quinta-feira, 16 de novembro de 2017

DA CULPA A RESPONSABILIDADE: UM MANEJO DE re-INVENÇÃO


A psicanálise é o avesso do politicamente correto e trabalha no inverso do discurso cientifico preguiçoso da psiquiatria contemporânea, que não se esforça em captar a singularidade no discurso do sujeito no século XXI, “limitando-se a classificar as doenças com base em uma classificação sumária de sofrimentos” (Forbes, 2012).

A clareza sobre este aspecto se torna nítida, quando os supostos “mestres” que [acreditam estar sendo] conduzidos pela "ética", deveriam oferecer um ambiente propicio à expansão do pensar a cerca do sujeito e seus sintomas. No entanto, trazem uma prática que reduz o ser humano ao manual das classificações de seus sofrimentos, que impregna na personalidade do doente dos nervos, como rótulos, que serão difíceis de serem reparados no trabalho de análise [se conseguir pisar num setting analítico] os danos causados na vida psíquica e física do sujeito.

O percurso que a psicanálise oferece, convoca o sujeito do inconsciente a transformar sua culpa, convidando-o a se responsabilizar por sua existência. Não é algo simples, se responsabilizar é algo doloroso, que demanda muito mais que abandonar a irresponsabilizabilidade. O campo da psicanálise não se satisfaz mais com o enredo vertical do Complexo de Édipo, essa estrutura ainda é muito importante, mas o sujeito no século XXI vive um outro momento, que é o de ultrapassar os pais. Trata-se de re-escrever as repetições do passado com um ar que beira a imobilidade.

A contemporaneidade deseja a elaboração de uma saber sob a subjetividade de sua época. Entre infinitas opções, saber identificar o que realmente oferece ao seu percurso, a possibilidade de ir ao encontro do pensamento que o antecede, e a partir desse encontro re-escrever algo novo com a estrutura do passado.

Para que isso se desenhe no real, é preciso escapar e ultrapassar o lugar que esse semblante organiza sob a forma de um discurso impositivo dos manuais de sofrimento. Recorrendo aos escritos de Clarice Lispector, em seu livro "A hora das estrelas", é possível interpretar em seus escritos que não há palavra que possa nomear o que desestrutura o sujeito e, tampouco, há um manual dos sofrimentos será capaz entender o que se passa dentro do ser humano.

Jean-Claude Maleval em seu livro "O autista e sua voz (2017)", leitura importantíssima ao meu ver,  por desconstruir qualquer saber sobre o sujeito e, em especial,  autista. Traz uma expansão do pensar a respeito deste sujeito e sua subjetividade. Maleval de imediato nos provoca a questionar os semblantes que nos são apresentados, numa tentativa de pensar à luz do olhar de fora, para que seja possível ultrapassá-lo.
Procurando reduzir o sujeito ao seu corpo, a psiquiatria hoje lhe confisca a competência no que se refere ao conhecimento dos seus transtornos (Maleval, 2017).
A ignorância da estrutura que nos constitui, serve de ferramentas para o Outro [seja o imaginado por nós, em forma de superego, ou o outro real], manipular a sua maneira, como algo estranho, disforme e incapacitado para servir aos ideais da sociedade. O sujeito autista tem muito a falar, a ensinar. Bem como qualquer outro sujeito que apresenta um transtorno. A especie humana tem a tendência a dar nome para o que não conheça, por ser incapaz de lidar com o que não está visível à compreensão. É preciso dar nome para falar sobre "isso". Já para Bion em "Seminários Italianos (2017)", é preciso ser muito corajoso para se colocar no lugar de ignorante frente ao outro. 

Para saber algo sobre alguém, é preciso sentir a angústia de nada saber sobre. Capacidade que continua a ser ocultada, por medo de ocupar o lugar de ignorância. Ser analista é justamente aprender a lidar com o não-saber de si mesmo, oferecendo possibilidades para que se possa apreender com o não-saber a saber algo sobre si e, só assim, saber algo sobre alguém a partir do lugar de ignorância. A única coisa que Eu sabe é que nada sabe. Assim sendo, o ser humano cria sintomas para não lidar com o vazio angustiante que a ignorância oferecer. Não saber é, em essência, o mesmo que impotência e descontrole.

domingo, 29 de outubro de 2017

DA ESCRITA À FALA: DESATAR PARA NÃO ADOECER




É difícil ultrapassar um pensamento que antecede à nós mesmos. Com certa frequência, nos debatemos na dor de existir, sem tomar qualquer atitude. O sujeito rende-se ao que lhe assegura [mesmo que imaginariamente], num trabalho braçal de criar meios de controle sobre à vida.

Planeja sua morte, onde repousar seu corpo sem vida e o que deixar para quem fica. O medo não é de deixar desprotegido os que ficam, mas de não ser lembrado por estes. Quer-se moldurar-se-a-si-mesmo, para que possa ser sempre lembrado. Mas a vida não pode ser captada pelas lentes de uma câmera, com a perfeição da psique humana. Retratos podem ser quebrados, fotos podem ser rasgadas, mas não há nada que possa apagar o que se inscreveu e se inscreve em nós.

O sujeito é denunciado pelo inconsciente através dos detalhes, pelas bordas da ação. Entre as palavras do poema, da poesia, do roteiro de um teatro, de um texto curto ao longo, da curta ou longa frase dita, do discurso menos elaborado ao erudito. Ele sempre nos atravessa. Somos inocentes em acreditar que podemos ter algum domínio sobre nós mesmos.  O inconsciente é uma força que nos governa.

É nitidamente possível se habituar a viver mal, pela impossibilidade de tomar as rédeas da própria vida. Mas é possível se reinventar diante desse impossível que é desenhado pelo inconsciente. A arte em suas infinitas faces, nos apresenta um movimento de criatividade frente ao acaso e a surpresa da vida.

Mas também existe a psicanálise, que nos propõe a ideia de movimento, oferecendo um lugar para que o sujeito trabalhe duro para criar um saber a respeito de si mesmo e, assim, poder dar cor a sua existência no real e fazer as pazes com esta força selvagem, pode se haver e se responsabilizar com o que lhe impede de caminhar.

A única maneira de viver no real é se reinventando atravessado pela fantasia. Na fantasia o sujeito dá cor ao real. É preciso saber o que dói, para que se possa entender do que se trata e aprender a fazer algo com esse sentimento. É repetindo que se constrói um saber. É preciso pensar a respeito do que nos causa, para que seja possível ser criativo e não arriscar a ser iludido por algo que nos petrifica e nos deixe à mercê do destino.

O sujeito escreve para compreender o que lhe habita, fala para poder se ouvir e construir meios para fazer algo novo com o antigo que se repete. Em ambos os tempos criativos [escrita e fala], faz-se necessário que exista um Outro humano [ignorante das certas] que possa ler e ouvir. É pelas vias do amor que se faz possível [re]pensar e [re]organizar o que não funciona em nós mesmos.

O sujeito passa a vida se concentrando no que funciona, tolerando a desordem que lhe habita. Fracassa-se na vida na vã tentativa de planejar a proteção uns dos outros e a de si mesmo. O medo que se cultiva não é do que se perde, mas do que ainda há de se perder pelo caminho.

Que atravessados pela arte, literatura e psicanálise não percamos a sensibilidade, a capacidade de se emocionar e de se permitir ser tocado pelo sofrimento do outro. Na simplicidade se desnuda qualquer que seja a estrutura intelectual mais sofisticada da palavra. Para se aproximar do que se pode compreender de natureza selvagem do ser humano, é necessário que nos desarmemos para desenvolver uma escuta que torne possível acessar [pelo discurso oculto] a estrutura que o analisante denúncia. 

Maicon Vijarva
Psicoterapeuta de Orientação Psicanalítica
📞 (17) 98151-6943
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sexta-feira, 27 de outubro de 2017

AINDA SOMOS OS MESMOS


Nossa dor é perceber que mesmo fazendo tudo que fizemos, ainda somos os mesmos. Digo a respeito do que nos constitui como sujeito do inconsciente. É como Belchior nos pinta em sua letra “Como nossos pais”, quando recita: sinto tudo na ferida viva do meu coração.

Lutamos dia após dia, para romper com o cordão umbilical que nos prende aos nossos pais. É preciso nos servir destes para que no futuro seja possível ultrapassá-los, sem a isenção de ser atravessados por uma angústia do êxito.

Às voltas com a repetição, reafirmo pelo discurso das letras que se amontoam aqui, que a experiência da análise nos possibilita ser criativos com nossa repetição, com a estrutura que nos constitui como sujeitos do desejo.

Não me atrevo a descrever neste texto, que outras abordagens não sejam de valia para certos sujeitos. O que possa falar é da minha experiência com a Psicanálise. A Psicanálise se constitui [se reinventa a sua maneira] criando um percurso outro que ultrapassa a Psicologia, por estar às voltas do que para o sujeito é impossível de nomear, que não há cura, que é preciso ser criativo ao extremo para diante o impossível ser capaz de se reinventar.


Na repetição vivemos criando uma singularidade, algo que mesmo em sua mesmice, traz sempre um novo tempo, uma nova questão para ser pensada. E como bem se sabe, não é novidade que o sujeito [ainda mais contemporâneo] não que se haver com o que lhe causa dor, que dilacera o seu interior quando se propõe a difícil tarefa que é [re]pensar a si mesmo.



Maicon Vijarva
Psicoterapeuta de Orientação Psicanalítica
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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

ENTRE O CERTO E O ERRADO, EXPERIMENTE VIVER

Artista EDUARDO-BERLINER, obra ROSTO
A vida é selvagem e doce, a sua medida. Mas, nunca agridoce. Para ela não existe meio termo, é tudo ou nada. Viver é apostar tudo [mesmo quando não se tenha nada], por isso temos tanto medo de estar fazendo tudo errado.

Não há remédio que dê conta dessa rasura que se traduz muitas vezes em vazio, produtora de um medo de estar a fazer de modo errado, mas com certa porcentagem de intuição de estar no caminho que aponta para uma realização que está mais, mais ainda além do que podemos descrever em palavras.

Viver em outros tempos, quando não se havia nada, tinha um peso caro para o sujeito. Mas, o que pesa mais para o sujeito do século XXI é estar diante de um horizonte de infinitas possibilidades e com a difícil tarefa de escolher o que fazer.

O moderno nos convoca a escolher entre o prazer do gozo e o caminho árduo que está escrito em nós [estrutura que se constituiu nosso inconsciente], que infinitamente nos leva a produz [repetições] sem nosso consenso.

É possível lutar no terreno do impossível, mas é preciso conhecer o mínimo e, mais ainda, das ferramentas que nos utilizaremos para pintar nosso percurso. Entre o certo e o errado, experimente viver.

Maicon Vijarva
Psicoterapeuta de Orientação Psicanalítica
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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

PSICANÁLISE: UM ATO DE MOVIMENTO


 “a Psicanálise é uma terapêutica, a da neurose, e é ao mesmo tempo uma teoria psicológica, uma teoria geral da natureza humana e especificamente da existência do inconsciente e das manifestações deste em sonhos, sintomas, no caráter e em todas as produções simbólicas" (Erich Fromm,1969).

A psicanálise é um movimento de tratamento elaborado por Sigmund Freud, através de estudos sobre o sujeito de sua época, que apontou ao seu criador o caminho para a descoberta do inconsciente. O tratamento analítico, em sua constante descoberta de novos elementos, está na escuta investigativa do discurso [entre o real e a fantasia] do sujeito em seu sofrimento psíquico.

Essencialmente é uma teoria que se propõe estar junto com o sujeito do inconsciente em seu percurso na elaboração de um saber a respeito da estrutura que o constitui.  Faz necessário trazer em alto relevo, que negar o sofrimento psíquico ou realocá-lo não basta para extinguir seus sinthomas.

A dinâmica do que causa o sujeito oferece à psicanálise elementos para pensar o que constitui o sujeito. Na análise com crianças e adolescentes, o dinamismo está em percorrer o que há no saber desses sujeitos e como ele está se constituindo. De acordo com Françoise Dolto, “as crianças são os sintomas dos pais”.

O que nos aponta a pensar o contexto familiar e que nele, estrutura um saber inconsciente para cada membro que o compõe. A escuta analítica ouve o que falta ao sujeito e, mais ainda, o que ele fez/faz com o que lhe falta. O nome recebido pelo sujeito, o seu lugar no desejo dos pais, a dinâmica que o constitui nessa família, o estágio que vivenciava em seu desenvolvimento quando certos eventos ocorreram, a relação com a função paterna, – entre outros elementos – são reveladores na elaboração do pensar a posição o sujeito se coloca frente ao outro e aos acontecimentos da vida. A psicanalista lacaniana Flávia Albuquerque (2011), 
“a partir destes detalhes, o sujeito constrói um certo ‘discurso inconsciente’. Discurso este que o analista está apto a escutar e desenvolver, em forma de interpretações, ao sujeito que busca. A escolha da profissão, dos parceiros amorosos e decisões tomadas estão intimamente ligadas a todo este contexto”.
A autora levanta uma questão importante, quando direcionamos para a pergunta de quanto tempo dura uma análise. A psicanálise apresenta um percurso de tratamento longo, por oferecer a possibilidade de pensar o que causa o sujeito frente o desenrolar da vida. Para Flávia Albuquerque, uma análise levada ao pé da letra é um osso duro de se roer, mas o que não quer dizer que os seus efeitos sejam morosos.

Entrar em análise, não isenta o sujeito das repetições que o estrutura até o momento da busca por tratamento, tampouco, tantos outros acontecimentos que virão a ser importantes de ser trabalhados. Para além disso, existe uma outra questão que borbulha os sujeitos que buscam à análise. O valor do investimento. Muitos pensam que o valor das sessões em psicanálise seja caro. Sim, pode até ser.

Mario Sérgio Cortella, faz a consideração de que caro é aquilo que não tem valor, que não vale o que se paga. Para Flávia Albuquerque, a psicanálise ser um tratamento cara, não significa que o menos favorecido não possa se submeter a uma análise. O que nos revela que a análise é cara para cada um à sua maneira.

Aquele que arrisca e aposta tudo em sua análise, é um sujeito que ousa ao trabalho árduo de se propor à questionamentos sobre a relação consigo mesmo e com o outro. É impossível atravessa a vida ileso de sofrimento, porque na vida é preciso se reinventar e conviver da melhor forma possível com as causas da dor de existir.

Ao se submeter a uma análise bem conduzida, o sujeito é informado pelo analista sobre a existência e funcionamento do inconsciente que o estrutura, esse ato proporciona ao sujeito um movimento de transformação ante a vida.

Os efeitos de uma análise é subjetivo, não existe um saber uniforme [na psicanálise] que dê conta de padronizar um método, pela ética de que cada sujeito é único em sua maneira de existir no mundo.

Maicon Vijarva 
Psicoterapeuta de Orientação Psicanalítica
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Referências
ALBUQUERQUE, Flavia - Afinal, o que é psicanálise? (2011) Link:  https://goo.gl/cdJrGc
FROMM, Erich – A missão de Freud, 1969. Rio de Janeiro, Editora Zahar.