22.4.19

192


A gente repara que está gozando mal, quando fisga o desejo de viver inundado de um sentimento que não cabe numa única palavra, é quase como estar à beira de uma grande perda e agir com indiferença apostando que nessa deriva estaríamos a enganar a morte. No entanto, ainda não se trata disso, mas é necessário insistir nessa escrita, mesmo que ela não leve a lugar algum. Embora sempre esteja movimentando para um não-lugar. O que se percebe na perda não é necessariamente sobre o corpo físico que se relaciona cotidianamente, é mais sobre o que ultrapassa tudo isso.

É sobre algo que coça a alma, faz barulho e toca o vazio, a falta. A sensação dessa coisa que talvez seja difícil de ser dita, se assemelha ao engolir em seco, que faz tremer o corpo e parecer que exista milhares de borboletas dentro do estômago querendo sair pela boca ou um grande bicho querendo nos devorar por dentro. 

Medo. Medo de perder, não o objeto em si, mas algo da ordem do simbólico que pode emergir na ausência desse objeto. Os significantes desse significado que implica a vida. A independência convoca a cada um a se haver com o desejo e a se responsabilizar pela própria castração. Essa última que puxa o tapete e que ao mesmo tempo causa inquietação, que toca o desejo e implica a insistir em inventar uma saída, um plano B. Que possa talvez ser apenas algo para proteger a si mesmo do superego.

É quase como estar frente ao amor da sua vida e ter que se despedir por não saber se haverá uma próxima vez. Cada beijo, cada afago, cada cheiro, cada abraço, cada momento são impossíveis de ser revividos. A vida nos mostra que há um avesso, e esse avesso cobra caro pelos desperdícios. Na análise se aprende muito sobre a própria castração e, mais ainda, aprende a fazer melhor com o tempo. É sempre no fundo do poço que se pesca a sonoridade dos dizeres do inconsciente. 

Quando se perde não se está perdendo só isso. Se perde muito mais do que se imagina saber de imediato. Quem aprende a perder, aprende não sobre a ganhar, mas a reconhecer o valor de um vínculo, de um laço. Seja ele com o outro ou consigo mesmo. É mais, é saber que a vida é uma aposta, e quase sempre se aposta muito pouco no próprio desejo. 

Mais ainda não é sobre isso, é sobre o desespero de aguardar enquanto acredita estar perdendo algo que não se sabe a dimensão desse laço dentro de si mesmo. É o desespero de se ver castrado diante da vida e ainda sim insistir num plano, numa saída.

192 provoca o desejo em viver melhor.
O inconsciente dá sinais, até demais. Desejar é coisa séria, requer fôlego e insistência. Não dá para ficar desperdiçar o tempo, mas é necessário ter cautela. 

Um abraço
Maicon Jesus Vijarva

25.3.19

DOS TOMBOS SE FAZ O SUJEITO



As bebedeiras das ideias midiáticas de outrem parecem nos trazer a ilusão de eliminar os sentimentos de angústia quando entramos em contato com o estranho que nos habita. Falar em nome própria custa muito mais que alguns trocados na conta bancária; custa sustentar e se responsabilizar pelas consequências dos efeitos que se produz enquanto se conquista o espaço ao sol.

Não é possível ser alguém sozinho. A família, as amizades, as parcerias, o analista entre outros que partilhamos a vida, são peças fundamentais para a construção do que estamos nos tornando. Os que passaram em nossa vida e não puderam ficar, tiveram os seus ciclos e ficaram o tempo necessário para mostrar na prática o que Freud já havia cantado a letra: somos sujeitos castrados. Por sermos castrados, o poder sobre algo ou alguém se dissolve junto com o narcisismo que nos faz sofrer no contato com o amor. 

É no encontro do atrito da pele contra a pele, que construímos o mundo afetivo interno e externo. São as fantasias das expectativas que permitem que possamos ralar o coração, a pele e o corpo no encontro com o outro, com a existência para além da nossa própria íris. É através do toque e das relações com o outro, que aprendemos a compreender e sentir o nosso próprio mundo. 

Não é possível construir e aprender sobre si mesmo sozinho. Se faz preciso que o outro exista em sua singularidade, para que assim possamos tocar o mais íntimo de nós mesmos: o amor e o ódio são uma dessas vias. Muitas vezes amamos e odiamos o mesmo objeto em que endereçamos nosso interesse de vida. A luta é transformar o narcisismo em uma via possível para que o amor deslize e emita a sua linguagem nos corpos amantes. 

Os tombos se fazem necessários na construção de novas ideias, de novas rotas, de novos projetos e para o acesso do próprio inconsciente. No pior é que se constrói grandes ideias, grandes caminhos, e aprendemos a ser criativos com nossa própria vida. Transformando o nosso pior em ponte para que o nosso melhor possa renascer e pintar nossa história no mundo. 

Maicon Jesus Vijarva

17.3.19

SOBRE SABER E MATURIDADE



Em devaneios de pensamentos debato-me matutando quando é que iria ser maduro. A resposta: nunca. Não se trata de tornar-se maduro, mas desentulhar o caminho para que a experiência deslize e emita seus efeitos em nós. Não se trata de saber o que é a vida para começar a viver e alcançar a maturidade, mas tentar dizer para que se possa ser criativo ao viver a vida e seus efeitos.

A resposta que almejamos nunca virá, e se vir, não mais será suficiente para o tempo outro que já teremos alcançado. A maturidade é justamente a experiência do hoje, e alçamos ela vivendo entre o aprender errando e errar aprendendo.

A maturidade é desenvolvida pelo atravessamento da experiência bem-sucedida que o sujeito encontra na função materna e paterna. Quando não encontra esse ambiente citado anteriormente, o sujeito poderá contar com a sorte de topar pessoas que possam ocupar de forma satisfatória essas funções para poder acariciar as feridas e fazer das cicatrizes causa para continuar a existir e reinventar a própria vida.

O sucesso se alcança quando se aprende a fazer causa com o sofrimento, com a cicatriz que nunca será tampada com efeitos mágicos de pílulas e processos cirúrgicos. O sofrimento e dor podem ser a causa para grandes voos ou a ponta da lança direcionada a si mesmo. A luta nunca cessa. É preciso matar o leão por dia, porque ele não está na personificado na voz da imagem do outro e sim na projeção que fazemos do outro em nós.

Errar é importante e é o que nos leva a saber mais sobre o que estamos nos tornando. O saber é uma experiência e se transforma de acordo com os passos que oferecemos ao nosso inconsciente e, consequentemente, a nós mesmos.

20.2.19

ENTRE QUATRO PAREDES ESCURAS É POSSÍVEL ENXERGAR-OUVIR MELHOR


É tarde, o ponteiro interior aponta para um tempo avesso ao que se passa diante do olhos. Uma voz baixa, de tom pueril exclama aos gritos que a direção do caminho está precipitada. Loucura! É uma doideira só que atormenta e faz ecos. Às vezes parece que se está beira da loucura.

Escute só! Eu falo sério. Ouço vozes chamando meu nome. Um frio arrepiante na espinha-dorsal toma conta do corpo e emudece o som de socorro. Os joelhos fraquejam, mas o desejo não cede, mesmo encharcado de medo continua a percorrer o curso.

Amparado no desejo de continuar, insiste. Que garoto, que chatice de insistência. Mesmo que o corpo não queira, o desejo coça e chacoalha persistente. Burrice é tentar trapacear, as consequências são terríveis e deixam marcas no corpo. É como queimar a língua com algo quente, mas nunca mais irá passar.

O desejo deixa rastro, e ele soube ao ser avisado pelos sinais da sua mediocridade e desleixo com a própria existência. Custou algumas marcas, que são impossíveis de ver, ele as sente arder no significante da linguagem simbólica do seu corpo.

Nesse momento percebeu que não haveria palavras que suportasse a imensidão do que transbordava, inundava e dissolvia em si mesmo. A palavra não dava conta, no entanto sabia que ainda era uma possibilidade para dar lugares novos a própria história, mas sob um trabalho árduo, vagaroso e insistente.

O som da voz da analista o avisava:

Ficamos por aqui?

Até a próxima sessão.

16.2.19

O AMOR É UM ENCONTRO FÚNEBRE



Que maravilha! Agora vem você com esse sorrisinho imprestável, que me arrebata sem qualquer desejo de ser compreendido. Caramba, palhaçada sem graça. Aprender os efeitos da solidão em nós é capacitarmo-nos para viver melhor com o outro. Por que você faz amor sorrindo? Bobagem, isso que estou sentido não tem nada a ver com você. Sério. Falácia essa de amor à primeira vista. 

Eu naveguei em mares tão distantes, para me aproximou do início do conflito entre o ideal de mim e a minha falta que você me fez enxergar através da tua íris. Me afastei às pressas de tudo que eram pessoas carentes, para me esbarrar de novo no amor? Diacho, viu! 

Faz frio e penso em você. Sinto o gosto do teu beijo no escuro desse quarto que está infestado do teu cheiro. Que inferno é essa coisa de ser inundado por alguém que se quer conhece direito. OKAY! Vem com essa não superego, querendo dizer quem nem eu me conheço direito. Que não sou senhor do meu próprio corpo, casa. Sabia que essa coisa de ler Freud me levaria ao poço da loucura.

A minutes do único encontro de amor fez efeito que em anos de vida não havia sentido. Essa experiência de amar me faz desejar conversar com Deus. Que babaquice, estamos sempre a conversar com Deus, não é mesmo? Ao menos foi isso que Valter Hugo Mãe propõe em "A desumanização". Essa de Ateu? Nem vem com essa de Ateu. Ateu é um cara que vive a vida para dizer aos outros que Deus não existe, para ver se ele mesmo acredita nessa babaquice. 

Deus é algo que Descartes nomeia como uma parte soberana de nós. Embora tenha uns babacas que acreditam num Deus punitivo. Imagine a força do poder do Superego na vida desses sujeitos cheios de birra de si mesmo, deve ser pura devastação que sente por si mesmo.

Cada vez que reconheço o meu amor no outro, despenco minhas certezas de uma altura de 500 andares, o que resta são fragmentos que implicam em saber mais na minha miúdes no mundo. Aprendo a crescer sempre às voltas da experiência com outro, por ele ser não-todo faz com que coloque algo de mim para nascer o diálogo e assim nascer uma história de amor. O encontro com o outro, quando acontece, é sempre de amor e ódio. Aprender a fazer com os efeitos é que faz com que criemos vínculos que promovem o crescimento.

Sempre que me encontro com o amor, eu perco algo. Desencontro uma pessoa, um amor antigo, um sonho que não mais me cabe. O amor é foda, é meio fúnebre esses encontros e desencontros. Ufa, ainda bem que o amor me salva de mim mesmo.

Fico por aqui, acabou o café. Infelizmente. Até breve!