terça-feira, 10 de abril de 2018

A PALAVRA SALVA NA MESMA INTENSIDADE QUE MATA


A diferença existe para implicar, para transformar o comum. É preciso que cada sujeito seja capaz de lidar com a frustração do desconhecido e se responsabilizar por seu medo e ira diante do que lhe causa, promovendo um elo com o diferente, para assim construir um mundo melhor, de uma equidade que expande e desenhe uma terra com mais amor e compaixão.
Não gostar de algo no outro pode ser até humano, mas ultrapassar o limite e desrespeitá-lo é uma incapacidade que precisa ser pensada. Se está sentindo incomodo por algo que existe no outro que não lhe agrada, vá em busca de um analista, questione-se e busque fazer-saber, para poder saber-fazer diante do que lhe causa e incomoda.

Lembre-se, se o seu mundo pode estar desmoronando, o do outro pode também estar na mesma ou em pior situação. Seja no mínimo amável. Cada um de nós leva no coração uma dor, um sintoma.
Então, não pise no vazio do outro, por mais que este lhe tenha feito algo ruim. Se não pode transformar o outro, afaste-se para não acabar agindo com selvageria. Um palavra salva na mesma intensidade que também mata!

Ouvi uma criança, com medo do escuro, dizer em voz alta: "Mas fala comigo, titia. Estou com medo!". "Por quê? De que adianta isso? Tu nem estás me vendo." A isto a criança responde: "Se alguém fala, fica mais claro". (Freud, 1976p [1916], p.474)

Há um ruído em nossa garganta, na língua, posto que dessa linguagem que tomamos as palavras para tecermos algo que emperra e impossibilita caminhar, em forma de discurso. É na análise que o sujeito pode transformar o seu impulso destrutivo em uma produção significativa na relação consigo e com o outro.

quinta-feira, 22 de março de 2018

LIBERDADE É FALAR TUDO QUE SE PENSA?

Between Rivers - Mojowang

O movimento de vomitar toda insatisfação ao outro é uma pulsão [impulso] corporal que é ressentido na história psíquica. Essa “descarga” da pulsão procura satisfação devido à impotência do sujeito em sua busca de um objeto adequado, para tentar manter um estado de menor tensão com o objeto inadequado.

A força que trabalha às voltas do princípio de vida se transforma em combustão da estase e da destruição do objeto inadequado. A insatisfação com o esse objeto último, impele na espiral da repetição. Todo esse excesso que comporta a manutenção da imobilidade destruidora é próprio de uma falta de elaboração à situação que se apresenta. 

Na análise o sujeito poderá encontrar um lugar para endereçar a falação ilimitada do seu discurso, para a partir desse ponto fazer-saber sobre seu sintoma e trabalhar na elaboração do saber-fazer a respeito do saber instaurado dentro da função de vínculo estabelecida com o objeto inadequado. 

É através da transferência que se faz possível transformar a tendência à destruição do objeto externo em energia de maturação e movimento de produção consequente em saber sustentar laços. A análise proporciona ao sujeito a escuta de sua própria história, e aprende sobre o ensejo de pensar, de recalcular a rota e de redimensionar a problemática do seu sintoma, transformando-o em sua causa. 

O saber em análise implica o emissor e receptor a colocar algo de si nessa transmissão psicanalítica. Se o corpo do sujeito em análise não convocar algo subjetivo dentro do ambiente psicanalítico, pode-se transmitir qualquer coisa menos psicanálise. 

Falar tudo que se pensa ao outro sem filtragem é se colocar na qualidade de selvageria de um animal irracional, sem responsabilização pelo que se pensa e fala. Na vida é preciso aprender saber-fazer dentro da função de vínculo com o outro. As diferenças precisam promover uma transformação e uma produção em saber sustentar laços. 

Somente com o outro que aprendemos a fazer melhor com nossa existência no mundo, para fazer-saber o próprio limite e assim aprender a construir saberes para continuar transformando o percurso do próprio desejo. 

domingo, 18 de março de 2018

DOS FRACASSOS NO LAÇO COM O OUTRO NASCE A ALTERIDADE DO DESEJO


In transition. LOVEJOY, Emily 


A forma como lidamos com o fracasso pode nos levar ou não a novos lugares. Há um saber no fracasso que só o sentindo é possível fazer-saber para sabermos fazer com esse saber que poderá se instaurar. O inconsciente está às voltas do que não funciona em nós, e o fracasso é seu lugar próprio para dar pistas [através do não dito] sobre aquilo que enrosca, emperra e paralisa em nosso percurso.


O sujeito neurótico fica incapaz de sentir o ardor do fazer-saber sobre seu fracasso, por estar alienado à demanda do outro. Ao partir desse lugar, o neurótico não consegue filtrar as demandas e dizer não a algumas delas ao outro. 

O fracasso é visto com maus olhos e expurgado às pressas do sentir do sujeito. O impasse se instaura, uma porque o fracasso trata-se de um saber que constitui o sujeito; uma das línguas do inconsciente e do desejo, e outra porque é através dos fracassos no laço com o outro nasce a alteridade do desejo. 

Esse saber inconsciente, alteridade do grande outro que nos habita, que aos trancos e barrancos da análise tentamos escrever nossa biografia, que tentamos fazer as pazes para o transformar de inimiga a aliado. São essas tentativas desesperadas e repetidas que o sujeito aprende mais sobre os seus sintomas.

O fracasso não é o ponto final na biografia que o sujeito escreve, mas a vírgula que insiste e persiste em convocar algo da ordem do que o constitui. Por isso a importância de fazer-saber sobre o inconsciente, para saber-fazer com que vem depois, a castração: a falta. 

Refletir sobre o que nos faz fracassar é andar em corda-bamba, é abrir mão do saber estabelecido para atualizar todos os valores e ideias que até a minutos atrás sustentavam todo nosso corpo falante.  

É preciso e urgente que aprendamos mais sobre nossa alteridade, ela nos convoca a questionar a demanda do outro, a criar saberes para fazer-saber algo que se tenta dar sentido, e que implicado a esse movimento de busca todo esse sentido perde sentido e abre portas para algo muito que se aproxima de nós mesmos e do laço com o outro. 

O sujeito que aprender a fazer-saber sobre seu fracasso e atravessado por ele, aprende saber-fazer com isso, consequentemente se torna bem-sucedido.

terça-feira, 13 de março de 2018

O TRABALHO DO PERCURSO EM ANÁLISE


 

Em análise, o desejo está em frenética conexão com o que não funciona, paralisa e insiste em comparecer no real pelo avesso. Em sua espiral sonoro da experiência, a psicanálise revela tudo que a sociedade incuba na exposição do humano que valoriza como ideal: puro, divino e perfeito.

O caminho da psicanálise implica o sujeito a responsabilização por seu estilo no mundo, atravessado pelo não-todo-saber que se inaugura no sintoma. Não à toa que a psicanálise não é para todos, por implicar o sujeito a arriscar tudo em sua subjetividade, alterando rotas e pensando com ética as prioridades da sua vida.

Para construir o percurso na análise é necessário abrir mão do lugar de ser desejado, da bengala da demanda do outro. Recusar a posição narcísica para assumir o seu inverso, que convoca o eu ao comprometimento, ousadia e coragem à responsabilização por sua existência no mundo. Esse movimento leva o sujeito a produzir conteúdo em análise, para criar um saber sobre o que estrutura o seu sintoma.

Além disso, todo esse avesso que se apresenta instaura um novo sujeito com autonomia ao que lhe causa, inspira e fracassa. O trabalho em análise conduz à incompletude do horizonte, na ousadia e coragem em apostar todas as fichas em si mesmo, sem recursar em pagar o preço necessário para sustentar suas escolhas e decisões em constante maturação frente às novas possibilidades em que o seu desejo aponta.

Aprender a transformar as oscilações do sintoma que emperra o analisante a caminhar em seu percurso, exige questionamentos sobre o lado obscuro que também interferem nas escolhas e decisões do analisante. A vida em análise é estar diante da vírgula que o impossível implica, que não cessa de se escrever. 

O discurso emitido pelo sintoma do sujeito, evoca algo da ordem do mistério que o implica a ultrapassar os semblantes que moldam o lugar que insiste a convocá-lo ao gozo da repetição. Mas não é só isso, há muito mais a que se aprender com o que a psicanálise se propõe em sua transmissão no quotidiano, que se enlaça e entrelaça nos vínculos do sujeito do inconsciente.

sábado, 10 de março de 2018

NADA É MAIS COMO ANTES


O psicanalista trabalha com o que é mais íntimo do ser humano: a fala. Quando o sujeito fala livremente sobre o que lhe causa, emite um eco barulhento na análise. Ao estruturar na linguagem verbal suas angústias, o analisante, abandona o lugar firme e cômodo da dor em que gozava. Por isso, que repetidamente se convoca a falação sobre o analista levar até às últimas consequências a sua própria análise, para poder ser ético em sua escuta analítica. 

A psicanálise se reinventa quando cada sujeito implicado por seu discurso transmite algo da ordem do estranho que o habita. Após ouvir a própria voz, o analisante inicia uma nova etapa de sua análise: a responsabilização pelo lugar no qual escolheu para desejar e gozar a vida.

O processo de uma análise vive de mãos dadas com a resistência, por denunciar a dificuldade em dizer adeus ao que deixou de ser, para tornar-se algo novo e ainda sem nome. Acessar a intimidade do grande outro que constitui em si mesmo é algo constrangedor ao sujeito que foge do que o implica ao movimento do caminhar atravessado da horizontalidade sem bordas e de inúmeras possibilidades de escolhas. 

Amar, odiar, desejar e tantos outros sentimentos não é mais como antes. Hoje, existem uma tonelada de opções para que o sujeito possa escolher. A problemática é que não se pode ter tudo, é preciso escolher somente um objeto, e essa escolha produz  certa angústia por não saber se o escolhido dará conta da demanda que será depositado nele. 

A partir desse pressuposto, a capacidade de viver coincide com a coragem de olhar para o frustrante da dor: o sofrer. O processo de amadurecimento colide com os valores abandonados, conduzindo o sujeito ao desconhecido vazio que o constitui como ser desejante. 

Os efeitos das transformações em análise, implicam o analisante a pensar suas experiências, o que produz certa amplitude de angústia, medo e constrangimento com o novo. Deixar o lugar [prazeroso] em que se gozava de forma ilimitada, mesmo que muitas vezes ruim, é assustador para o sujeito por temer a perda e não ser capaz de suportar a imensidão das incertezas do novo lugar que pretende se posicionar. 

Por perceber que algo [que nunca teve] pode ser perdido, inaugura a experiência de existir, e esse movimento não existe sem que se possa sentir o peso da imensidade do medo. A busca do sujeito pela análise está às voltas da tentativa de estabelecer o equilíbrio por não dar conta de pensar o desequilíbrio que se constitui naquele momento de caos. 

Já em seu avesso, a desistência da análise não está relacionada ao dinheiro investido nas sessões, mas na incapacidade de não suportar o barulho do seu discurso, que o convoca a se responsabilizar por si mesmo.