quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Representação-objeto: mãe-bebê



A proposta aqui, não é ensinar para as mães, como educar seus filhos. Não. A ideia é pensar sobre o tacto mãe-bebê, e como essa simbiose do primeiro contato é tão importante para as demais etapas de desenvolvimento, tanto as mencionadas por Piaget como por Freud.

Com base na filosofia, a representação-objeto não contém mais nada além da aparência de uma "coisa", cujas diversas "características" são denotadas pelas impressões sensórias, obtidas de uma variedade de objetos. Em outras palavras, o objeto-desejo é fruto de várias simbolizações desenhadas a partir do olhar fixo do primeiro contato mãe-bebê.

Em uma hipótese, o sujeito só pode construir um aparelho-psíquico saudável, quando esse primeiro contato, mãe-bebê, for seguro para ele (bebê): sentir-se a mãe, e não sendo "parte" dela.

Quando nos primeiros anos, o bebê se sente parte da mãe, isso significa que o ambiente não está sendo "seguro" para ele. Freud propõe que o bebê possa se reconhecer por si mesmo, como parte da mãe, e não a mãe, mas isso não pode ser imposto a ele.

Em última reflexão, caso seja imposta a ideia de parte e não de todo, podemos pensar um indivíduo com disfunções, de maneira que somatizará essa mãe em seu corpo, criando mecanismos de reparação, a construção de idealização-fixa, em que sempre buscará cuidados dos outros, para suprir essa "parte” não elaborada.  Vazio que jamais será preenchido, o que será uma busca utópica pela realização desta falta. 

domingo, 31 de agosto de 2014

OS CONTOS DE FADAS FACE À USUALIDADE DO QUOTIDIANO: O PROCESSO DE ESTRUTURAÇÃO DO EU FRENTE À PSICANÁLISE


EM ANÁLISE NÃO SE PROPÕE MUITOS ADEREÇOS À CRIANÇA, o ideal é aguardar as suas projeções frente ao analista. Quando esta fantasia transcorre no real, possibilita que a análise ocorra de forma evolutiva. O que recorda um de meus textos, onde reflito que a análise só sobrevém a partir das possibilidades do paciente em manifestar suas queixas de forma figurada, usando atributos de linguagem em que se mistura o verbal com o não verbal no set-terapêutico. A espontaneidade à luz da Psicanálise.

O analisando a partir desta sintonia entre a fantasia e o real, consegue transcrever para realidade os seus sentimentos ocultos – inconsciente –, mas de forma muito sintética. Chamamos esse período de sedimentado, pois traz informações rasas, no entanto importantes para o sujeito, para que se sinta seguro de si mesmo, e então aparecer para o analista, evidenciando de forma degrade o seu eu ideal – o que ele é –, trazendo à tona seus sentimentos incubados.

Neste texto refletiremos juntos alguns ensaios sobre os contos de fadas a partir dos estudos do aparato da Psicanálise, no qual trazem contribuição para compreensão do desenvolvimento da estruturação do Ego, id e superego, desde os primórdios da infância até a vida adulta. Os ensaios aqui narrados nada mais são do que uma forma de pensar as complexidades da mente humana frente aos enfrentamentos e habilidades adquiridas pelo sujeito devido às necessidades do mundo externo, com a intensão de suprir as lacunas do mundo interno.

As observações da psicanálise ao decorrer dos anos pós-freudiana, na qual podemos evidenciar de Psicanálise psicodinâmica, mediante muitas contribuições enriquecedoras que ocorreram, ensinam-nos que, mesmo nos seus mais tenros anos, as crianças experimentam não apenas impulsos sexuais e compulsivas crises de ansiedade (será que podemos dar essa nomenclatura?), como também grandes desapontamentos: questionamentos sobre si mesma e o mundo.

Em concordância com Freud, História de uma neurose infantil [“O homem dos lobos”] –  (1917-1920):

A análise que realizamos na própria criança (...) parecerá em princípio mais confiável, mas não pode ser muito rica de conteúdo; é preciso emprestar à criança muitas palavras e pensamentos, e mesmo assim as camadas mais profundas serão talvez impenetráveis para a consciência. (pág. 16)


O autor propõe refletirmos, que para a criança é mais fácil se utilizar de ferramentas numa linguagem de fantasia, para descrever seus conflitos internos, no qual não consegue sintetizar verbalmente de forma clara para o adulto. Assim emprega personagens muitas vezes dos contos de fadas, para expor no mundo externo essa dualidade de sentimentos que ela mesma não compreende perfeitamente.

Na contemporaneidade, bem como no passado, a tarefa mais ideal e também mais complexa para os pais – cuidadores – na criação de uma criança é ajudá-la a encontrar significados na vida. Muitas experiências de evolução são necessárias para que a criança chegue ao nível de maduração, na busca de seus significados no mundo: interno ou externo. Essa busca e experiência devem ser acompanhadas junto aos pais – cuidadores.

Bruno Bettelheim autor do livro "A Psicanálise dos Contos de Fadas", 2011, nos leva a refletir o imaginário dos contos de fadas no quotidiano, escreve que:

A criança, à medida que se desenvolve, deve aprender passo a passo a se entender melhor; com isso, torna-se mais capaz de entender os outros e, eventualmente, pode se relacionar com eles de forma mutuamente satisfatória e significativa. (pág. 10)

Segundo o autor, as experiências acompanhadas pelos seus educadores – pais e/ou cuidadores –, devem ser o primordial para sua adequação no mundo interno e posteriormente no externo. No processo de aprendizagem/experiência, a compreensão da criança na cisão a respeito do bem e do mal será de grande valia, visto que caso ela não compreenda essas duas potencialidades que são parte de si, poderá buscar de forma psicótica e/ou neurótica, em instituições que irão perturbar ainda mais seu aparelho psíquico.

A partir desta perspectiva, os contos de fadas são para criança histórias muitas vezes de teor dramático que, por sua vez, contribuem para que a criança, de alguma forma, possa imaginar-se como o personagem que esteja, no conto, vivenciando aspectos muito próximos à sua vivencia. Como podemos ver, quando a criança elege um personagem que a represente no conto – ocorre a identificação –, o que era imaginação passa para o processo de simbolização no real e, assim, cria-se um vínculo entre a criança – indivíduo real – e o personagem do conto imaginário. 

De acordo com Bruno Bettelheim, ainda em seu livro A psicanálise dos contos de fadas, discorre:

Para não ficar à mercê dos acasos da vida, devemos desenvolver nossos recursos íntimos, de modo a que nossas emoções, imaginação e intelecto se ajudem e se enriqueçam mutuamente. (pág. 10)

Bem sabemos que, diferente das crianças, os adultos de alguma maneira conseguem expressar seus sentimentos dolorosos – internos – a alguém ou canalizá-los em algo, através do afeto, ou agressividade, que para criança seria muito árduo, sem algum efeito saudável para seu psíquico, por não ter elementos suficientes para lidar com a frustração.  

Ou seja, para criança esse processo ocorre com certa dificuldade, por ainda estar adquirindo referências para a estruturação do seu eu ideal (Eu – Ego), ela então não consegue encontrar significados, para expressar através da linguagem verbal – fala; ou em atitudes que exijam clareza e, assim, evidenciar sua insatisfação com si mesma e com o Outro, externo.

A criança encontra esse tipo de significado nos contos de fadas. Como muitas outras percepções psicológicas modernas, esta foi antecipada pelos poetas. O poeta alemão Schiller escreveu:
Há um significado mais profundo nos contos de fadas que me contaram na infância do que na verdade que a vida ensina. (pág.12, Bettelheim)

Em “Ensaios sobre teoria das posições”, texto publicado neste blog em junho 02, 2012. Melanie Klein nos propõe pensar sobre:

Os processos primários e secundários da psique existem desde o início da vida do bebê, ou seja, desde o útero. Existe, também, sensata tendência à integração, dizemos que – Eros é o influenciador neste aspecto, e Thânatos é o mestre em influenciar a desintegração. O bebê em sua imaturidade não pode distinguir tal diferença entre ambos dentro do processo psíquico do humano.

A autora propõe um inconsciente primitivo do bebê, (aqui refletido sob a visão em torno da criança) representado por objetos parciais e descrevendo-o como a posição esquizo-paranóide, de tal maneira que, na satisfação às frustrações, o bebê integrar-se-ia a estas partes em um objeto total, vivenciado o que Klein nomeou de posição depressiva. A posição esquizo-paranóide tem início do nascimento até por volta dos seis meses de idade, o desenvolvimento do Eu é determinado pelos processos de introjeção e projeção.

Entendemos que, a primeira relação objetal do bebê ocorre com o que Klein chamou de seio bom e mau. Ou seja, o conto de fadas já começa a ser evidenciado na vida do sujeito logo nos primeiros contatos com o mundo interno e externo, este que ainda se faz extremamente ligado com o corpo da mãe, bebê-mãe são mesma pessoa. Mantendo esta linha de pensamento, é possível notar que os impulsos destrutivos e a angústia persecutória encontram-se no seu clímax, igualmente como os processos de divisão, onipotência, idealização, negação e controle dos objetos internos e externos.

O que proponho é de pensarmos sobre Mãe-Bebê, quanto ao conceito de Eros e Thânatos. A mãe é uma grande fonte de estudo, nas contribuições tanto de Eros quanto de Thânatos no processo de desenvolvimento do Bebê, em sua contribuição de integração – Eros –, e desintegração – Thânatos.  

Bem como sabemos, segundo Wilfred R. Bion (1897 – 1979): a mãe é o continente que oferecerá forma àquilo que é o bebê, que chamaremos de conteúdo. 


No desenvolvimento, é proposta uma constância, já que o bebê está todo desordenado, é a mãe que apresentará o norte à vida do bebê, ensinado a hora de mamar, brincar e dormir. Havendo ausência desse aconchego, e atenção da mãe na tenra infância, a criança, consequentemente, terá algumas dificuldades em lidar com esta falta na fase adulta.


Ao pensarmos sobre toda essa reflexão, é manifesto que os contos de fadas são tão necessários para criança em seu processo de descobrimento de si mesma e do mundo, por ir além da imaginação, podem assim, a partir do simbolismo do personagem, àquele no qual ela elege para representá-la, possa de alguma maneira ajudá-la a lidar com seus conflitos internos e externos. Lembrando que, o auxílio dos pais – cuidadores são de extrema importância no desenvolvimento dessa capacidade de simbolização e elaboração de experiências.

Em suma, deixo a última reflexão de Bettelheim:

Nossos sentimentos positivos nos dão força para desenvolver nossa racionalidade; só a esperança no futuro pode sustentar-nos nas adversidades com que inevitavelmente nos deparamos. (pág. 10)



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREUD, SIGMUND, 1856-1939. História de uma neurose infantil [“O homem dos lobos”]: além do principio do prazer e outros textos (1917-1920) / Sigmund Freud; tradutor e notas Paulo César de Souza – São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

BETTELHEIM, BRUNO, 1903-1990. A psicanálise dos contos de fadas / BRUNO BETTELHEIM; tradução de Arlene Caetano – São Paulo: Paz e Terra, 2007. 21ª edição revista.

A CURA DE FREUD, Ensaios sobre teoria das posições, 2012 Link: (http://acuradefreud.blogspot.com.br/2012/06/ensaios-sobre-teoria-das-posicoes.html­).


terça-feira, 29 de abril de 2014

Faz de conta: um projeto terapêutico


O ambiente terapêutico é um lugar misterioso, no qual é sabido que você pode sair feliz por ter “solucionado” um “mal-estar”, como pode sair “desgostoso” e com uma vontade de “socar a cara” daquele terapeuta de merda que você paga uma fortuna por sessões, para ele não dizer nada que te encoraje, mas que te cativou, a ponto de você deixar escapar a (merda) dor, que tanto segurava e que fedia dentro de você.

Realmente a palavra é um bicho que sai da boca, que tanto pode acariciar ou agredir, quando se volta contra o interlocutor. É como se você desse a sua próxima carta de bandeja para o terapeuta, sem se dar conta do que está fazendo. Neste momento, surge a ideia do faz de conta, que por algum tempo, pode funcionar ou não numa sessão individual, mas num grupo terapêutico dificilmente o faz de conta se sustenta por muito tempo, visto que há mais pacientes a confrontar o que está sendo pronunciado.

De acordo com algumas observações¹, é notável que o faz de conta, acaba se desfigurando e mostrando as raízes que machucam o interior do interlocutor. Explico. Na terapia em grupo, que tenho como certeza, que é de considerável saudável e rica de conteúdos a serem estudados e analisados, o paciente que fala, de forma disfarçada, como por exemplo, no faz de conta, o paciente apresenta um discurso, no qual se moldura como uma pessoa boa e que não faz mal a ninguém, que foi injustiçada pelos familiares, por acharem que ela é uma mulher da vida, por viver nas baladas.

Em primeiro momento, o relato nos remete ao afeto de compaixão, acreditando que essa família estaria sendo um tanto que radical com a paciente. No entanto, quem repudiaria e discriminaria uma pessoa a ponto de não querer mais vê-la por perto, simplesmente por ser tão boa, que quer só curtir a vida? Em vias de boa sanidade, ninguém o faria. A partir deste aparato de informações, onde entra a terapêutica em grupo. Pacientes que ouviram tal história atentamente,questionam a interlocutora:

Será que ela e só baladeira como diz? Será que ela não fez algo para essa família, para mesma ficar com receio e não querer mais vê-la?

Encantador, não é? Sim, é incrível como em uma sessão de terapia em grupo, as pacientes que se põem a par dos fatos, colocam-se a pensar sobre o tema, aquecem sua autonomia. Claro, isso é um processo, nem sempre é possível ter esse ganho. Mas, o que vale é a tentativa no dia a dia, que é propor um tema inicial, para que ramifiquem novos temas.

Pacientes se colocam na posição de co-terapeutas, como se dissessem: contra outra, que faz de conta que eu acredito. Questionada a interlocutora fica constrangida, e se sente na necessidade de se explicar, contar ainda que superficial algo a mais que complemente a linha de pensamento inicial. 

É neste momento em que, sem tomar todos os cuidados necessários para não ser descoberta, a paciente nos dá sinais e dicas da causa de sua dor, da ruptura do afeto familiar e de si mesmo. Ainda podemos acrescentar que, em vias de analise, não se pode descarta que quem sabe a dor de ser uma decepção para família e para si mesmo, cause na paciente a negação de suas experiências negativas.  A negação dos caminhos que a levaram a cometer tais atos, que a sociedade repugna, e que leva a paciente a limitar sua fala, para que não seja ainda mais criticada.

Tais atos de prostituir-se ou viver neste ambiente podem ser desde o desejo de viver essa experiência, o que podemos pensar ser um fetichismo, bem como a necessidade de se manter na zona de conforto, visto que é mais fácil caminhar pelo método mais simples, sem esforços, ao invés de caminhar por caminhos que exijam mais trabalho e doação de si.  Existem incontáveis argumentos e formas de se pensar. Entretanto, a paciente escolhera viver numa casa de “mulher da vida” até conseguir dar seus próprios passos, sozinha.

O que compreendi nesta sessão em grupo é que, na forma mais simples, não há o único culpado, de modo que ninguém caminha para o poço sozinho. Não estou no proposito de dizer que os familiares, aqui no caso, sejam os malfeitores, ou que por trás de toda história haja um, mas há contribuições para essas escolhas. Tudo depende de como a dor afeta o indivíduo. Uns são mais fortes, outros não tanto.

A terapia vem como forma de contribuir com o paciente que se perder da direção do seu ideal e sonhos, ou que procura uma direção. No entanto, a terapia só acontece com a fala do paciente e a escuta minuciosa do terapeuta.

“Quem chora, nem sempre quer mamar”.

¹ - Observações: o caso aqui narrado não é verídico, ou seja, é de teor fictício. Mas, delicie com a possibilidade de imaginar, que o caso poderia ser verdadeiro.  Já que estamos vivendo, então tudo pode acontecer.

sábado, 22 de março de 2014

A sombra também é nossa

Afogado na imaginação, perdido em devaneios de pensamentos já afastados da realidade. O passado se faz tão presente quanto o presente nas linhas da consciência, que a dor que se fomenta na divisão entre o passado e futuro, impulsiona o inconsciente a realizar seus processos mais instintivos e primitivos.

Dessa luta nasce o desejo de se deixar ser levado e guiado somente pelo princípio do prazer, já que é o único meio aparente que salienta a paz interior. É plausível o esforço que fazemos para manter o contato com o outro, mexemos a todo tempo em nós, ajustando nossas crenças, estereótipos e persona, para satisfazer o outro, a sociedade.  Não. A realidade é que, às vezes, para produzir o prazer é necessário que haja o outro, pois ele será o sinal de que tudo está bem ou que irá ficar, por fim, o outro é apenas a segurança que não estamos sós.
A necessidade de ser e estar, não seriam possíveis se não houvesse o outro, a plateia, mesmo que esta seja imaginária, é unicamente necessária para que haja brilho na fantasia.

Visto por neste ângulo, bem é sabido que o ser humano é de todo egoísta, mas também é amor. Às vezes, não estamos felizes em fazer ou estar em alguma situação desconfortante que, de certa forma, nos trazem certos benefícios. 

Não é tão fácil se desligar daquilo que nos mantém na realidade, nos mantém afastados da solidão que nos obriga a pensar. A mudança precisa de "doses" de solidão e egoísmo.  O ser humano precisa estar em equilíbrio, é necessário saber os limites para seus sentimentos.

O egoísmo está presente na vida do humano desde do primórdio de sua existência, bem como todos os demais sentimentos bons: amor, compaixão etc. No entanto, temos uma ideia do que seja amar, cuidar, proteger. Mas será que sabemos lidar com o nosso pior? Qual a nossa responsabilidade com o efeito da sombra do outro em nós?

Sigamos à pro-cura de um saber que dê conta da angústia que é [re]pensar-se a si mesmo.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Ninguém quis se responsabilizar


Ninguém soube como começou,
Ninguém soube como terminou,
Ninguém viu para qual lado foram,
Ninguém quis dizer nenhuma palavra,
Ninguém quis ouvir um ao outro,
Ninguém se quer olhou para trás.

Ninguém quis pensar sobre o problema,
Ninguém quis sentir a dor de estar suspenso,
Ninguém quis ser o algodão de si mesmo e/ou do outro.

Ninguém quis derramar uma lágrima,
Ninguém quis se despedir.
Ninguém limpou as feridas,
Então, ambos ficaram com suas feridas abertas,
Caminhando em busca de cuidados, afeto.

Em busca de um algodão que possa enxugar as suas lágrimas,
que possa confortar o seu coração.


sábado, 8 de março de 2014

O inconsciente e as palavras



Quando o sujeito escreve, sente um prazer que traz pulsão ao desejo. Desabrocha em lágrimas de pura e doce necessidade de acalentar a sombra que grita por respostas. Não raro são as noites em claro, na busca de letras e palavras que, de alguma forma, expressem o que é impossível de ser dito. É o som dessas palavras, que não saem, e que fazem ecoar na garganta [entaladas] a sua melodia oculta.

As palavras gritam por um significante, num tom qualquer de discurso que as libertem. Há palavras que não dão conta de emitir sons e se faz [por quê não dizer corporifica-se?] pela escrita, por carregar peso que atravessa a linguagem com significados, sentimentos, que ao dizê-las, emitem um som descontrolado e avassalador, e que ao ouvi-las pode custar à paz ao sujeito.

Às vezes é preciso reorganizar todas essas palavras em nós, na tentativa de preservá-las dos abutres insensatos que nos habitam, na espera de uma oportunidade de atacar. São palavras preciosas, que se afogam no mundo caótico, na busca de encontrar o sujeito que possa ouvir e sentir.

quinta-feira, 6 de março de 2014

A ideia de terapia


A terapia não evolui sem o paciente, bem como o paciente não evolui sem o terapeuta. É uma troca, ambos crescem... ambos precisam existir.


Em muitos dos casos, procuramos motivos, às vezes, os mais simples para não fazer terapia. O mais celebre dos motivos, ocupando o topo é o medo de se desmoronar numa cadeira, numa sala, numa pessoa na qual jamais se quer se viu.

É assustador dizer a si mesmo quem somos, ou quem nos tornamos.  Lidar com nossas qualidades é muito fácil, mas quando às qualidades não amenizam a dor que os defeitos nos trazem, o que fazer? Como agir?

O medo é muito frequente em terapia, ele é por muitas vezes o motivador da fala. Quando sentimentos medo, o sentimento acaba falando por nós. Quando sentir torna-se exaustivo, a fala torna-se a saída mais sensata. Falar, falar e falar. No desespero de ser ouvido, acolhido. Nada mais importa além do prazer de ser ouvido. Um estágio do sentimento egoísta que, de certa forma, ajuda na cura pela fala. Associação livre.

É nos trejeitos, nos arranjos da fala e nos demais aspectos que o paciente cria e manipula em terapia. Em forma de arte, quase que lúdica, o terapeuta busca analisar e juntar todas as peças, que o paciente jogou no ambiente terapêutico, numa tentativa de compreender quais sentimentos verdadeiros, ocultos e necessitados de atenção, escondem-se na fala, as dores mais emergentes, porém engavetadas no inconsciente.

Não é raro o borbotar das angústias em quatro paredes, sentado em uma cadeira ou amolecido em um divã.  É o momento em que o paciente desenvolve insight sobre suas atitudes, sobre como poderia agir, para que suas ações possam fluir melhor e favoráveis a si mesmo.

Quando o paciente “sente” no ambiente terapêutico a tranquilidade para explorar-se, abrir o baú de si mesmo, e de pouco em pouco retirar objetos, sentimentos e tudo o mais que o impede de olhar a si mesmo, será o momento primordial para identificações, projeções, transferência e a atitude não adequado, no entanto inevitável, a contratransferência.

A terapia é o lugar que o paciente deve se sentir ousado, corajoso, para enxergar que ele pode reconhecer sua sombra sem medo. O terapeuta será o instrumento, a figura de segurança, o ambiente para que o paciente possa ser, sentir, odiar-se e amar-se com sinceridade e sem culpa. Quando todo esse borbulho de sentimentos ocorrerem num set-terapêutico, certamente haverá uma autonomia do paciente nas próximas sessões, nos próximos ensaios de enfrentamento de si mesmo.