3.10.18

DIAS CURTOS, VIDA LONGA

Os ponteiros do relógio deslizam numa fração de milésimos e, quando nos damos conta, já estamos ultrapassados por des-culpas. Não há como reconstruir sobre escombros. Mesmo que seja doloroso se faz necessário e, sem dúvida, ético que o sujeito se posicione no âmbito de sua dor. Respirar fundo, não significa engolir sapos, mas aprender a economia da energia psíquica, sem desperdícios, para que se faça possível no real sustentar o percurso que se busca.

O tempo não leva desaforo, talvez deva a questão que não há tempo a perder com o que não veste. A necessidade de reconhecer o próprio corpo, o lugar e o peso que ele ocupa no espaço tempo que permanecemos, promove um rompimento com a repetição obsessiva do antigo-tão-novo que sempre irá insistir na reivindicação do seu lugar em nós.

Talvez seja essa a razão qual perdemos o lugar tão almejado, fracassando no êxito. O sucesso depende da aposta num futuro incerto e sem modelo definido. Em hipótese, arrisco a colocar a experiência da análise em pauta. O sujeito quer alcançar uma vida menos caótica, mas quando percebe que será necessário se ralar todo, hesita e acaba pagando um preço muito mais alto por ter recuado de si mesmo.

Dentro de cada um de nós, sujeito humano, há partículas minúsculas que carecem de um pensador para pensá-las melhor. Quando abandonadas à mercê sob a ordem da irresponsabilidade de si mesmo, a vida vai se oxidam com o tempo, endurecendo o corpo falante e faltante, envelhecendo o vocabulário que possibilitaria ultrapassar o lugar medíocre de vitimização.

O sujeito não apenas leva em si mesmo somente o que consegue carregar, em última instância, excedendo sua capacidade. Mas também carrega as próprias perdas embebidas de memórias de angústia, dor, inspirações e sonhos não-realizados. O ser humano transpira uma história que ultrapassa o sentido, o tempo e a sua própria existência no mundo, que são às vezes condensadas em criação e, outras, num limpo de um quadro branco que emperra, engessando o movimento de desejo de vida.

A proposta da psicanálise é deslocar, desconstruindo o lugar assumido pelo sujeito de ser robusto ao olhar do outro, para se elevar a um alto nível cultural que não faz sentido para a transformação de si mesmo. Na análise os desejos recalcados trazem à consciência, ao discurso a esperança de se realizarem através do a-colher da escuta do analista.

Os dias podem ser curtos, mas para o sujeito que aposta no osso de fazer-saber de si mesmo na experiência da montanha-russa-da-análise, certamente reconhecerá a vida longa e bem vivida que experimentar nos intervalos que o inconsciente em análise pode possibilitar.

Abraço,

Maicon Vijarva 

26.9.18

MAIS, AINDA AMOR


A vida é uma montanha de escombros. A arte de viver é justamente reconhecer o pior que existe em cada sujeito, para que seja possível desenvolver a capacidade de suportar ultrapassar a leveza do que tange a [des]ordem do amor.

O antagônico do amor é o ódio que se nega pelo outro, sendo ambos constituído por uma dupla face de um mesmo corpo que sustenta a atemporalidade ilógica da gravidade da vida, a força fraca e a força forte que endereça o sujeito em direção à experiência com o mundo externo, atravessado pela falta do outro.

A dança das cadeiras no que implica o relacionamento, é uma maneira pueril de negar a possibilidade de cair de joelhos pela incapacidade de suportar o que o amor oferece, a impossibilidade de caber na falta [demanda] do outro.

Amar não é simples, mas é uma belezura insuportável de sentir. O amor não causa desgaste, dor ou sofrimento. O que convoca o amor a sair de cena é o narcisismo desmedido, mas sem certa dose de narcisismo é impossível que o amor se sustente e atravesse a dupla amorosa. O amor nasce na capacidade de sustentar a frágil linha da singularidade.

Em última pontuação, completo a reflexão com uma implicação da psicanalista Ana Suy, “Amor é aquela coisa que, por vezes, quando sobra, é porque está faltando”.

Abraço,
Maicon Vijarva

21.9.18

O SABER INCOMPLETO EM NOSSO TEMPO


O futuro depende de como cada sujeito reconhece e interpreta o horror e beleza do seu sintoma no presente, uma vez que, tanto o mundo quanto ao saber que se constrói consigo mesmo e com o outro se faz-saber disforme e incompleto.


A globalização de nosso tempo instaura um relevo de questionamento sobre algo que já insinuava um ruído daquilo que o humano significava como conhecimento. A psicanálise desde Freud inaugurava uma litura sobre o que o sujeito discursa como saber e faz questão sobre o conhecimento, promovendo a pulga da dúvida sobre o saber completo.

Se o mundo novo é horizontal, com aludes de saberes incompletos, logo o mundo e o saber são incompletos em sua totalidade. Qualquer que seja a conclusão que produzimos das coisas, do outro e de nós mesmos são precipitadas.

Toda essa ideia faz auê na construção de um saber, quando a praga da reflexão atravessa e desata os pilares ruindo o que sustenta a ilusão social. O sujeito que espera um saber completo de tudo que compõe um silogismo, para então apostar em seu percurso, está predestinado a ser engolido pela areia movediça da indecisão.

Se é impossível prever o futuro, saber-fazer [em análise] sobre o que nos causa, possibilita que sejamos melhores na capacidade em reconhecer o percurso do presente que nos levará a sermos criativos na aposto do futuro.

Abraço,
Maicon Vijarva

18.9.18

O AMOR É DE UM TEMPO NÃO LÓGICO

 

Idealizar o outro que endereçamos nosso amor romantizado, admirando, querendo [mesmo que impossível] tatuá-lo em nossa pela é inevitável. A ordem do mistério que tange o amor faz com que o sujeito se contorça em decepções e fúria.

É uma oportunidade compreender que nada se aprende sobre o amor, é descobrir que é mais sobre conhecer os efeitos da experiência e, por mais que amemos o outro, não poderá ele nos salvar de nós mesmos, por causa disso.

Tampouco seremos nós a salvação das mazelas que emperram a vida daquele que endereça o seu amor à nós. Compreender isso tudo, envolve muito trabalho, seja dentro ou fora da análise. Fazer-saber mais sobre isso não vem por gravidade, mas de um suor que nos atravessa o campo lógico.

É uma ilusão confortadora e apaziguadora imaginar que todo perrengue que enfrentamos durante nosso percurso de vida será compensado por o surgimento de um príncipe encantado ou princesa que possa iluminar o umbral que vivemos após as experiências catastróficas com os ex-amores.

Em contraponto, seria muito mais justo se pudéssemos reconhecer que é muito mais proveitoso estar aberto a novas experiências, sabendo do risco de cometermos os mesmos erros, de uma maneira diferente, singular.

Não se trata de ganhar ou perder, mas de apostar tudo em algo que não se sabe em que vai dar e sentir o doçura e azedume que é gozar melhor na vida.

Abraço,
Maicon Vijarva

28.8.18

SOBRE O AMOR



AMAR é se mover na pele do outro na tentativa de criar laços, para dilatá-lo na palavra-corpo: nós. Mas é sucinto desenhar nessa experiência, o zelo de reconhecer que se faz próprio deixar que o outro possa existir para que o amor faça sua existência nesse corpo que se reinventa no atrito do elo. É desse deixar que o amor nasce, mas traz em si a frustração de nunca poder fazer do outro uma morada, corpo único.

O amor é um cavalo indomável que precisa viver na pluralidade, para que possa existir na singularidade do corpo. Saber sobre amor não garante que se saiba amar, dizer o que possa vir a ser amor é a tentativa de tornar o mundo menos caótico, porque até falar de amor sintetiza o outro em nós, fazendo circular que o desejo de poder fazer do outro uma casa, embora seja um lar acolhedor, nunca se realize [o desejo realizado dissolve o amor no limbo do infinito, sufocando-o em si mesmo].

A análise promove justamente fazer-saber sobre nossa insignificância, ignorância e impossibilidade de ser humano que tudo pode. O sujeito pode muitas coisas, mas não tudo. Uma delas é nunca saber quem amar, como amar e quando amar.

Trata-se de resignificar o horror do outro oferecendo um espaço acolhedor dentro de nós, possibilitando significado outro ao que nossos olhos repudiam no objeto que endereçamos o nosso amor e ódio. A dinâmica do amor não é justa, ela desconstrói e nos deixa vulneráveis, convocando a observar por fora o quanto somos inquilinos de nós mesmos e do mundo do outro.

Abraço,
Maicon Vijarva