quarta-feira, 20 de setembro de 2017

DESAMPARO DE SI MESMO


A responsabilidade com o percurso que se desenha é, em parcial, exclusividade do sujeito do inconsciente. Sujeito que se responsabiliza pelo acaso e surpresa que o seu inconsciente aponta perante o desejo. Dedicação é algo que pouco se ambiciona refletir, ainda mais quando não existe ganho em curto prazo. 

Neste limite, em que o desejo e o gozo disputam a representatividade do sujeito, dedicar-se ao outro, enquanto o Ego se faz em pedaços até pouco sobrar dele, é fugir a responsabilidade. Há quem diga que se dedicar totalmente ao outro seja amor, quiçá seja a forma mais simplista de articular que pouco [ou nada] se investe no amar a si mesmo. O desamparo de si mesmo torna-se a energia de viver para o outro, apelidando essa experiência de amor.

O aspecto econômico da psique, o quantum de energia libidinal que estrutura o movimento que aponta à força selvagem que duela entre amor e desamor, esboça uma pintura de que quanto mais o sujeito investe o seu desejo no desejo do outro, mais à mercê do investimento fica o seu desejo no passado. No experimento da paixão, o sujeito direciona toda sua energia psíquica ao endeusar o Outro a ponto de alocar a si mesmo em segundo plano.

A rigor da incapacidade de se responsabilizar por seu percurso, o sujeito é capaz de lidar com o impossível, até mesmo desconstruir a estrutura do seu discurso de que jamais faria algo que repudia. Na lei rigorosa de evitar o caos de olhar para o que lhe causa, o sujeito projeta no externo o que acredita ser fonte da energia de sua existência. 

O sujeito ao articular do lugar de dependência a ponto de realocar toda sua energia libidinal na dedicação de algo externo, assume a responsabilidade de beijar a morte, a conta gotas, do seu desejo. 

O mais próximo que podemos chegar à conclusão deste texto, a narrativa do sujeito que narra um discurso de que muito se ama ao se colocar à disposição do outro, está retratando uma pintura esquizofrênica de que é incapaz de amar a si mesmo, de olhar para o que lhe causa, de seguir um percurso que não há garantia senão a de sustentar até as últimas consequências o que aponta para realização do seu destino: o desejo.


Maicon Vijarva
Psicoterapeuta de Orientação Psicanalítica
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