembrei dos anos novos na praia. Senti falta do que não terei mais. Mas tenho que focar nas presenças não nas faltas. A presença é justamente a falta, é necessário viver o presente da falta. As pessoas me faltam, e penso que nas ausências sinto mais amor por elas.

É engraçado uma história assim tão idealizada ser tão real, não? A gente vive de imaginação. Como diz Lacan “O imaginário preenche o vazio da falta”. Sei lá se ele disse isso mesmo. Por isso a vida beira à loucura, a vida não existe. A vida só passa a existir quando partilhamos ela com o outro. 

Estou atormentado pelo que ando sendo, esse outro lado da pele é uma imensidão de mim sem fim. É preciso reinventar o vocabulário para que se possa ouvir melhor a própria pele na sonoridade da voz. Tivesse um medo pequeno, um amor sereno. Ser feliz até os últimos fios de cabelos brancos. Se for para ser indeciso abre um riso que de dor já chega a do mundo. Eu amo essa música da Labaq, loucamente. Chega a causar angústia e empoeiramento de existência em minha própria vida singular.

Uau, adorei sua descrição sobre ela. Você me fez amá-la também por te amar. Sonhei com você essa noite, não lembro o que éramos o que fazíamos. Eu sinto que o tempo é como aqueles bichinhos da terra, vão me comendo por dentro e vou morrendo a passagem do tempo, embora me sinta cada dia mais vivo.

Que medo, aff! O meu espírito de madrugada vai na sua casa fazer amor. Espero que seja amor. Não tenha medo, não precisamos imaginar nada. Podemos viver essa loucura juntos. Quanta polêmica. Nadinha de polêmica nessa hora da noite. Estou lendo Valter Hugo Mãe, A desumanização.

Te enviei poesia no instagram, qual você é, adivinha. O último. “...sobre o qual já não sei tanto, mas que o amor entre nós permanece”. Você é o que empreende uma linda luta para se estabelecer na profissão. Sim! O amor sobre nós permanece. Talvez eu já não saiba mais tanto de ninguém.

Essa música da Larissa até me dói um pouco. Eu ouvia demais naquele dezembro de 2016. Um dos meses mais felizes da dança e início da nossa amizade. É linda. Aprendi a gostar com você. Talvez, só mesmo talvez saibamos algo da nossa própria ordem. O desconhecimento faz com que a presença do outro faça todo sentido. A minha ausência te aproximou de mim, a sua ausência me aproximou de ti. Sempre soubemos de nós, porque eu me via em ti e, talvez, você se via em mim. Assim existíamos.

Nossa ainda dói. Espero que seja de saudade. Sim, de falta e vazio. Só para ser lacanina. Sente minha falta? Sente saudade da gente? Muito! Ando tão sozinho com gente tão comum. Adoro como você é diferente [estranho], misteriosos e fora do óbvio. Idiota foi aquele que viu isso um defeito.

Eu queria que as pessoas me amassem pelo meu pior. Isso eterniza, a beleza e a juventude não. A inteligência fica caduca com o tempo. É difícil a gente amar o pior de nós mesmos, que dirá o pior do outro. Por isso mesmo. Quando temos amor sem barganha-lo, o a-colhimento é lindo. Queremos algo que nos falta, mas a falta que buscamos está no pior que negamos em nós mesmos. Em dezembro tanta coisa me ocorre, não sei se é presente ou um testemunho da minha castração.

Abraços,
Maicon Vijarva

17.11.18

O PEQUENO HANS...



Ei, Hans.

O amor é uma confusão que se esbarra na imensidão do medo, que é filho do desejo. Será que tememos a vida, as coisas ou será que tememos mesmo é tornarmos nós mesmos? É pequeno Hans... ao que me parece, o amor implique ao abandono da lógica, da razão e dos padrões. Mas isso é um oceano complexo, não dá para abandonar as certezas, senão ficamos sem no que nos apoiarmos. Poxa, tem que ser assim mesmo? Ou a gente cede ou passamos a vida combatendo o amor? Não existe meio-termo, não? Tem sempre que ser 8 ou 80? Caramba.

Hans: - Claro que dá. Mas o meio é sempre um lugar medíocre, em que não há movimento, produção, onde a vida passa sempre queixosa. É onde perde-se a capacidade de amar, e fica impossível existir com sanidade sob a absoluta força da realidade. O meio-termo é o lugar onde você pode sentir qualquer coisa, ver qualquer coisa, ser qualquer coisa, menos você mesmo. 

É o lugar avesso do vazio, é a escuridão. Onde não há espaço para as dúvidas do não-lógico e simbólico se esbarrarem com a linguagem, para produzirem juntos um vocabulário possível para transformação interior da gente. Aí fica a questão: quer mesmo ser o meio-termo?

Abraços,

Maicon Vijarva

15.11.18

A ANÁLISE CONDENA O SER À SINGULARIDADE


A experiência de estar em análise é compreender sem julgamentos, o quanto é difícil juntar as peças do quebra-cabeça de uma mente inundada de desamparo, horrores e assombros de culpa e remorso por ter falhado consigo mesmo e com o outro, e mesmo assim continuar a sustentar essa imensidão pagando o preço da singularidade, do próprio estilo.

Nesse contexto é fácil de entender a razão de muitos procurarem comprimir a dor de sua existência em medicamentos que regulem o que o constitui diferente no mundo: dor, sofrimento, ansiedade, euforia e agitação. A incapacidade do a-colhimento do próprio estilo do sintoma é um prato cheio para que o outro faça o que quiser com nossa mente e corpo.

Insistir em dizer que o outro não tem poder sobre nosso desenvolvimento é negar a própria castração. Dependemos do outro para existir, mas até certa medida. Qual o tamanho dessa medida? Busque no trabalho de análise. A única certeza é que vai ter que trabalhar muito para compreender o que lhe causa vida.

Todos somos castrados simbolicamente, e saber disso nos liberta da incompetência em demandar algo a alguém ou acatar uma demanda sem questionamento. A ignorância da própria ilusão é prazerosa por emburrecer e desresponsabilizar o sujeito frente a sua existência. A tragédia do ser humano é acreditar que seja possível tamponar o vazio e a falta que o constitui sujeito.

Abraços, 
Maicon Vijarva

14.11.18

A LIBERDADE CERCEADA



Um dia, cedo ou tarde, as coisas vão clareando e torna-se possível testemunhar no real que a liberdade cerceada não é determinada pelo outro, mas pelo próprio sujeito. Os muros que se levantam em nosso redor, nascem na vã tentativa de proteger. Quem se deseja proteger? O outro de nós mesmos, ou nós de nós mesmos?

Não existem culpados, talvez a aposta seja na crítica interna arrasadora e os preconceitos pessoais. Arrisco. Podemos colocar também nessa conta, os responsáveis não identificáveis.  É muito fácil responsabilizar o mundo externo, mas em que pé fica a responsabilidade do mundo interno?

É constrangedor aguçar a escuta para ouvir as próprias questões íntimas e publicar a estranheza desconhecida [tão bem conhecida e reprimida] de nós mesmos. Deste lugar desconhecido que brota os equívocos entre o saber e o ser. A vida bem como a experiência da dupla analítica se manifesta de forma marcante e tomam dimensões na qual torna-se impossível ser transcritas ou verbalizadas pela palavra com clareza.

O conhecimento é uma ponte e não uma experiência: só podemos pensar sobre alguma coisa que já passou. Diferente disso, a cabeça será apenas uma máquina de moer e triturar pensamentos, sentimentos e lembranças atrapalhadas. Todo esse caos oferece um desmoronamento psíquico perturbador e imagens distorcidas de si mesmo de forma horrenda no real.

A-colher essa estranheza desconhecida produz uma capacidade de maturidade emocional para fazer melhor na experiência com os acasos e surpresas da vida. No contato com o seu pior, o sujeito reúne energia psíquica necessária para vencer as resistências pessoais, do silêncio da negação, dos tabus, censuras, segredos, medos e isolamento causados pelos muros erguidos por ele mesmo em sua volta.

A experiência com a psicanálise oferece ao ser humano o retorno para o contato e abertura do seu mundo interno para si mesmo e, consequentemente, para os outros, dissipando o caos e oferecendo a si o tempo necessário para sofrer e ser transformado pelos efeitos desse lugar. Só se pode aprender a lidar com as dificuldades do cotidiano quando se reconhece a importância de viver o sofrimento e a dor da perda.

Abraços, 
Maicon Vijarva