terça-feira, 18 de setembro de 2018

O AMOR É DE UM TEMPO NÃO LÓGICO

 

Idealizar o outro que endereçamos nosso amor romantizado, admirando, querendo [mesmo que impossível] tatuá-lo em nossa pela é inevitável. A ordem do mistério que tange o amor faz com que o sujeito se contorça em decepções e fúria.

É uma oportunidade compreender que nada se aprende sobre o amor, é descobrir que é mais sobre conhecer os efeitos da experiência e, por mais que amemos o outro, não poderá ele nos salvar de nós mesmos, por causa disso.

Tampouco seremos nós a salvação das mazelas que emperram a vida daquele que endereça o seu amor à nós. Compreender isso tudo, envolve muito trabalho, seja dentro ou fora da análise. Fazer-saber mais sobre isso não vem por gravidade, mas de um suor que nos atravessa o campo lógico.

É uma ilusão confortadora e apaziguadora imaginar que todo perrengue que enfrentamos durante nosso percurso de vida será compensado por o surgimento de um príncipe encantado ou princesa que possa iluminar o umbral que vivemos após as experiências catastróficas com os ex-amores.

Em contraponto, seria muito mais justo se pudéssemos reconhecer que é muito mais proveitoso estar aberto a novas experiências, sabendo do risco de cometermos os mesmos erros, de uma maneira diferente, singular.

Não se trata de ganhar ou perder, mas de apostar tudo em algo que não se sabe em que vai dar e sentir o doçura e azedume que é gozar melhor na vida.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

SOBRE O AMOR



AMAR é se mover na pele do outro na tentativa de criar laços, para dilatá-lo na palavra-corpo: nós. Mas é sucinto desenhar nessa experiência, o zelo de reconhecer que se faz próprio deixar que o outro possa existir para que o amor faça sua existência nesse corpo que se reinventa no atrito do elo. É desse deixar que o amor nasce, mas traz em si a frustração de nunca poder fazer do outro uma morada, corpo único.

O amor é um cavalo indomável que precisa viver na pluralidade, para que possa existir na singularidade do corpo. Saber sobre amor não garante que se saiba amar, dizer o que possa vir a ser amor é a tentativa de tornar o mundo menos caótico, porque até falar de amor sintetiza o outro em nós, fazendo circular que o desejo de poder fazer do outro uma casa, embora seja um lar acolhedor, nunca se realize [o desejo realizado dissolve o amor no limbo do infinito, sufocando-o em si mesmo].

A análise promove justamente fazer-saber sobre nossa insignificância, ignorância e impossibilidade de ser humano que tudo pode. O sujeito pode muitas coisas, mas não tudo. Uma delas é nunca saber quem amar, como amar e quando amar.

Trata-se de resignificar o horror do outro oferecendo um espaço acolhedor dentro de nós, possibilitando significado outro ao que nossos olhos repudiam no objeto que endereçamos o nosso amor e ódio. A dinâmica do amor não é justa, ela desconstrói e nos deixa vulneráveis, convocando a observar por fora o quanto somos inquilinos de nós mesmos e do mundo do outro.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

A PERDA DO OBJETO ELEITO: O AMADO


A perda do objeto de amor eleito pelo sujeito instaura uma ruptura que levará consigo por todo seu percurso. O vazio leva o sujeito à deriva, e por sua vez o ego rejeita a frustração de não mais sentir as bordas que o protegem da insegurança de se estar à mercê das investidas da vida sobre sua existência, colando-se nas lembranças da imagem do que partiu.

As forças inconscientes implicam o sujeito à repetição, é por isso que o sujeito para amenizar o desconforto que a perda do objeto de amor instaura procura em novos laços o estilo do velho amor: fragrância, traços, palavras, características e, sem dúvida, o que mais acreditava odiar no objeto de amor, que não mais poderão ser sentidas como antes, mesmo que volte a estar junto com o mesmo objeto.

A devastação da perda deixa o rastro do desamparo e amor sequestrado pelo outro: o amado. O ego cheio de insatisfação advinda da frustração da perda investe na ilusão de redesenhar no tempo-fotografia capturado a vida vivida com o objeto perdido numa espiral de repetições até fazer-saber sobre sua capacidade de reconhecer a responsabilidade diante do fim.

A dinâmica do amor é espantosa, se antes pensava-se no objeto de amor com certa frequência, com a perde o amor acentua mais ainda sua posição-memória sobre o sujeito amante. A vida poderá existir milhares que ofereçam o seu amor para esse sujeito amante, mas ainda estará à mercê dos resquícios-efeitos das lavas vulcânicas do amor pelo objeto amado.

Os lapsos de memória recaem sobre o sujeito com o peso da tonelada de uma pena, alucinando sentir o perfume, a voz, ou a imagem do amado entre a multidão. O ego se entristece e navega num oceano depressivo de reflexões à cerca das recordações da história interrompida, da graça não mais retribuída, das gargalhadas e sorrisos não mais visíveis aos seus olhos.

As implicações desses amores interrompidos são sentidos na composição do corpo-memória da personalidade do sujeito amante, que o marcam como uma cola impossível de desgrudar da alma, convulsionando lembranças de um sentir impalpável, mas que ocupa boa parte do sua existência psíquica.

Na ilusão de saber sobre o amor, o sujeito ignora o seu avesso, que sempre instaura um sofrimento doloroso. Quando se ama não se sabe quanto tempo se tem para amar e ser amado. O amor é indomável, talvez por isso cause tanto horror e espanto no ser humano que deseja categorizar o amor através de um nome, uma posição, um caminho e/ou um método para amar de forma correta.

O tempo não para mesmo que a perda emperre o ego de continuar o seu frenético percurso. O relógio continua a desenhar a passagem do tempo convocando o sujeito a pensar, elaborar e reconhecer que é tempo de reorganização. É trabalhoso o processo de inventar um novo ambiente no espaço vazio deixado pelo amado-eleito, exige responsabilidade em ser criativo na dinâmica de dividir o tempo para cada novo projeto de vida sem o amado.

A elaboração da perda oferece o sentimento de gratidão [mesmo que dolorosa] pela história vida, transformando a culpa em reconhecimento, a dor se decompõe para nascer o sentimento de saudade que implica o sujeito a fazer-melhor-com-seu-sofrimento.

É necessário que o sujeito possa sentir o processo doloroso que a perda amorosa ou qualquer outra origem ocupe em sua vida, para que na idade do envelhecimento do corpo a psique não atormente-o com memórias que foram engolidas a seco em nome de um equilíbrio-social-emocional.

sábado, 14 de julho de 2018

DUVIDAR DO ÓBVIO




Tornar-se analista está muito mais ligado a ordem da própria experiência no lugar de analisante. Lugar esse tão importante para o sujeito desejante por sustentar esse lugar independente da adversidade que pode e irá ocorrer.

A experiência da análise e da dupla analítica pode possibilitar ao sujeito analisante ser tocado pelo horror e beleza que constitui o ser humano, e a partir desse tocar se interessar em assumir um lugar outro tão mais angustiante do que estar no lugar de analisante.

Ser analista não é uma posição que pode ser alcançada por qualquer um, ela demanda uma autorização do próprio sujeito diante da sua própria análise e cuidado de si mesmo. Por isso que o analista precisa duvidar do óbvio que está no discurso do analisante, e essa escuta apurada e cuidadosa só pode ser alcançada pela experiência analítica na posição de analisante.

Portanto para aprender o sentido do não sentido da psicanálise, faz-se necessário ingressar no angustiante processo da experiência analítica.

É POSSÍVEL AGREGAR MAIS DE UMA ABORDAGEM NA CLÍNICA?


O sujeito só pode seguir um caminho, por demandar dele certo tempo e investimento para sustentar tal percurso desejado. Não é qualquer um que se submete ao processo de análise, por isso é importante que aquele que deseja ocupar o lugar de analista possa estar avisado e orientado de sua função frente ao sujeito que o procura.

A experiência da análise oferece ao olhar do analisante a possibilidade de um horizonte de opções, podendo ele determinar qual caminho não faz sentido a ele, abraçar todos os caminhos só emperrará mais ainda a sua vida. Partindo dessa lógica, o sentido é que fica inviável submeter a dupla analítica a mais de um método, visto que uma hora ou outra o impasse das abordagem irá colidir uma a outra inviabilizando o ato analítico.

O sujeito precisa de acolhimento, de um analista que leve as últimas consequências a sua análise pessoal e seus estudos teóricos, para que não precise utilizar de maneira equivocada vários métodos para dar conta da demanda do outro.

Em suma, utilizar-se de várias abordagem é de certa forma sustentar e se moldar a todo custo a demanda do outro, o que bem sabemos ser impossível.