segunda-feira, 16 de julho de 2018

A PERDA DO OBJETO ELEITO: O AMADO


A perda do objeto de amor eleito pelo sujeito instaura uma ruptura que levará consigo por todo seu percurso. O vazio leva o sujeito à deriva, e por sua vez o ego rejeita a frustração de não mais sentir as bordas que o protegem da insegurança de se estar à mercê das investidas da vida sobre sua existência, colando-se nas lembranças da imagem do que partiu.

As forças inconscientes implicam o sujeito à repetição, é por isso que o sujeito para amenizar o desconforto que a perda do objeto de amor instaura procura em novos laços o estilo do velho amor: fragrância, traços, palavras, características e, sem dúvida, o que mais acreditava odiar no objeto de amor, que não mais poderão ser sentidas como antes, mesmo que volte a estar junto com o mesmo objeto.

A devastação da perda deixa o rastro do desamparo e amor sequestrado pelo outro: o amado. O ego cheio de insatisfação advinda da frustração da perda investe na ilusão de redesenhar no tempo-fotografia capturado a vida vivida com o objeto perdido numa espiral de repetições até fazer-saber sobre sua capacidade de reconhecer a responsabilidade diante do fim.

A dinâmica do amor é espantosa, se antes pensava-se no objeto de amor com certa frequência, com a perde o amor acentua mais ainda sua posição-memória sobre o sujeito amante. A vida poderá existir milhares que ofereçam o seu amor para esse sujeito amante, mas ainda estará à mercê dos resquícios-efeitos das lavas vulcânicas do amor pelo objeto amado.

Os lapsos de memória recaem sobre o sujeito com o peso da tonelada de uma pena, alucinando sentir o perfume, a voz, ou a imagem do amado entre a multidão. O ego se entristece e navega num oceano depressivo de reflexões à cerca das recordações da história interrompida, da graça não mais retribuída, das gargalhadas e sorrisos não mais visíveis aos seus olhos.

As implicações desses amores interrompidos são sentidos na composição do corpo-memória da personalidade do sujeito amante, que o marcam como uma cola impossível de desgrudar da alma, convulsionando lembranças de um sentir impalpável, mas que ocupa boa parte do sua existência psíquica.

Na ilusão de saber sobre o amor, o sujeito ignora o seu avesso, que sempre instaura um sofrimento doloroso. Quando se ama não se sabe quanto tempo se tem para amar e ser amado. O amor é indomável, talvez por isso cause tanto horror e espanto no ser humano que deseja categorizar o amor através de um nome, uma posição, um caminho e/ou um método para amar de forma correta.

O tempo não para mesmo que a perda emperre o ego de continuar o seu frenético percurso. O relógio continua a desenhar a passagem do tempo convocando o sujeito a pensar, elaborar e reconhecer que é tempo de reorganização. É trabalhoso o processo de inventar um novo ambiente no espaço vazio deixado pelo amado-eleito, exige responsabilidade em ser criativo na dinâmica de dividir o tempo para cada novo projeto de vida sem o amado.

A elaboração da perda oferece o sentimento de gratidão [mesmo que dolorosa] pela história vida, transformando a culpa em reconhecimento, a dor se decompõe para nascer o sentimento de saudade que implica o sujeito a fazer-melhor-com-seu-sofrimento.

É necessário que o sujeito possa sentir o processo doloroso que a perda amorosa ou qualquer outra origem ocupe em sua vida, para que na idade do envelhecimento do corpo a psique não atormente-o com memórias que foram engolidas a seco em nome de um equilíbrio-social-emocional.
Maicon Vijarva
Psicólogo de Orientação Psicanalítica
📞💬 17 98151-6943
📍 Rio Preto / Potirendaba-SP

sábado, 14 de julho de 2018

DUVIDAR DO ÓBVIO



Tornar-se analista está muito mais ligado a ordem da própria experiência no lugar de analisante. Lugar esse tão importante para o sujeito desejante por sustentar esse lugar independente da adversidade que pode e irá ocorrer.

A experiência da análise e da dupla analítica pode possibilitar ao sujeito analisante ser tocado pelo horror e beleza que constitui o ser humano, e a partir desse tocar se interessar em assumir um lugar outro tão mais angustiante do que estar no lugar de analisante.

Ser analista não é uma posição que pode ser alcançada por qualquer um, ela demanda uma autorização do próprio sujeito diante da sua própria análise e cuidado de si mesmo. Por isso que o analista precisa duvidar do óbvio que está no discurso do analisante, e essa escuta apurada e cuidadosa só pode ser alcançada pela experiência analítica na posição de analisante.

Portanto para aprender o sentido do não sentido da psicanálise, faz-se necessário ingressar no angustiante processo da experiência analítica.

Maicon Vijarva 
Psicólogo de Orientação Psicanalítica
📞💬 17 98151-6943
📍 Rio Preto / Potirendaba-SP

É POSSÍVEL AGREGAR MAIS DE UMA ABORDAGEM NA CLÍNICA?


O sujeito só pode seguir um caminho, por demandar dele certo tempo e investimento para sustentar tal percurso desejado. Não é qualquer um que se submete ao processo de análise, por isso é importante que aquele que deseja ocupar o lugar de analista possa estar avisado e orientado de sua função frente ao sujeito que o procura.

A experiência da análise oferece ao olhar do analisante a possibilidade de um horizonte de opções, podendo ele determinar qual caminho não faz sentido a ele, abraçar todos os caminhos só emperrará mais ainda a sua vida. Partindo dessa lógica, o sentido é que fica inviável submeter a dupla analítica a mais de um método, visto que uma hora ou outra o impasse das abordagem irá colidir uma a outra inviabilizando o ato analítico.

O sujeito precisa de acolhimento, de um analista que leve as últimas consequências a sua análise pessoal e seus estudos teóricos, para que não precise utilizar de maneira equivocada vários métodos para dar conta da demanda do outro.

Em suma, utilizar-se de várias abordagem é de certa forma sustentar e se moldar a todo custo a demanda do outro, o que bem sabemos ser impossível.

Maicon Vijarva
Psicólogo de Orientação Psicanalítica
📞💬 17 98151-6943
📍 Rio Preto / Potirendaba-SP

sexta-feira, 22 de junho de 2018

ATITUDE PSICANALÍTICA: AUTORIZAR-SE ANALISTA


A capacidade de um sujeito de tornar-se analista está na sua posição de responsabilidade e ética para com três fatores essenciais, o primeiro fator e mais importante é a análise pessoal, os seguintes e não menos importantes são estudo teórico e supervisão.
Esse dinamismo possibilita ao sujeito que busca assumir a posição de analista a base para construir sua própria linguagem e teoria, levando em conta que a psicanálise é uma parte construção de retornos a Freud e outra são elementos importantes do sujeito que deseja assumir ela como linguagem de percurso.
Autorizar-se como analista trata-se de uma atitude única e pessoal, que vai se desenvolvendo com o passar do exercício de análise pessoal, clínico e teórico em psicanálise, os quais estão intimamente ligados e são interinfluenciáveis.
O encontro da atitude psicanalítica está na ordem de inúmeras consequências de fatores, reconhecendo limites e desenhando as condições mínimas necessárias para analisar quem se propõe ao ato de ser analisado.
O analista precisa criar sua própria identidade e linguagem a partir das bases propostas por Freud, buscando sempre ir mais ainda à frente, ultrapassando-o com novas formulações e expandindo a psicanálise para novos pólos, sempre às voltas da ética e responsabilidade.
Em suma, saber sobre psicanálise só se faz possível através da experiência de assumir o lugar  angustiante de analisante, essa experiência de sustentar e levar até as últimas conseqüências a sua análise pessoal poderá contribuir para que o sujeito possa se autorizar a torna-ser analista.

terça-feira, 22 de maio de 2018

SOBRE LAÇOS AMOROSOS E NÓS ALIENADOS


Só um milagre faz da destruição uma forma de esperança.
Luiz Felipe Ponde

Amor e ódio são sentimentos responsáveis por promover a união de partes, a ligação das faltas que não se completam, mas unem-se para criar algo com a imensidão que essa junção acende [provoca] em cada um de nós.

São sentimentos que guardam em si uma função de sustentar duas ou mais pessoas em um laço amoroso ou amigável, e também revela em seu desdobramento uma variação que não se prende em saberes, por isso merece um olhar mais cuidadoso.

A rapidez do quotidiano e das relações instantâneas nos impossibilita muitas vezes de pensar melhor, repensar com mais cuidado nossas relações com aqueles que nos unimos para desenhar um percurso. Acreditamos muitas vezes que estamos ligados intimamente a alguém, e muitas vezes possuímos uma rasa capacidade de reconhecer e/ou questionar os efeitos dessa função de vínculo na qual estamos ligados.

Se a possibilidade de pensar melhor emperra, talvez também seja muito difícil perceber e atribuir às consequências que esses vínculos podem gerar em nossa vida psíquica.  É desastroso estar ligado profundamente a alguém que pouco conhecemos e, mais ainda, não conseguir nomear através da linguagem a dimensão e a qualidade de identificação desse vínculo tão importante em nossa vida.

Além desses laços direcionados a alguém, existem os grupos, coisas, objetos e também a forma como nos ligamos e relacionamos com o dinheiro. Este ensaio busca fazer-saber sobre a ligação que pode ser construída e cultivada entre o eu e o que se encontra para além dele.

Através desta experiência podemos chegar ao conceito que a qualidade de qualquer vínculo constituído com o outro dependerá da forma como somos capazes de nos relacionar com nós mesmos. Quando dois corpos se unem, inconsciente procuram encontrar nessa experiência de identificação algo que está na ordem do que lhe falta.

A capacidade afetiva de cada ser humano é o que poderá ampliar esse vínculo primário de identificação narcísica para algo que se encontra além, em que ambos possam se desenvolver subjetivamente sem se perder na expectativa do vínculo primário.

O laço amoroso é um processo de construção muito delicado, que implica a partir de uma demanda interna, muitas vezes árdua e pouco [quase nada] elaborada, para esboçar um percurso. Como bem instrui a psicanálise, o início de qualquer vínculo com o outro ocorrerá através de identificações entre as partes e algo muito além que não é possível de ser nomeado.

Há algo no outro [objeto de desejo] que parece preencher a parte que falta no sujeito, oferecendo um sentido outro ao seu vazio. O amor na relação amorosa obstrui muitas vezes quando o amante economiza para que não ocorra a escassez de seu amor para seu objeto amado.

O amor é uma contingência e não há uma ciência sobre ela. Pondé (2017) nos implica a refletir mais ainda sobre a possibilidade do amor, quando descreve:

Para lidar com a contingência, acumula-se alguma sabedoria, e onde há ciência, normalmente, falta sabedoria e sobra certeza. [...] o amor entra pela fresta da porta. Nunca é convidado, mas toma todo o ambiente quando é notado. Encanta pela sua força vital. Pelo desejo de vida que traz consigo.

Por isso, que quando o sujeito ama acredita estar à beira de encontrar a melhor versão de si mesmo. E essa experiência pode ser muito destrutiva para muitos outros, que não conseguem lidar com a dimensão desse amor que não pede licença para entrar.

Na relação amorosa, quando digo “eu te amo”, digo também “amo a mim mesmo através de ti”. Freud é muito preciso ao escrever: quando escolho amar o Outro, escolho amar quem representa a imagem ideal do meu Eu. Podemos expandir um pouco mais com a reflexão de Recalcati, quando diz que o amor pode ter várias faces, e uma delas é sem dúvida é a face do embuste, da cegueira, da sugestão, da hipótese, do enamoramento narcísico.

Não é exagero dizer que nos aproximamos das pessoas e coisas muito mais pela expectativa do que imaginamos que elas sejam do que realmente são. O processo que conduz uma construção de laço amoroso verdadeiro necessita contar com um período de dedicação mínima que seja ao reconhecimento básico das partes, que está depois da experiência da identificação.

Segundo Martino, nessa fase do desenvolvimento do laço amoroso existe uma tênue/tenaz fragilidade naquilo que une as partes, que se encontram nesse momento severamente vulneráveis.  A construção e desenvolvimento do verdadeiro laço amoroso necessitam ser sempre um processo lento e que demanda extrema dedicação, por sua origem ser totalmente delicada.

A realidade última [vazio] promove o pensar melhor a respeito do que nos falta. Só somos capazes de pensar sob a experiência do vazio, implicados pelo movimento que falta nos convoca. Mas, como toda reflexão, provavelmente o sujeito pode ser impulsionado pela urgência de sua fragilidade emocional confundir o nó de uma relação perversa [alienação] com um laço amoroso.

Adoecido emocionalmente na autoestima, o sujeito encontra-se incapaz de duvidar, questionar ou de fantasiar. O ser humano fragilizado buscará estabelecer um modelo de vínculo no qual inviabilizará qualquer possibilidade de desconfortos ou tentará encontrar em nome de garantias um comodismo mórbido que obstruirá o contato com a fragilidade que dá cor a vida.

O nó da alienação está anos luz distante do objetivo [individual e partilhado] característico da expansão, desenvolvimento e transformação das partes de um laço amoroso. O sujeito fracassa no vínculo com o outro, por acreditar que seu nó alienado [perverso] seja um laço amoroso, o que impossibilita de fazer-saber sobre si mesmo pela incapacidade de sequer suspeitar de quem realmente seja.

Existe dois modelos de alienação em que podemos nos escorar e fazer morada. O primeiro é quando inseguros de nós mesmos nos unimos ao outro numa ligação parasitário-dependente, tornando-nos parte do outro. Nessa ligação perversa buscamos nos tornar parte daquele do qual estamos vinculados, para não nos responsabilizarmos por qualquer eventualidade do atrito saudável [mesmo que de forma frustrante], que um laço amoroso pode oferecer.

Em seu avesso há um modelo de falsa alienação, que se baseia no domínio-controlador, impondo que o outro seja parte de nós mesmos e nada mais que isso. Para Martino (2013), o sujeito incapaz de desenvolver certas funções, utiliza-se do outro para isso, perdendo o direito de ser ele mesmo, porque parte de si encontra-se sendo desempenhado por outrem.

A vinculação através do nó alienado faz com que o ser humano assuma uma posição de própria negação, que o leva a tornar-se cada dia mais carente de si mesmo, censurando o eu para que o outro possa existir. Na aliança perversa ou nó alienado, o funcionamento mental enfraquece sua capacidade de pensar e repensa melhor sobre si mesmo, o que intensifica ainda mais a própria alienação, atando-se mais ainda a dependência em favor do estado de desesperança.

Ligações como essas cultivam um fruto deficiente de nutrientes e extremamente vulnerável, por levar o peso das marcas amargas em sua raiz. E o que nasce dessa relação alienada-perversa, totalmente ausente de cuidado e amor, poderá viver numa espiral de repetição constante nas próximas gerações, contando apenas com a sorte de encontrar pelo caminho um amor que possa desconstruir essa linhagem perversa.

O impossível pode parecer uma linguagem que nos inibe de pensar além de sua fronteira, mas existe a esperança de transformação. No entanto, para que essa transformação ocorra é necessário que possamos ser capazes minimamente de suportar a devastação que o processo de desconstrução irá implicar em nesse momento da vida.

Esse percurso só é possível através da experiência de um amor que entra sem ser convidado ou da busca pela análise, na tentativa de falar sobre o que atormenta a alma e o corpo e, assim, fazer-saber sobre o que há por trás do sintoma, para poder ingressar na experiência de elaborações promovida pelo movimento analítico e então poder saber-fazer melhor com o que trava e inviabiliza a ação da existência no próprio percurso de vida.

domingo, 29 de abril de 2018

FORMA DE VER, SENTIR E AMAR

Não sei se o amor é cego,
Talvez nós que não possamos
ver tão bem.
Bom, talvez mais tarde 
no caminhar possamos aprender
a saborear essa errância toda
com menos angústia e aprender
a fazer melhor com ela.
Talvez seja tudo questão de
desacelerar e sentir toda a avalanche
que desnuda o ideal diante
de nós mesmos.
Talvez seja só questão de respirar
e sentir o agridoce das lagrimas que escorrem
pelo rosto empoeirado pelos antigos amores,
e possa possibilizar o raiar de uma nova
visão.
Maicon Vijarva
2018/04/29

terça-feira, 10 de abril de 2018

A PALAVRA SALVA NA MESMA INTENSIDADE QUE MATA


A diferença existe para implicar, para transformar o comum. É preciso que cada sujeito seja capaz de lidar com a frustração do desconhecido e se responsabilizar por seu medo e ira diante do que lhe causa, promovendo um elo com o diferente, para assim construir um mundo melhor, de uma equidade que expande e desenhe uma terra com mais amor e compaixão.
Não gostar de algo no outro pode ser até humano, mas ultrapassar o limite e desrespeitá-lo é uma incapacidade que precisa ser pensada. Se está sentindo incomodo por algo que existe no outro que não lhe agrada, vá em busca de um analista, questione-se e busque fazer-saber, para poder saber-fazer diante do que lhe causa e incomoda.

Lembre-se, se o seu mundo pode estar desmoronando, o do outro pode também estar na mesma ou em pior situação. Seja no mínimo amável. Cada um de nós leva no coração uma dor, um sintoma.
Então, não pise no vazio do outro, por mais que este lhe tenha feito algo ruim. Se não pode transformar o outro, afaste-se para não acabar agindo com selvageria. Um palavra salva na mesma intensidade que também mata!

Ouvi uma criança, com medo do escuro, dizer em voz alta: "Mas fala comigo, titia. Estou com medo!". "Por quê? De que adianta isso? Tu nem estás me vendo." A isto a criança responde: "Se alguém fala, fica mais claro". (Freud, 1976p [1916], p.474)

Há um ruído em nossa garganta, na língua, posto que dessa linguagem que tomamos as palavras para tecermos algo que emperra e impossibilita caminhar, em forma de discurso. É na análise que o sujeito pode transformar o seu impulso destrutivo em uma produção significativa na relação consigo e com o outro.

quinta-feira, 22 de março de 2018

LIBERDADE É FALAR TUDO QUE SE PENSA?

Between Rivers - Mojowang

O movimento de vomitar toda insatisfação ao outro é uma pulsão [impulso] corporal que é ressentido na história psíquica. Essa “descarga” da pulsão procura satisfação devido à impotência do sujeito em sua busca de um objeto adequado, para tentar manter um estado de menor tensão com o objeto inadequado.

A força que trabalha às voltas do princípio de vida se transforma em combustão da estase e da destruição do objeto inadequado. A insatisfação com o esse objeto último, impele na espiral da repetição. Todo esse excesso que comporta a manutenção da imobilidade destruidora é próprio de uma falta de elaboração à situação que se apresenta. 

Na análise o sujeito poderá encontrar um lugar para endereçar a falação ilimitada do seu discurso, para a partir desse ponto fazer-saber sobre seu sintoma e trabalhar na elaboração do saber-fazer a respeito do saber instaurado dentro da função de vínculo estabelecida com o objeto inadequado. 

É através da transferência que se faz possível transformar a tendência à destruição do objeto externo em energia de maturação e movimento de produção consequente em saber sustentar laços. A análise proporciona ao sujeito a escuta de sua própria história, e aprende sobre o ensejo de pensar, de recalcular a rota e de redimensionar a problemática do seu sintoma, transformando-o em sua causa. 

O saber em análise implica o emissor e receptor a colocar algo de si nessa transmissão psicanalítica. Se o corpo do sujeito em análise não convocar algo subjetivo dentro do ambiente psicanalítico, pode-se transmitir qualquer coisa menos psicanálise. 

Falar tudo que se pensa ao outro sem filtragem é se colocar na qualidade de selvageria de um animal irracional, sem responsabilização pelo que se pensa e fala. Na vida é preciso aprender saber-fazer dentro da função de vínculo com o outro. As diferenças precisam promover uma transformação e uma produção em saber sustentar laços. 

Somente com o outro que aprendemos a fazer melhor com nossa existência no mundo, para fazer-saber o próprio limite e assim aprender a construir saberes para continuar transformando o percurso do próprio desejo. 

domingo, 18 de março de 2018

DOS FRACASSOS NO LAÇO COM O OUTRO NASCE A ALTERIDADE DO DESEJO


In transition. LOVEJOY, Emily 


A forma como lidamos com o fracasso pode nos levar ou não a novos lugares. Há um saber no fracasso que só o sentindo é possível fazer-saber para sabermos fazer com esse saber que poderá se instaurar. O inconsciente está às voltas do que não funciona em nós, e o fracasso é seu lugar próprio para dar pistas [através do não dito] sobre aquilo que enrosca, emperra e paralisa em nosso percurso.


O sujeito neurótico fica incapaz de sentir o ardor do fazer-saber sobre seu fracasso, por estar alienado à demanda do outro. Ao partir desse lugar, o neurótico não consegue filtrar as demandas e dizer não a algumas delas ao outro. 

O fracasso é visto com maus olhos e expurgado às pressas do sentir do sujeito. O impasse se instaura, uma porque o fracasso trata-se de um saber que constitui o sujeito; uma das línguas do inconsciente e do desejo, e outra porque é através dos fracassos no laço com o outro nasce a alteridade do desejo. 

Esse saber inconsciente, alteridade do grande outro que nos habita, que aos trancos e barrancos da análise tentamos escrever nossa biografia, que tentamos fazer as pazes para o transformar de inimiga a aliado. São essas tentativas desesperadas e repetidas que o sujeito aprende mais sobre os seus sintomas.

O fracasso não é o ponto final na biografia que o sujeito escreve, mas a vírgula que insiste e persiste em convocar algo da ordem do que o constitui. Por isso a importância de fazer-saber sobre o inconsciente, para saber-fazer com que vem depois, a castração: a falta. 

Refletir sobre o que nos faz fracassar é andar em corda-bamba, é abrir mão do saber estabelecido para atualizar todos os valores e ideias que até a minutos atrás sustentavam todo nosso corpo falante.  

É preciso e urgente que aprendamos mais sobre nossa alteridade, ela nos convoca a questionar a demanda do outro, a criar saberes para fazer-saber algo que se tenta dar sentido, e que implicado a esse movimento de busca todo esse sentido perde sentido e abre portas para algo muito que se aproxima de nós mesmos e do laço com o outro. 

O sujeito que aprender a fazer-saber sobre seu fracasso e atravessado por ele, aprende saber-fazer com isso, consequentemente se torna bem-sucedido.

terça-feira, 13 de março de 2018

O TRABALHO DO PERCURSO EM ANÁLISE


 

Em análise, o desejo está em frenética conexão com o que não funciona, paralisa e insiste em comparecer no real pelo avesso. Em sua espiral sonoro da experiência, a psicanálise revela tudo que a sociedade incuba na exposição do humano que valoriza como ideal: puro, divino e perfeito.

O caminho da psicanálise implica o sujeito a responsabilização por seu estilo no mundo, atravessado pelo não-todo-saber que se inaugura no sintoma. Não à toa que a psicanálise não é para todos, por implicar o sujeito a arriscar tudo em sua subjetividade, alterando rotas e pensando com ética as prioridades da sua vida.

Para construir o percurso na análise é necessário abrir mão do lugar de ser desejado, da bengala da demanda do outro. Recusar a posição narcísica para assumir o seu inverso, que convoca o eu ao comprometimento, ousadia e coragem à responsabilização por sua existência no mundo. Esse movimento leva o sujeito a produzir conteúdo em análise, para criar um saber sobre o que estrutura o seu sintoma.

Além disso, todo esse avesso que se apresenta instaura um novo sujeito com autonomia ao que lhe causa, inspira e fracassa. O trabalho em análise conduz à incompletude do horizonte, na ousadia e coragem em apostar todas as fichas em si mesmo, sem recursar em pagar o preço necessário para sustentar suas escolhas e decisões em constante maturação frente às novas possibilidades em que o seu desejo aponta.

Aprender a transformar as oscilações do sintoma que emperra o analisante a caminhar em seu percurso, exige questionamentos sobre o lado obscuro que também interfere nas escolhas e decisões do analisante. A vida em análise é estar diante da vírgula que o impossível implica, que não cessa de se escrever. 

O discurso emitido pelo sintoma do sujeito, evoca algo da ordem do mistério que o implica a ultrapassar os semblantes que moldam o lugar que insiste a convocá-lo ao gozo da repetição. Mas não é só isso, há muito mais a que se aprender com o que a psicanálise se propõe em sua transmissão no quotidiano, que se enlaça e entrelaça nos vínculos do sujeito do inconsciente.

sábado, 10 de março de 2018

NADA É MAIS COMO ANTES


O psicanalista trabalha com o que é mais íntimo do ser humano: a fala. Quando o sujeito fala livremente sobre o que lhe causa, emite um eco barulhento na análise. Ao estruturar na linguagem verbal suas angústias, o analisante, abandona o lugar firme e cômodo da dor em que gozava. Por isso, que repetidamente se convoca a falação sobre o analista levar até às últimas consequências a sua própria análise, para poder ser ético em sua escuta analítica. 

A psicanálise se reinventa quando cada sujeito implicado por seu discurso transmite algo da ordem do estranho que o habita. Após ouvir a própria voz, o analisante inicia uma nova etapa de sua análise: a responsabilização pelo lugar no qual escolheu para desejar e gozar a vida.

O processo de uma análise vive de mãos dadas com a resistência, por denunciar a dificuldade em dizer adeus ao que deixou de ser para tornar-se algo novo e ainda sem nome. Acessar a intimidade do grande outro que constitui em si mesmo é algo constrangedor ao sujeito que foge do que o implica ao movimento do caminhar atravessado da horizontalidade sem bordas e de inúmeras possibilidades de escolhas. 

Amar, odiar, desejar e tantos outros sentimentos não é mais como antes. Hoje, existem uma tonelada de opções para que o sujeito possa escolher. A problemática é que não se pode ter tudo, é preciso escolher somente um objeto, e essa escolha produz  certa angústia por não saber se o escolhido dará conta da demanda que será depositado nele. 

A partir desse pressuposto, a capacidade de viver coincide com a coragem de olhar para o frustrante da dor: o sofrer. O processo de amadurecimento colide com os valores abandonados, conduzindo o sujeito ao desconhecido vazio que o constitui como ser desejante. 

Os efeitos das transformações em análise, implicam o analisante a pensar suas experiências, o que produz certa amplitude de angústia, medo e constrangimento com o novo. Deixar o lugar [prazeroso] em que se gozava de forma ilimitada, mesmo que muitas vezes ruim, é assustador para o sujeito por temer a perda e não ser capaz de suportar a imensidão das incertezas do novo lugar que pretende se posicionar. 

Por perceber que algo [que nunca teve] pode ser perdido, inaugura a experiência de existir, e esse movimento não existe sem que se possa sentir o peso da imensidade do medo. A busca do sujeito pela análise está às voltas da tentativa de estabelecer o equilíbrio por não dar conta de pensar o desequilíbrio que se constitui naquele momento de caos. 

Já em seu avesso, a desistência da análise não está relacionada ao dinheiro investido nas sessões, mas na incapacidade de não suportar o barulho do seu discurso, que o convoca a se responsabilizar por si mesmo. 

quarta-feira, 7 de março de 2018

SOBRE SER DESEJADO E SER DESEJANTE

thinkpink - andrewkuttler
Ser desejado está na ordem da demanda que se endereça ao olhar do outro sobre a si mesmo, ser desejante está em convocar o próprio olhar sobre a falta que se constitui.

Ser desejado é uma demanda que se dá ao outro, muitas vezes a ilusão que se edifica pode ser descontruída em milésimos de segundos, por estar sempre enraizada numa esfera narcísica da terra firme da área movediça. A frustação nasce justamente de não poder emoldurar o olhar do outro para si mesmo, uma vez que, é preciso muito mais que ser interessante para o outro.

Trata-se da essência [sem borda] de se haver com o faltante que se constitui em cada um de nós. Na análise aprende-se muita coisa, uma delas é que não se estilhaça a fantasia do outro por haver em si mesmo um enorme teto de vidro. A falta não se trata de um vazio, mas se alimenta dele para produzir saberes que impulsionam às transformações do sujeito.

Em nome da linguagem do faltante é que se produz desejo, em que o sujeito começa a compreender suas complexidades e o que constitui sua falta. Ser desejante não é uma tarefa simples e de pouco trabalho, demanda tempo e muita espera. E nós, sujeitos do contemporâneo, desaprendemos a esperar.

Tudo precisa ser em tempo real, não há espaço para aprender a esperar. Por isso, muitos não suportam o peso da experiência do processo psicanalítico. Para desejar, amar e viver a espera é preciso aprender a desacelerar, o saber sobre si mesmo leva muitos anos e mesmo que se constitua algum saber dessa ordem, ainda existirá algo para problematizar, questionar e tentar produzir saberes que estruturam o sujeito do inconsciente.

Mas, pode ser que eu esteja errado sobre tudo isso. Afinal de contas, quem é que quer esperar e viver a angústia desse processo, quando o tempo vive a passar?

Não há mais nada doloroso que aprender que é preciso perder algumas coisas, para que se possa ganhar.


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

A FALTA DE EMPATIA NOS TORNA SUJEITOS DOENTES


A falta de empatia frente à singularidade do outro, nos torna sujeitos doentes em uma sociedade psicótica. Há quem acredita que é preciso encorajar os que estão vivendo a sua maneira e medida [tempo] a viver algo outro, que seja menos doloroso para nossos olhos, pela incapacidade de reconhecer o estranho [dentro], que também está no outro, mas, que no caso está a olho nu. 

O humano vive insistentemente [de forma neurótica], querendo encontrar uma palavra para nomear o que é inominável e, por assim ser, causa: medo, angústia e desejo. A doença dos tempos presentes está na dificuldade em lidar com a frustração e a beleza da singularidade do não-todo, que é impossível de esquadrinhar ou enquadrar.

Faz-se necessário deixar que o outro possa ser em sua totalidade [até as últimas consequências], para que ele por si mesmo possa construir um saber-não-todo do próprio percurso. Quer-se muito do outro, que ele seja sempre algo que não se é. No caso do suicídio e depressão nível hard, todos querem que o sujeito seja positivo, que seja forte, que seja qualquer outra coisa, menos que seja ele mesmo em sua difícil amargura de criar um saber diante disso. 

A questão é simples, ao invés de dar caminhos, ofereça ambiente e suporte a demanda que pode se inscrever a partir disso. Poucos se manterão presentes, melhor que seja assim. Muita gente tentando fazer o mesmo cria abismo. A sociedade é um bom exemplo, senão excelente.

Sejamos o mais próximo do real ao tocar na dor do outro. Que se possa oferecer ambiente para que esse outro que sofre possa falar sem medo de retaliações. E, quase sempre, isso só é possível num trabalho de análise, que é osso duro de roer. 

Que possa existir mais apoio aos que sofrem, oferecendo sempre autonomia. Estar triste, insatisfeito e infeliz em certos momentos da vida não torna ninguém menor que qualquer outro. A proposta é criar um saber diante disso e poder fazer melhor com o que causa dor, angústia e sofrimento. A vida é isso, salvos os momentos que criamos felizes para sustentar toda uma vida de altos e baixos.

O amor está em oferecer a mão, deixando que o outro possa por si mesmo acessar o seu interior e aos poucos reconhecer sua trajetória com bons olhos.