17.3.19

SOBRE SABER E MATURIDADE



Em devaneios de pensamentos debato-me matutando quando é que iria ser maduro. A resposta: nunca. Não se trata de tornar-se maduro, mas desentulhar o caminho para que a experiência deslize e emita seus efeitos em nós. Não se trata de saber o que é a vida para começar a viver e alcançar a maturidade, mas tentar dizer para que se possa ser criativo ao viver a vida e seus efeitos.

A resposta que almejamos nunca virá, e se vir, não mais será suficiente para o tempo outro que já teremos alcançado. A maturidade é justamente a experiência do hoje, e alçamos ela vivendo entre o aprender errando e errar aprendendo.

A maturidade é desenvolvida pelo atravessamento da experiência bem-sucedida que o sujeito encontra na função materna e paterna. Quando não encontra esse ambiente citado anteriormente, o sujeito poderá contar com a sorte de topar pessoas que possam ocupar de forma satisfatória essas funções para poder acariciar as feridas e fazer das cicatrizes causa para continuar a existir e reinventar a própria vida.

O sucesso se alcança quando se aprende a fazer causa com o sofrimento, com a cicatriz que nunca será tampada com efeitos mágicos de pílulas e processos cirúrgicos. O sofrimento e dor podem ser a causa para grandes voos ou a ponta da lança direcionada a si mesmo. A luta nunca cessa. É preciso matar o leão por dia, porque ele não está na personificado na voz da imagem do outro e sim na projeção que fazemos do outro em nós.

Errar é importante e é o que nos leva a saber mais sobre o que estamos nos tornando. O saber é uma experiência e se transforma de acordo com os passos que oferecemos ao nosso inconsciente e, consequentemente, a nós mesmos.

20.2.19

ENTRE QUATRO PAREDES ESCURAS É POSSÍVEL ENXERGAR-OUVIR MELHOR


É tarde, o ponteiro interior aponta para um tempo avesso ao que se passa diante do olhos. Uma voz baixa, de tom pueril exclama aos gritos que a direção do caminho está precipitada. Loucura! É uma doideira só que atormenta e faz ecos. Às vezes parece que se está beira da loucura.

Escute só! Eu falo sério. Ouço vozes chamando meu nome. Um frio arrepiante na espinha-dorsal toma conta do corpo e emudece o som de socorro. Os joelhos fraquejam, mas o desejo não cede, mesmo encharcado de medo continua a percorrer o curso.

Amparado no desejo de continuar, insiste. Que garoto, que chatice de insistência. Mesmo que o corpo não queira, o desejo coça e chacoalha persistente. Burrice é tentar trapacear, as consequências são terríveis e deixam marcas no corpo. É como queimar a língua com algo quente, mas nunca mais irá passar.

O desejo deixa rastro, e ele soube ao ser avisado pelos sinais da sua mediocridade e desleixo com a própria existência. Custou algumas marcas, que são impossíveis de ver, ele as sente arder no significante da linguagem simbólica do seu corpo.

Nesse momento percebeu que não haveria palavras que suportasse a imensidão do que transbordava, inundava e dissolvia em si mesmo. A palavra não dava conta, no entanto sabia que ainda era uma possibilidade para dar lugares novos a própria história, mas sob um trabalho árduo, vagaroso e insistente.

O som da voz da analista o avisava:

Ficamos por aqui?

Até a próxima sessão.

16.2.19

O AMOR É UM ENCONTRO FÚNEBRE



Que maravilha! Agora vem você com esse sorrisinho imprestável, que me arrebata sem qualquer desejo de ser compreendido. Caramba, palhaçada sem graça. Aprender os efeitos da solidão em nós é capacitarmo-nos para viver melhor com o outro. Por que você faz amor sorrindo? Bobagem, isso que estou sentido não tem nada a ver com você. Sério. Falácia essa de amor à primeira vista. 

Eu naveguei em mares tão distantes, para me aproximou do início do conflito entre o ideal de mim e a minha falta que você me fez enxergar através da tua íris. Me afastei às pressas de tudo que eram pessoas carentes, para me esbarrar de novo no amor? Diacho, viu! 

Faz frio e penso em você. Sinto o gosto do teu beijo no escuro desse quarto que está infestado do teu cheiro. Que inferno é essa coisa de ser inundado por alguém que se quer conhece direito. OKAY! Vem com essa não superego, querendo dizer quem nem eu me conheço direito. Que não sou senhor do meu próprio corpo, casa. Sabia que essa coisa de ler Freud me levaria ao poço da loucura.

A minutes do único encontro de amor fez efeito que em anos de vida não havia sentido. Essa experiência de amar me faz desejar conversar com Deus. Que babaquice, estamos sempre a conversar com Deus, não é mesmo? Ao menos foi isso que Valter Hugo Mãe propõe em "A desumanização". Essa de Ateu? Nem vem com essa de Ateu. Ateu é um cara que vive a vida para dizer aos outros que Deus não existe, para ver se ele mesmo acredita nessa babaquice. 

Deus é algo que Descartes nomeia como uma parte soberana de nós. Embora tenha uns babacas que acreditam num Deus punitivo. Imagine a força do poder do Superego na vida desses sujeitos cheios de birra de si mesmo, deve ser pura devastação que sente por si mesmo.

Cada vez que reconheço o meu amor no outro, despenco minhas certezas de uma altura de 500 andares, o que resta são fragmentos que implicam em saber mais na minha miúdes no mundo. Aprendo a crescer sempre às voltas da experiência com outro, por ele ser não-todo faz com que coloque algo de mim para nascer o diálogo e assim nascer uma história de amor. O encontro com o outro, quando acontece, é sempre de amor e ódio. Aprender a fazer com os efeitos é que faz com que criemos vínculos que promovem o crescimento.

Sempre que me encontro com o amor, eu perco algo. Desencontro uma pessoa, um amor antigo, um sonho que não mais me cabe. O amor é foda, é meio fúnebre esses encontros e desencontros. Ufa, ainda bem que o amor me salva de mim mesmo.

Fico por aqui, acabou o café. Infelizmente. Até breve!

1.2.19

ENSAIO SOBRE O RETORNO


Retornar não é um caminho nada fácil, por desafiar e deslocar o próprio da singularidade à re[vi]ver estruturas que mexem com os afetos e traumas outrora narcotizados internamente. Desconstruir exige coragem, ousadia e generosidade. Ao demolir estruturas não estingue os efeitos do símbolo instaurado, convocando cada um a se haver com o furo, com o vazio que fica. O que resta dos nós de uma experiência catastrófica produz um saber, que não é qualquer.
Desatar nós é supor que se está rente ao corrimento da releitura da própria trajetória de um outro lugar, embora sempre haja uma confusão do lugar que se fala e do que se diz. Acompanhar os avanços do passado no tempo presente aspira na aposta do que se produziu ser dissolvido na foz, para fazer assinatura de sua reinvenção.
Os equívocos das recordações de acontecimentos [inconscientes] falham à compreensão, quando o imaginário e o real se cruzam ou colidem na tentativa de dizer e escutar o que angustia, emburrando o sujeito para os braços da brutalidade e da mais funda incompreensão do que o constitui.
Pelas palavras de Cyro Marcos Silva, é aí neste ponto que o sujeito desejante se torna desertor do Outro. Cabe-lhe então o teto de um deserto, sem um céu que o proteja. O desamparo é a cordilheira onde se situa a fonte e a nascente do desejo. Seu estuário é muito mais a incerteza de um mar do que o refúgio de um amar."

Maicon Jesus Vijarva

29.1.19

SOBRE A VIDA: PACIÊNCIA, OBSERVAÇÃO E TEMPO



Na relação da construção de laços afetivos consigo mesmo e, consequentemente, com o outro necessitam de um pouco mais de calma, paciência. Mesmo que a vida não pare. O tempo vive a acelerar, mesmo que debrucemos em carne, osso e pele para que a vida seja um pouco menos caótica, ou pouco mais leve. Lenine em sua letra-canção diz: um pouco mais de paciente, um pouco mais de alma...a vida não para, a vida é tão rara.

A gente espera do mundo e o mundo espera de nós, um pouco mais de paciência, ainda acrescenta Lenine. O corpo vive nos pedindo uma conciliação com a alma [ um dos nomes do Inconsciente]. Não é nada fácil sustentar uma vida, ela é rara e singular à cada sujeito, mesmo que partilhada em alguns momentos de existência. 

Os laços mais difíceis e trabalhosos são os que não podem ser rompidos sem deixar um rasgo e uma ferida que jamais poderá ser cicatrizada por completo. Lembro-me numa visita a um hospital, em que me vestia de jaleco branco com cara pintada e nariz de palhaço, fiz um homem com uma expressão triste, sorrir. Não ganhei um dia ali, mas algo despertou em mim um vazio insuportável. 

Não sabia ao certo a razão, eu chorei. Ele vendo algumas lágrimas mancharem minha máscara, disse sorrindo: a vida é muito difícil meu jovem. Eu não sei se vou morrer, mas de alguma forma morro aos poucos nessa solidão que eu mesmo criei para mim. O que fazer quando a vida te coloca à prova para refleti-la de forma nua e crua? Faltavam palavras que pudessem representar a imensidão que aquela experiência me provocava. Ainda sinto ela a cada experiência com meus pacientes. 

A vida é uma incerteza, e não há culpados, mas é preciso se responsabilizar pelo que fica, pelo que resta do resto de uma experiência. A minha atitude foi colher o seu sofrimento pela escuta, que naquela época com 15-16 anos, sequer sabia alguma coisa da vida, ou que essa atitude teria algum efeito ou mais ainda, que me esbarraria com a Psicanálise no caminhar do meu percurso.

David Levisky em seu Livro A vida?... É logo ali,Editora Blucher, implica ao escrever: a paciência, a observação e o tempo colaboram para que um e outro descubram a linguagem da relação que poderá ou não ser transformada em códigos sociais de comunicação. A espera de que eles nos compreendam conflita com a nossa incompreensão do que eles necessitam. Isso é desesperador e faz parte do processo de desenvolvimento. Querer alterar o processo é violentar a si e ao outro.

Escrever é um ato de coragem e amadurecimento dos próprios defeitos e qualidades.

Imagem: @gertscheerlinck