sábado, 10 de março de 2018

NADA É MAIS COMO ANTES


O psicanalista trabalha com o que é mais íntimo do ser humano: a fala. Quando o sujeito fala livremente sobre o que lhe causa, emite um eco barulhento na análise. Ao estruturar na linguagem verbal suas angústias, o analisante, abandona o lugar firme e cômodo da dor em que gozava. Por isso, que repetidamente se convoca a falação sobre o analista levar até às últimas consequências a sua própria análise, para poder ser ético em sua escuta analítica. 

A psicanálise se reinventa quando cada sujeito implicado por seu discurso transmite algo da ordem do estranho que o habita. Após ouvir a própria voz, o analisante inicia uma nova etapa de sua análise: a responsabilização pelo lugar no qual escolheu para desejar e gozar a vida.

O processo de uma análise vive de mãos dadas com a resistência, por denunciar a dificuldade em dizer adeus ao que deixou de ser para tornar-se algo novo e ainda sem nome. Acessar a intimidade do grande outro que constitui em si mesmo é algo constrangedor ao sujeito que foge do que o implica ao movimento do caminhar atravessado da horizontalidade sem bordas e de inúmeras possibilidades de escolhas. 

Amar, odiar, desejar e tantos outros sentimentos não é mais como antes. Hoje, existem uma tonelada de opções para que o sujeito possa escolher. A problemática é que não se pode ter tudo, é preciso escolher somente um objeto, e essa escolha produz  certa angústia por não saber se o escolhido dará conta da demanda que será depositado nele. 

A partir desse pressuposto, a capacidade de viver coincide com a coragem de olhar para o frustrante da dor: o sofrer. O processo de amadurecimento colide com os valores abandonados, conduzindo o sujeito ao desconhecido vazio que o constitui como ser desejante. 

Os efeitos das transformações em análise, implicam o analisante a pensar suas experiências, o que produz certa amplitude de angústia, medo e constrangimento com o novo. Deixar o lugar [prazeroso] em que se gozava de forma ilimitada, mesmo que muitas vezes ruim, é assustador para o sujeito por temer a perda e não ser capaz de suportar a imensidão das incertezas do novo lugar que pretende se posicionar. 

Por perceber que algo [que nunca teve] pode ser perdido, inaugura a experiência de existir, e esse movimento não existe sem que se possa sentir o peso da imensidade do medo. A busca do sujeito pela análise está às voltas da tentativa de estabelecer o equilíbrio por não dar conta de pensar o desequilíbrio que se constitui naquele momento de caos. 

Já em seu avesso, a desistência da análise não está relacionada ao dinheiro investido nas sessões, mas na incapacidade de não suportar o barulho do seu discurso, que o convoca a se responsabilizar por si mesmo. 

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