12.6.19

Fevereiro - Matilde Campilho


Escute só, isto é muito sério.

Anda, escuta que isso é sério!

O mundo está tremendamente esquisito. Há dez anos atrás o Leon me disse que existe uma rachadura em tudo e que é assim que a luz entra, não sei se entendi. Você percebe alguma coisa da mistura entre falhas e iluminação?

Aliás, me diga, você percebe alguma coisa de carpintaria? Você sabe por que meteram um boi naquele estábulo ao invés de um pequeno rinoceronte? Deve ter tido alguma coisa a ver com a geografia. Ou com os felizmente insolussionáveis mistérios que só podem vir do misticismo asiático. Um boi é um bicho tão… inexplicável. Ainda bem.

O amor é um animal tão mutante, com tantas divisões possíveis.
Lembra daqueles termômetros que usávamos na boca quando éramos pequenininhos? Lembra da queda deles no chão?

Então, acho que o amor quando aparece é em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo. Quando o vidro do termômetro se quebra, o elemento químico se espalha e então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas. Mercúrio se multiplicando. Acho que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor.

Ah é! Eu gosto de você. A luz entrou torta por nós a dentro, mas, olha, eu gosto de você! A luz do verão passado quebrou o vidro da melancolia e agora ela fica se expandindo pelas ruas todas. Desde aquele outro lado do Sol até esse tremendo agora.

Hoje ainda faz bastante frio. As cinzas ainda não aterraram sobre as cabeças disfarçadas, tem gente batucando suor e cerveja pelas ruas de nossa cidade sul. Na cidade norte, há ondas de sete metros tentando acertar no terceiro olho dos rapazinhos disfarçados de cowboys.

[suspiro]

O mestre ainda não veio decretar o começo da abstenção e, olha, a luz ainda está conosco. Sim, o mundo está absurdamente esquisito. Já ninguém confia nas imposições dos prefeitos, a esta hora na terra é um tanto carnaval, um tanto conspiração, um tanto medo. Metade fé, metade folia, metade desespero. E, provavelmente, a esta hora, uma metade do mundo está vencendo e a outra metade dormindo, há ainda outra metade limpando as armas, outra limpando o pó das flores. Mas, por causa do que me ensinou o místico, eu acredito que exista, agora, alguém profundamente acordado. Alguém que esteja vivendo entre o intervalo tênue entre o sonho e a agilidade. Suponho que ele saiba perfeitamente que este começo de século será nosso batismo do voô para nossa persistência no amor.João molhou a testa de Manuel. Os gritos das ruas molham as testas de nossos corações.

De que lado você está, eu não me importo! De que garfo você come, de que copo você bebe, que posto certo você escolhe, qual é seu orixá, seu partido, sua altura, de qual de suas cicatrizes cuida, que pássaro você prefere, quem é seu pai, qual é seu samba, Pinot noir ou Chardonay, que protetor você usa, qual é sua pele, seu perfume, qual político, quantos amores você sonha, em que Fernando, em que Ofélia, em que cinema, em que bandeira, em que cabelo você mora, qual dos túneis de Copacabana. Rezo para seus santos quando atravessar.

É… é impossível viver no país de Deus. Isso eu te dou de barato. Mas, atravessar o gramado de Deus em bicicleta, isso não é impossível, não.

Escuta, isso é sério!

Andamos crescendo juntos, distraidamente. As árvores crescem conosco. Nossa pele se estende, nosso entendimento, teso, também. O século cresce conosco. O amor pelas ventas da cara do mundo, também.
Quanto a um pra um entre nós dois, isso logo se vê. Não sei nada sobre a paixão, suspeito que você também não. Mas, começo a entender que o compasso da fé está mudando a passos largos. Dois pra lá e dois pra cá.


Portanto, escute.
Isto é muito serio!
Isto é uma proposta aos trinta anos.

Agora que o mercúrio assumiu sua posição certa, vem comigo achar o meu trono mágico entre a folhagem. E, no caminho até lá, vem dançar comigo, vem!

Matilde Campilho - Fevereiro

31.5.19

O FIM CHEGOU ÀS AVESSAS

Nino Cais
Faz um tempo que nosso amor se transformou na fotografia nunca revelada do seu porta-retrato invisível que ficava na sua cômoda vermelho bordo. O seu quarto era de tom nublado, de uma frieza ímpar, mas de sons aconchegantes quando tu se fazia presente pelo desejo de ser querido. Detestava sua cortina de tom laranja brega, embora era ela que fazia mesclas de tonalidades incomuns daquele cômodo estreito mas proveitoso para nossos encontros amorosos. 

Estávamos sempre em desencontros mesmo que na ralação do amor que nos unia. Era belo mas apavorante como queria ser livre se prendendo as ilusões. As aventuras dos quartos dos hotéis deixavam marcas de excitação e desejo em alcançar o desconhecido que desses encontros se fazia existir. Engraçado é saber que o nosso hotel favorito tinha os tons bregas da cortina do seu quarto, e fazíamos amor pela manhã entrelaçados com a preguiça, com o desejo de permanecer ali mas com a insistência das obrigações do dia que ecoavam em nossos ouvidos. 

O café da manhã me bastava um cafezinho, e você sempre se empanturrava de tudo que o hotel nos oferecia. Não dá pra desperdiçar, você dizia... eu amo comer. Que bom, pensava eu. Não sinto fome, me alimento do nosso amor pela manhã. Mas às 10:00 me abasteço de um pãozinho e mais um café para saborear as lembranças de cada quarto daquele hotel, branco e canta a metrópole interior. Meu interior estará sempre cheio de ti, embora não mais de perto. A vida e minhas palavras às avessas que diziam vá, querendo que você ficasse, fizeram dança e fomos nos afastando. Mas há tanto de mim em você, que me faz lembrar as razões por te amar e te odiar tanto. 

A recepcionista do hotel tropeçou em mim enquanto caminhava solto em recordações pela rua, e me perguntou porque não tinha mais meus encontros com você no hotel. Disse para ela que estamos em desencontros, nos encontrando com novos amores. Ela sorriu, e me disse que a vida é uma loucura, que precisamos aproveitar o que nos faz bem zelando para não nos destruirmos com o fim de tudo que é bom. 

Sorri, e disse preciso ir. E tenho seguido a vida, insistindo, buscando tocar o que me inquieta, embora sempre chegue alguns minutos depois. Lacan estava certo em suas considerações, não há só desencontros com o amor, mas com o que nos faz desejar. Talvez seja a morte o momento de tocar e brincar com a imagem final desse quebra-cabeça.

8.5.19

MÃE IDEAL HEROÍNA NÃO EXISTE


A função materna é um dos papéis mais complexos que uma mulher pode assumir. Deixar cair o ideal nunca foi tarefa fácil para elas, ainda mais em nosso tempo. A problemática é que muitas mulheres defendem esse ideal que não somente elas, mas como seus filhos acabam por adoecer desse delírio coletivo instaurado. Amar, cuidar, zelar e tantas outros significantes são demandas que sufocam a mulher. Antes elas sofriam sem palavras, hoje elas podem fazer melhor com as questões com o ideal, desconstruindo-o com implicações sob suas experiências às voltas desse impossível no limite que a palavra oferece.

A mulher por ser não-toda pode ensinar aos homens o quanto é impossível de alcançar esse ideal que o homem vive a criar para dar sentido à vida. Sentido esse que não suporta tocar o real da realidade. Não há sentido na vida, o que há são possibilidades de significar os significantes que dela tocamos. Uma mãe aprende essa função na experiência com não-todo humano que toca seu ventre, toca seu coração, a sua vida. 

O sujeito sofre por querer alcançar um ideal que jamais poderá, porque sua história de vida e a própria vida implica um avesso ao ideal estabelecido. Os joelhos, cotovelos, testa, nariz e o corpo todo ralado são acasos e surpresas da vida para ensinar sobre o real, sobre o que é verdadeiro diante desse impossível existir. Os acontecimentos não são um impedimento, mas um aviso que a vida exige mais de cada um de nós.

A mãe não sabe que sabe de tudo isso, mas toca esse saber quando deixa cair o impulso de impedir que o filho nasça para o mundo com os tombos da vida. Ela não é uma mãe ideal por assim ser, ela está aprendendo sobre o próprio narcisismo a tocar o próprio mundo e aprender de novo a tocar o mundo do outro de um outro lugar. Lugar esse que jamais terá uma fórmula, receita ou qualquer coisa do gênero, senão pela experiência de estar sendo enquanto toca esse impossível do real: viver a vida.

Um abraço, 
Maicon Jesus Vijarva

22.4.19

192


A gente repara que está gozando mal, quando fisga o desejo de viver inundado de um sentimento que não cabe numa única palavra, é quase como estar à beira de uma grande perda e agir com indiferença apostando que nessa deriva estaríamos a enganar a morte. No entanto, ainda não se trata disso, mas é necessário insistir nessa escrita, mesmo que ela não leve a lugar algum. Embora sempre esteja movimentando para um não-lugar. O que se percebe na perda não é necessariamente sobre o corpo físico que se relaciona cotidianamente, é mais sobre o que ultrapassa tudo isso.

É sobre algo que coça a alma, faz barulho e toca o vazio, a falta. A sensação dessa coisa que talvez seja difícil de ser dita, se assemelha ao engolir em seco, que faz tremer o corpo e parecer que exista milhares de borboletas dentro do estômago querendo sair pela boca ou um grande bicho querendo nos devorar por dentro. 

Medo. Medo de perder, não o objeto em si, mas algo da ordem do simbólico que pode emergir na ausência desse objeto. Os significantes desse significado que implica a vida. A independência convoca a cada um a se haver com o desejo e a se responsabilizar pela própria castração. Essa última que puxa o tapete e que ao mesmo tempo causa inquietação, que toca o desejo e implica a insistir em inventar uma saída, um plano B. Que possa talvez ser apenas algo para proteger a si mesmo do superego.

É quase como estar frente ao amor da sua vida e ter que se despedir por não saber se haverá uma próxima vez. Cada beijo, cada afago, cada cheiro, cada abraço, cada momento são impossíveis de ser revividos. A vida nos mostra que há um avesso, e esse avesso cobra caro pelos desperdícios. Na análise se aprende muito sobre a própria castração e, mais ainda, aprende a fazer melhor com o tempo. É sempre no fundo do poço que se pesca a sonoridade dos dizeres do inconsciente. 

Quando se perde não se está perdendo só isso. Se perde muito mais do que se imagina saber de imediato. Quem aprende a perder, aprende não sobre a ganhar, mas a reconhecer o valor de um vínculo, de um laço. Seja ele com o outro ou consigo mesmo. É mais, é saber que a vida é uma aposta, e quase sempre se aposta muito pouco no próprio desejo. 

Mais ainda não é sobre isso, é sobre o desespero de aguardar enquanto acredita estar perdendo algo que não se sabe a dimensão desse laço dentro de si mesmo. É o desespero de se ver castrado diante da vida e ainda sim insistir num plano, numa saída.

192 provoca o desejo em viver melhor.
O inconsciente dá sinais, até demais. Desejar é coisa séria, requer fôlego e insistência. Não dá para ficar desperdiçar o tempo, mas é necessário ter cautela. 

Um abraço
Maicon Jesus Vijarva

25.3.19

DOS TOMBOS SE FAZ O SUJEITO



As bebedeiras das ideias midiáticas de outrem parecem nos trazer a ilusão de eliminar os sentimentos de angústia quando entramos em contato com o estranho que nos habita. Falar em nome própria custa muito mais que alguns trocados na conta bancária; custa sustentar e se responsabilizar pelas consequências dos efeitos que se produz enquanto se conquista o espaço ao sol.

Não é possível ser alguém sozinho. A família, as amizades, as parcerias, o analista entre outros que partilhamos a vida, são peças fundamentais para a construção do que estamos nos tornando. Os que passaram em nossa vida e não puderam ficar, tiveram os seus ciclos e ficaram o tempo necessário para mostrar na prática o que Freud já havia cantado a letra: somos sujeitos castrados. Por sermos castrados, o poder sobre algo ou alguém se dissolve junto com o narcisismo que nos faz sofrer no contato com o amor. 

É no encontro do atrito da pele contra a pele, que construímos o mundo afetivo interno e externo. São as fantasias das expectativas que permitem que possamos ralar o coração, a pele e o corpo no encontro com o outro, com a existência para além da nossa própria íris. É através do toque e das relações com o outro, que aprendemos a compreender e sentir o nosso próprio mundo. 

Não é possível construir e aprender sobre si mesmo sozinho. Se faz preciso que o outro exista em sua singularidade, para que assim possamos tocar o mais íntimo de nós mesmos: o amor e o ódio são uma dessas vias. Muitas vezes amamos e odiamos o mesmo objeto em que endereçamos nosso interesse de vida. A luta é transformar o narcisismo em uma via possível para que o amor deslize e emita a sua linguagem nos corpos amantes. 

Os tombos se fazem necessários na construção de novas ideias, de novas rotas, de novos projetos e para o acesso do próprio inconsciente. No pior é que se constrói grandes ideias, grandes caminhos, e aprendemos a ser criativos com nossa própria vida. Transformando o nosso pior em ponte para que o nosso melhor possa renascer e pintar nossa história no mundo. 

Maicon Jesus Vijarva